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domingo, 30 de dezembro de 2018

A Floresta Natalina de Emanuel


Quando Emanuel nasceu, conta-se que ele fora encontrado recém-nascido num galho de árvore, dentro de uma flor aroseada tão grande que as pétalas macias, frágeis e ao mesmo tempo protetoras envolviam por completo o menino que só fora descoberto porque passava por ali um grupo que escutou o seu choro mimoso. Esta fora a única flor gerada por aquela árvore, como se ela tivesse concentrado todo o seu florir naquela amostra unigênita de sua botânica. A flor fechara para nunca mais se abrir depois de ter deitado ao mundo o jovem Emanuel.

A árvore de cuja flor brotou Emanuel era frondosa, de galhos cheios que faziam uma refrescante sombra aos passantes. Pela história do nascimento de Emanuel que corria de boca em boca por ali, chamavam-na de Árvore que dá Vida ou Árvore Mãe. Com o tempo e o costume do povo, falava-se apenas em Árvore da Vida. De fato, não era um árvore qualquer: Ela se destacava em meio as outras pela verdedura e pela energia que inspirava a quem a olhasse de perto. Quando a brisa leve farfalhava seus galhos, ela parecia alegrar-se e o barulho de suas folhas lembrava um canto de amor. O vento acariciava-a e ela zunia docemente em agradecimento.

Emanuel que agora já era um menino, escutara a história de seu nascimento diversas vezes, contada por todos do pequeno vilarejo perto de onde a árvore estava. Já fazia algum tempo que Emanuel decidira ir morar à sombra da Árvore da Vida. Ora, já que lhe diziam que ele brotara da árvore, nada mais justo do que ele morar aos seus pés, pensara. E assim fez: Armou a sua tenda à proteção dos galhos da Árvore da Vida e por ali ficou.

O pequeno Emanuel era conhecido e querido por todos do vilarejo. Ele caminhava até lá todos os dias. Passeava pela praça onde sempre encontrava conhecidos que lhe davam o de comer ou algum dinheiro em troca de pequenas tarefas e trabalhos simples. No fim do dia, ele voltava para a Árvore e, já ao longe, quando avistava os seus primeiros galhos, o seu coração se enchia de alegria. Havia tardes que, enquanto o sol se punha, ele ficava contemplando a Árvore e meditando sobre a história de seu nascimento. Assim, passavam-se os dias do infante Emanuel.   

Certa vez, Emanuel notou lá na copa da Árvore algo diferente de folhas. Era algo com tons de amarelo vivo. Subiu no galho mais baixo e depois trepou-se em uma mais alto até conseguir ver do que se tratava: Era um fruto amareleço de formato violão que Emanuel não conhecia. Ele escalou em outro galho ainda mais alto e logo podia tocar no fruto novo. Colheu-o. Era o primeiro fruto não menino que a árvore dava. Sua superfície era levemente aveludada e acariciável ao toque humano. O cheiro doce e inebriante atiçava o paladar. Emanuel teve vontade de comê-lo e ali mesmo, embrenhado entre as ramas da Árvore da Vida, fartou-se do fruto novo. Pela primeira vez na eternidade saboreou-se dum alimento de suculência tão saciadora. Era uma delícia de fruto que podia ser abocanhado com leveza e que enchia o paladar de tão aquoso que era. Emanuel festejou agradecido pelo novo fruto. Depois, desceu até sua tenda e recostado no tronco da Árvore adormeceu. E sonhou um sonho tão lindo e sagrado que não ousou contar a ninguém sobre as maravilhas dos mistérios insondáveis que vislumbrou naquela noite. Seu coração de menino estava acalentado.

