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quinta-feira, 26 de março de 2020

Vaticano decreta novas orientações para Missa em Latim. Verdade seja dita: é mais difícil de entender


O Vaticano, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, voltou a emitir decretos sobre a Missa em latim para os "diversos fiéis" que foram "formados no espírito das formas litúrgicas precedentes ao Concílio Vaticano II[1]". Os decretos enxertam elementos da Missa de Paulo VI no jeito medieval de rezar a Ceia[2].

O assunto é complicado. Da parte do papa Francisco, há um esforço humilde e sincero para abraçar esses diversos fiéis formados na era anterior a reforma litúrgica. Largar velhas práticas e mudar de hábito é um desafio mesmo. Para alguns isso significa perceber um afeto desordenado a práticas antigas que já não mais favorecem a transmissão da fé. Perceber e desejar, junto com o restante da humanidade, seguir a diante, isto é, para o vernáculo.

Mesmo assim, outros diversos fiéis, não formados no latim - e que possuem dificuldades linguísticas até mesmo com seu idioma natal, o também velho Português - e nem formação no espírito das formas litúrgicas precedentes ao Vaticano II, adotam, por hobbies, a Missa no rito semi-antigo (Antigo mesmo é o de Paulo VI que retoma a Igreja Antiga/Primitiva). 

Para os que não conseguem dar esse passo de liberdade, desapego e certa indiferença, talvez o melhor seja aprender bem o latim para compreender com clareza o que se diz na liturgia arcaica. A missa não é teatro, não é mesmo? Então, só decorar “falas” do “latinorum” sem entender o que se diz, se responde, se aclama... me parece, como vou dizer isso... me parece uma atuação de figurante: É estar e não estar. Portanto, estude latim! Verdade seja dita: Missa em latim é mais difícil de entender.



[1] "5. Diversos fiéis, tendo sido formados no espírito das formas litúrgicas precedentes ao Concílio Vaticano II, expressaram o ardente desejo de conservar a antiga tradição. Por isso o Papa João Paulo II, por meio de um Indulto especial, emanado pela Congregação para o Culto Divino, Quattuor abhinc annos, em 1984, concedeu a faculdade de retomar, sob certas condições, o uso do Missal Romano promulgado pelo beato Papa João XXIII. Além disso, o Papa João Paulo II, com o Motu Próprio Ecclesia Dei de 1988, exortou os bispos a que fossem generosos ao conceder a dita faculdade a favor de todos os fiéis que o pedissem. Na mesma linha se põe o Papa Bento XVI com o Motu Próprio Summorum Pontificum, no qual são indicados alguns critérios essenciais para o Usus Antiquior do Rito Romano, que oportunamente aqui se recordam" (http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_commissions/ecclsdei/documents/rc_com_ecclsdei_doc_20110430_istr-universae-ecclesiae_po.html)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Resposta da liturgia católica diante do tempo de quarentena



A fé é sempre a mesma e simultaneamente é fonte de luzes sempre novas[1]
(cf. Mt 13,52)
epidemia de Covid-19, a exigência de isolamento, a impossibilidade de contato e a exposição à morte têm provocado em nós medo, angústia, terror e desespero. Ao mesmo tempo, o imaginário da proximidade do fim leva à descoberta do que é essencial na vida e desperta coragem, esperança e dedicação no cuidado e proteção.  Não podemos impedir a pandemia do vírus, mas podemos dar uma resposta individual e comunitário à realidade que enfrentamos. Essa resposta também perpassa a liturgia católica.
fragilidade do nosso modelo clerical – em que a mediação do padre torna-se central para a celebração da fé - está diante de nós, em sua impotência e teimosa arrogância. Formamos uma Igreja que celebra a fé num nível sacramentalista que pouco valoriza a ministerialidade laical. Volvamos nosso olhar para a radicalidade do sacerdócio batismal que certamente nos levará a intuir respostas criativas e aliviará os ombros "heroicos" dos presbíteros. Dito de outro modo, estamos num “jejum quaresmal de missas e demais sacramentos”. Nesse momento, os contextos de nossas casas – para os que têm uma casa onde se isolar - são muitos e diversos. O velho jeito de celebrar os sacramentos, particularmente a Eucaristia (Missa) já não responde à realidade. Por aí há famílias inteiras – em suas mais diversas configurações, pessoas sozinhas, idosos, crianças, pessoas que não saem mais de casa, pessoas que ainda precisam sair, mas não gostariam, pessoas que precisam sair para salvar os outros e não podem voltar, pessoas que passam 90% de seu tempo no hospital... Que resposta temos a elas?

A verdade é que nós nunca experimentamos uma profunda adaptação litúrgica. Devemos simplesmente esperar que tudo passe e voltemos aos velhos hábitos de antes? Há um risco de que em vez de novas formas, tenhamos apenas as velhas formas, espalhadas em todos os meios (TV, PC, smartphone, tablet telas gigantes...), quando poderíamos voltar às fontes da Igreja Primitiva: domus ecclesiae.  A celebração da fé poderia voltar a ser doméstica, cotidiana, secular. É uma oportunidade que se apresenta para aprender e ampliar a nossa tradição litúrgica - traditio et redditio, uma outra maneira possível de dar forma à vida das nossas comunidades de fé, que continuam a existir mesmo na ausência de momentos de agregação paroquial e sem padre.
Na simplicidade das casas, podem nascer maneiras de celebrar, rezar, lembrar, buscar a sabedoria das Escrituras para navegar nesses dias incertos, de medo e desconfiança.

A liturgia distante, que se aproxima através da TV ou do streaming ao vivo, permanece irremediavelmente distante. Mesmo que seja celebrada pelo pároco, pelo bispo ou pelo papa. Substitui o nada, e isso com certeza é algo, mas não permite celebrar, de fato. Uma Igreja que conheça a importância decisiva do ato de celebração, deixa de lado a "ligação" e a "conexão" e reconhece a necessidade fundamental da presença, da qual o sentido fundamental é o tato, mas talvez também o olfato, porque é urgente sermos arrancados do isolamento e da solidão.

 Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, e Mauro Festi têm uma importante contribuição sobre esse assunto que passo a reproduzir:  

Se a liturgia é a linguagem de todos os batizados, toda pequena comunidade "em quarentena" deve poder celebrar a Páscoa, sem delegar o ato eclesial a outros. Ela fará isso em comunhão com os santos e com a Igreja, mas terá que fazer isso por si só. Portanto, a dimensão familiar - reduzida àquele mínimo de família que é cidadão individual e fiel em seu apartamento - poderá e terá que entrar na dinâmica da palavra e do sacramento. E terá que fazer isso com o corpo, com todos os seus sentidos, não apenas com a vista faminta de imagens sagradas na tela. Uma "dieta dos olhos" e um "alimento substancioso" dos outros sentidos serão a lógica de uma Igreja que está dispersa, mas que não se perde, que é fracionada, mas não fragmentada, que é apartada, mas não isolada, mas sim consolada