Na manhã seguinte, para sua surpresa, a Árvore da Vida frutificara mais uma meia dúzia de frutos. Emanuel apanhou-os em uma cesta a fim de levá-los para o vilarejo. Lá, distribuiu-os para aqueles que eram mais pobres e famintos, como ele. Naquele dia, porém, Emanuel notou que as pessoas o cumprimentavam dispensando-lhe mais atenção do que o costume e dando-lhe os parabéns. Foi quando lhe caiu na conta que com a colheita do fruto novo, esquecera completamente de que dia era aquele: o dia em que se comemorava o seu nascimento. Emanuel ficou ainda mais contente, pois sabia o que isso significava: era dia de festa. Desde que completara um ano de vida, era costume dos moradores do vilarejo que nesse dia, ao cair da tarde, todo o povo se reunisse em torno do lenhoso tronco da Árvore da Vida, levando velas e lamparinas que penduravam nos galhos para ali celebrarem a vida de Emanuel. Dessa vez, além de toda a comida e bebida trazida por eles, haveria também os novos frutos da Árvore da Vida. E, de fato, a alegria e o encanto com os novos frutos foram tão intensas, que os cantos e danças arrastaram-se noite adentro e os homens e mulheres daquele tempo chamaram aquele festejo de Natal.



Dias depois, Emanuel notou que ao redor da grande Árvore nasceram várias outras pequenas árvores da mesma espécie. Passado alguns meses, rápido como o soprar do vento, elas já não eram mais brotos pequenos, mas sim verdadeiras árvores cujos galhos se encontravam formando um único teto esverdeado sob a cabeça de Emanuel e de quem por lá passasse. Era uma inteira floresta nascida da Árvore da Vida. E apesar das árvores serem todas irmãs, misteriosamente cada uma delas produzia um fruto diferente nas cores e nos sabores. Que floresta adorável essa em que o jovem Emanuel vivia!

Agora, haviam dias em que ele não era mais visto no vilarejo e julgavam que estava na floresta que se alastrava dia a dia. Ainda assim, os viajantes que por lá passavam raramente o encontravam. A floresta era toda silêncio humano. Só os pássaros e o vento nas folhas pareciam cantarolar um perene hino sacro. 

No vilarejo os boatos eram incontestáveis: O festejo do Natal daquele ano ia ser o maior de todos, pois havia agora uma inteira floresta com frutos em abundância para celebrar. Outros moradores de vilarejos mais distantes, peregrinos e até estrangeiros também apareceriam para a festa do Natal que ganhava novas proporções.

De fato, naquele ano, o Natal de Emanuel foi grandioso. Mas com a sua grandeza, aconteceu de um ou outro festeiro, tomados por um instinto egoísta que contradizia o espírito da comemoração do nascimento de Emanuel, armarem-se de instrumentos cortantes a fim de levarem para si árvores do Natal, ferindo a Floresta e a celebração. Eles queriam cultivar as árvores só para si mesmos, privilegiando-se de seus frutos, e os mais vis já almejavam enriquecer com o comércio da frutificação das árvores do Natal. Então, Emanuel que subira em um dos galhos da Árvore da Vida gritou a estes e a todos, proclamando:

- Depõe tuas armas e sê bem-vindo! Cá, à sombra acolhedora da Árvore de Natal, dividimos os frutos desse convívio de fraternidade! É desejo de partilha e de festejo do Reinado Divino! Dá mais um passo, chega mais perto, coma e beba dessa ceia natalina sem nenhuma paga! Inebrie-se com os frutos dessa Árvore de Vida que nos abraça a todos e todas com seus galhos frondosos e frutificados! Entra na roda com a gente e cante um hino natalino que alegra e resfolega o coração de utopia! Que saudades de um mundo melhor!

Fez-se silêncio. E o som do farfalhar das árvores pelo vento, escutado por pessoas saciadas pelos frutos das árvores da Floresta, despertava nos convivas o desejo de cantar cantos e hinos de alegria, os cantos de Natal. E o Reino da festa de Natal vigorava e tudo parecia suficiente.

Outros festeiros de terras longínquas, mais acanhados e discretos, procuraram Emanuel para dizer-lhe o quanto o Natal os repleitavam e do desejo sincero e profundo de poder celebrá-lo novamente em suas terras e lares distantes, pois sabiam que não poderiam voltar à Floresta de Natal. Emanuel escutou-os a todos com compaixão e misericórdia. Ele sabia o que eles queriam e precisavam: levar uma das Árvores de Natal e cultivar a celebração que se realiza ao seu redor. E assim ele lhes concedeu. Mas, na intimidade de seu coração, Emanuel sabia que o tempo da Floresta da Árvore da Vida estava acabando e que ao redor das árvores de seu nascimento nascia agora algo novo e maior: a propagação do Natal.

Aquela noite foi a última em que Emanuel foi visto pelos festejantes do seu Natal. Ele nunca mais apareceu no vilarejo. Alguns dizem que ele permanece na Floresta de Natal e que na época das comemorações natalinas ainda é possível vê-lo dançar enquanto come frutos novos. Outros dizem que ele viaja mundo afora, levando Árvores de Natal e sua celebração de fraternidade e partilha para outros povos e nações. Os mais místicos arriscam dizer que Emanuel faz-se sempre presente toda vez que um punhado de gente se reúne em torno de uma árvore para celebrar o Natal.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A confusão do Kalendas de Natal no folheto Paulus

A editora Paulus publicou folheto da Missa de Natal com alterações no tradicional texto da Kalendas - anúncio do Natal e isso está dando o que falar.

A maior parte das críticas ao Kalendas paulino se referem a menção de elementos e personagens de religiões e tradições culturais não cristãs.
Veja como ficou o folheto depois da adaptação do Anúncio:


O texto é inoportuno. E não é pelas menções extra ecclesia. Sobre isso, parece que um comunicado da editora já explicou o que qualquer católico com mais do que a catequese de primeira eucaristia já sabe: O texto, assim como o original em latim, faz menções não só à história bíblica - o original menciona a cultura romana -. A adaptação buscou incluir também a história antiga de outras culturas orientais e ameríndias.

E por que a inclusão?
O Concílio Vaticano II admite “elementos de Verdade e graça” e “sementes do Verbo”, para além das culturas judaico-cristãs (cf. Decreto Ad Gentes 9 e 11).

E mais. A Kalendas da editora paulina não faz "caldo religioso", equiparando Jesus com líderes espirituais e religiosos de outras tradições. No texto sobressai a centralidade da Pessoa de Jesus, homem e Deus. Tudo o mais presente no texto do Anúncio de Natal está em referência a Ele. Nesse sentido, o Kalendas favorece uma compreensão de que Jesus encarnado redime toda a humanidade e redimensionar as diversas experiências religiosas da humanidade.

Mas então por que o texto é inoportuno? Simples! Porque a grande parte das comunidades que usam os folhetos da Paulus desconhecem esses novos elementos inseridos no texto. Pergunte lá na sua comunidade quem foi Lao-Tsé e verá a resposta...

Pensando nisso, decidimos ajudar você e sua comunidade que vão celebrar a Missa de Natal com o folheto da Paulus, fornecendo alguns pontos interessantes para reflexão das controvertidas partes do Kalendas:

1) "Enquanto, no México, os ameríndios construíam a cidade dos deuses": Gente, aqui com certeza é Tenochtitlan (hoje Cidade do México), fruto da cultura Asteca. É desse meio que nascerá depois a devoção à Virgem de Guadalupe, por meio do ameríndio São Juan Diego. 

2) "Seiscentos anos depois que o Espírito de Deus revelava o brilho de seu esplendor na China a Lao-Tsé": Lao-Tsé é um sábio oriental que fundou a tradição religiosa taoísta. Nesse ano o Vaticano assinou junto com líderes espirituais do Taoísmo um documento em que ambas as religiões comprometem-se a conscientizar seus adeptos sobre a "importância de educar as crianças ao respeito, apreciando a cultura e o patrimônio próprios, bem como a do outro". Veja mais aqui: http://br.radiovaticana.va/news/2016/10/17/encontro_em_taiwan_diálogo_cristão-taoísta_seja_farol_luz/1265693

3) "Na Índia, a Buda, o Iluminado": Buda deu origem ao bem conhecido Budismo. Já é tradição que anualmente o Vaticano envie uma mensagens aos "amigos budistas" por ocasião das festividades da vida de Buda. E os textos não têm medo de afirmar que Buda passou por um processo de "iluminação", como você pode ver na mensagem desse ano de tema ecológico: http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/05/06/0320/00736.html

4) "E, no Ocidente, inspirava a sabedoria grega": Aqui estamos falando da Filosofia... Sócrates, Platão, Aristóteles e companhia. São Justino em sua obra Apologia afirma: "Sócrates foi um cristão assim como Abraão, ainda que ele não o conheceu" 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Porque não sou contra Papai Noel

Há por aí um discurso religioso que em nome da promoção do verdadeiro sentido do Natal – o Nascimento de Jesus – tenta se livrar do velho gordo e vermelho. Muita gente cria uma aversão tão grande a lenda do bom velhinho que não permite que as crianças tenham contato com nada que lembre o homem. Uma grande bobagem!
Concordo que Papai Noel não é o mais importante do Natal, mas “demonizar” o simpático entregador de presentes…me soa fanatismo!
É mesmo necessário abrir mão de uma figura tão enraizada na cultura e no imaginário infantil para ensinar que o Natal é o aniversário do Menino Jesus? Existe um conflito ‘Papai Noel versus Menino Jesus’ ou nós é que criamos ele? As crianças que não conhecem a história do Papai Noel ou não dão a mínima para ela são mais cristãs do que as que curtem o bom velhinho?
É mais interessante e mais inteligente também livrar Papai Noel da exagerada profissão de garoto-propaganda e enfatizar o que parece que em essência ele realmente é: Um velhinho que generosamente entrega presente às crianças nas vésperas de Natal. Perdemos muito quando gastamos o nosso tempo tentando nos livrar de algo que, no fim das contas, poderia nos ajudar. Encare a verdade: Papai Noel é hoje um elemento da cultura natalina e você não pode se livrar dele! Mas, não acho que isso seja algo ruim, veja só:

·        Papai Noel é um entregador de presentes ‘mágico’, por isso, os presentes de Natal trazem um valor muito maior do que o dinheiro que valem. O valor do presente é algo secundário, o importante é o gesto de receber algo ‘especial’;
·        Presentear é doar, agradar e alegrar o presenteado. Os presentes são uma prova e um sinal de amor. Eles fortalecem vínculos de afeição, respeito, e confiança mútua; ensinam o valor da generosidade e do altruísmo;
·        A ‘presença’ do Papai Noel é um sinal da existência de épocas em que a bondade humana se afirma de forma gratuita, isto é, não pensa nas consequências disso;
·        A atividade do Papai Noel torna manifesto o valor da casa onde se recebem os presentes e onde se contam as histórias sobre ele. Valoriza o lar como lugar de encontro e de importância, afinal, é onde os presentes são entregues e onde os pais gastam o tempo contando aos filhos a história do bom velhinho, é convivência!
·        Todo mundo sabe que é preciso se comportar bem para que Papai Noel traga os presentes. Há um forte caráter moral e educativo nessa prática;
·        A expectativa pela vinda do Papai Noel gera encantamento e alegria e toda criança tem direito a encantar-se, alegrar-se e sonhar!
·        Receber os presentes do Papai Noel estimula a noção da possibilidade e da necessidade da graça e da benevolência imerecidas;
·        Ao transmitir aos filhos o conhecimento do Papai Noel, pais muitas vezes, passam para as gerações os sentimentos que eles mesmos experimentaram na vida. É saber compartilhar.

Ponha o homem de vermelho para ‘jogar’ no seu time. Tem gente que faz isso aproximando-o da figura de São Nicolau, de quem ele deve a sua origem; Tem gente que põe uma imagem dele no presépio, olhando para o Menino Jesus...seja como for, eu acredito que, em um mundo em que a família é cada vez mais desfacelada e agredida, é urgente resgatar a imagem do homem que ensina valores tão importantes, que ensina os pais a gastarem tempo com os filhos, presenteá-los, que ensina as crianças o valor de sonhar. Dito de outro modo, Papai Noel nos ensina a amar.  

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Epifania a partir dos nomes dos Reis Magos

Epifania significa manifestação. É sabido por muitos de nós que não se tem certeza se os misteriosos reis Magos do Evangelho de hoje eram realmente reis e nem mesmo se eram três. O fato é que a tradição conservou inclusive os seus nomes. E é a partir deles e do evento epifânico do Senhor que pretendo desenvolver essa reflexão.

“Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,3)

  1. Luz dos Povos
Um dos reis Magos chama-se Melchior que significa rei da luz. De fato, Melchior e seus companheiros se deram conta de um sinal iluminador, uma estrela. É a partir daí que eles empreitam por uma busca, por um caminho rumo a Algo que eles sabem ser maior que esse sinal luz que os orientam, buscam o Rei da Luz (cf. Mt 2,2).  
A vida de todo aquele que busca Cristo é uma constante peregrinação rumo a Ele. É um movimento, um desejo de sair de si e ir ao encontro de algo Maior, do Cristo. Ele também veio ao nosso encontro. Em sua divindade, Ele quis aproximar-se de nós, sendo um de nós, humano e nascido em nosso meio. Aquele que não caminha ao encontro do Cristo que veio, não caminha sob à luz (cf. Is 60, 3). Fato é que, muitas vezes, sentimos que nossa vida caminha como que envolvida em trevas, sob nuvens escuras (cf. Is 60, 2) que são os problemas, as dificuldades e os sofrimentos que o cotidiano da vida nos traz. Como é difícil caminhar nessa hora! A caminhada da vida fica pesada, parece que estamos sós e que não há luz que nos inspire como continuar... Também os reis Magos em certo momento de sua trajetória rumo a Jesus ficaram sem a luz da estrela que os orientavam.
O melhor a fazer nessas horas de escuridão da vida é levantar-se e acender uma luz! (cf. Is 60, 1), que é a fé daquele que caminha, mesmo quando não parece possível caminhar... Olhar ao redor, para os outros que dividem conosco a mesma caminhada e que buscam a mesma felicidade no encontro com Cristo, pode ser que ajude (cf. Is 60, 4-5), nos trará alegria e força para seguir adiante. Olhar para a própria vida e perceber os momentos “luminosos” em que Deus agiu, as várias ocasiões em que a estrela da sua luz iluminou a nossa vida, nos leva a darmo-nos conta de que, de alguma maneira, a estrela do Deus que nos atrai a si, está lá, brilhando para nos guiar. Os reis Magos ao se darem conta de ver de novo a sua estrela-luz guiadora, encheram-se de Alegria (cf. Mt 2, 9-10). O Cristão também é assim, alegre porque caminha com Deus, rumo ao encontro definitivo com Ele. Nossa vida é uma peregrinação de luzes e sombras, mas que não significa, de modo algum, uma caminhada triste ou vazia de sentido.

“Com justiça ele governe o vosso povo” (Sl 72)

  1. O encontro com Cristo transforma a realidade
Outro dos reis Magos é conhecido como Gaspar. Seu nome significa “aquele que guarda os bens de Deus, tesoureiro”.  Esse significado logo nos faz lembrar que Deus, Criador do mundo, o confiou-o a nós, para guardá-lo e cultivá-lo (cf. Gn 2,15). Com o tempo, o homem organizou-se de tal forma que escolheu dentre eles alguns representantes para proteger e reger de forma justa em vista do bem comum. Porém, sabemos por vasta experiência que nem sempre os governantes assumem esse papel e na verdade, passam a pensar em seus próprios interesses. Herodes, por exemplo, no Evangelho de hoje está mal intencionado quanto o nascimento de um menino que está sendo chamado de rei pelos reis Magos (cf. Mt 2, 2-3). Ele é a figura de um governante que usa o poder a ele confiado não para o bem do povo, mas apenas para mante-se no poder. Ele menti e simula suas verdadeiras intenções aos reis Magos, escondendo o seu verdadeiro interesse por trás do seu desejo de “adorar” Jesus (cf. Mt 2, 8).
Entretanto, os reis Magos, após o encontro com Jesus mudam o seu caminho. O encontro com Jesus sempre gera mudança, nunca é um encontro inerte, apático. O encontro com Cristo definitivamente transforma a vida de quem com Ele se encontra. Os reis Magos não compactuam com o projeto de Herodes, eles percebem que estava na hora de um novo caminho (cf. Mt 2, 12).
Estamos em ano de eleições. O rumo que nosso país vai tomar está em muito sob a nossa responsabilidade um vez que vamos escolher os que irão governar. Em uma época em que os primeiros corruptos foram punidos de forma pública pelo mau uso do poder a eles confiado, urge de nossa parte uma atitude concreta que impeça cada vez mais que a corrupção esteja presente no governo por meio dos seus membros. Uma das maiores manifestações que os brasileiros poderão fazer, será diante da urna, na hora de votar.
Que possamos escolher representantes íntegros, de “ficha limpa”, que transpareçam interesse pelas causas comuns da justiça e da paz, em atenção aos mais pobres e indigentes da nossa sociedade (cf. Sl72).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança” (Ef 3,6)

  1. Uma Epifania Ecumênica
O último dos reis Magos, segundo a antiga tradição é chamado de Baltazar que tem o seguinte chocante significado: Rei protegido pelo deus Baal.
 Parece um absurdo que, ao que tudo indica, um dos reis Magos que tenha visitado Jesus tenha um nome que em seu significado alude ao deus pagão Baal. Talvez seja algo no mínimo estranho porque o deus Baal é mencionado em uma série de relatos bíblicos, principalmente no Primeiro Testamento em que seu culto e seguidores são combatidos com frequência (cf. Jz 2, 11-16). O fato é que irremediavelmente a tradição afirma que Baltazar estava lá.
De fato, podemos compreender a sua presença justamente como a abertura ao mundo pagão da Boa Nova que é Jesus Cristo. São Paulo na segunda leitura de hoje nos diz que também os de outras religiões “são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3, 6). Essa forma de pensar nos impele para além da ideia de conversão daqueles que não são católicos, para a compreensão de que há outros caminhos e tradições religiosas, umas mais próximas outras nem tanto da nossa forma de pensar e se relacionar com Deus, mas que todas merecem o nosso respeito. Valorizar o que há de bom e conhecer outras confissões religiosas não significa perder a nossa identidade. Tolerância não é deixar-se levar.
Em um mundo plural, ou seja, formado por pessoas que pensam de forma diferente, há algo que nos une. Resta a nós dar maior importância àquilo que é comum entre nós do que aquilo que nos difere. Ser feliz é algo que todo mundo quer. Esse desejo está dentro do coração de todo ser humano. Perceber que não é possível ser feliz sozinho e que o diferente é justamente aquilo que nos enriquece, já é um grande passo.


Que hoje Maria, Mãe de Deus, nos mostre, como mostrou aos Magos (cf. Mt 2, 11) o seu Filho, Luz que transforma o que ilumina!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Deus da Noite Luminosa



Uma vez houve uma noite de puro Deslumbramento e Alegria
Uma noite Luminosa como o dia
Nessa noite, os que habitavam a terra das sombras viram uma Luz de Esperança
Aqueles que caminhavam nas trevas souberam de um Deus Forte nascido como criança
Era a Luz Verdadeira, Iluminadora dos homens, Luz do Mundo!
E a Luz brilhou e para nós todos resplandeceu
Mas no mundo houve quem não a reconheceu
É Jesus o nome do Menino Luz que essa noite irradia tamanha alegria!
Filho da pobre Maria, não encontrou ao nascer nem hospedaria
Mas na Sua Luz há vida em abundância para também a nossa vida iluminar!
«Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai»
É essa a noite, o Natal, o nascimento, o convite: ao Menino Deus saudai!
Quem vislumbra Deus sente alegria e nesta noite, vemos algo da Sua luz.
Por isso, desejamos que todos digam conosco que “o nosso Natal é com Jesus!”

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O que aprendemos com os Pastores que viram Jesus nascer?


"Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado"(Is 9,5)
Os pastores receberam o anúncio do Anjo que dizia: «Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). Desde então, Jesus Cristo se fez presente, O Emanuel - Deus conosco. Ele está no meio de nós!(Cf. Mt 28,20). É preciso que como os pastores, sejamos vigilantes e permitamos que o menino-Deus nasça também em nossos corações e não só no Natal, mas em todos os dias. Porém, como é possível fazer isso?? Ora, a resposta nos é dada pelos próprios pastores que receberam o anúncio!O que eles fizeram quando souberam da grande alegria do nascimento do menino-Deus? "Disseram entre si: Vamos a Belém! Vamos ver este acontecimento que o Senhor nos anunciou" (Lc 2,15). Aí esta o segredo, a chave para a nossa pergunta. Eles saíram "com toda a pressa" (Lc 2,16) e foram ao encontro de Jesus. Será que nós também saímos com toda a pressa em busca de Jesus, ou será que só temos pressa para as coisas do mundo, deixando Jesus em segundo lugar?? Devemos, de fato, ter o Tempo de Deus como prioridade em nossas vidas. Assim, seguramente, estaremos no caminho certo rumo á vida eterna.

O Natal nos lembra também, o fato de Jesus ter nascido pobrezinho em um estábulo, numa manjedoura (cf.Lc 2,12). Mas o que isto realmente significa? O Ofício da Imaculada Conceição, uma oração belíssima rezada pela piedade popular brasileira, nos traz duas invocações á Virgem Maria que podem nos ajudar a entender as circunstâncias do nascimento de Jesus. Uma delas diz: "Deus vos salve, Relógio que, andando atrasado, serviu de sinal ao Verbo Encarnado. Para que o homem suba às sumas alturas, desce Deus dos céus para as criaturas." Nesta invocação Maria é representada pelo relógio, pelo qual é indicado que o Sol teria parado, segundo um episódio bíblico (cf.2Rs 20,8-11;Is 38,7-8). O fato do Sol, que aqui representa Jesus, parar, ou atrasar indica que "O Verbo se humilhou, tomando a forma de servo" (cf.Fl 2,7). Ainda comparando Jesus ao Sol, podemos ver a outra invocação que nos diz: "Com os raios claros do Sol da Justiça, resplandece a Virgem dando ao Sol cobiça". Assim, Mesmo Jesus sendo Deus, encarnou-se e tornou-se humano, sendo o menino-Deus; E sua Mãe, a qual os pastores também se dirigem (Lc 2,16), resplandece como a primeira entre os crentes.

Outro fato que podemos apontar é a distância da manjedoura de Jesus. Como assim? Os pastores estavam já ali perto(Lc 2,8), não demoraram muito, como vimos, a chegar ao menino. Mas, por que estavam tão perto? E nós será que estamos perto como eles do menino-Deus? Os pastores eram pessoas simples e humildes de coração, por isso eram quase "vizinhos" de Jesus, que também como vimos, ao nascer, humilhou-se a si mesmo. Note também, que os Sábios do Oriente, os Reis Magos, pessoas de renome da época chegaram bem depois(Mt 2,1.9). Não que para eles fosse impossível chegar a Jesus! Mas que nós possamos entender que quanto menos humildes e simples de corações fomos, mais distantes estaremos da manjedoura do menino-Deus e mais difícil será chegar até Ele. É como se os nossos corações fossem feitos de pedra e não de palha, macia como a da manjedoura de Jesus. Por isso, rezemos junto com o Papa:


Senhor Jesus Cristo, Vós que nascestes em Belém, vinde a nós! Entrai em mim, na minha alma. Transformai-me. Renovai-me. Fazei que eu e todos nós, de pedra e madeira que somos, nos tornemos pessoas vivas, nas quais se torna presente o vosso amor e o mundo é transformado. TRECHO DA HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI. Basílica Vaticana, 24 de Dezembro de 2009.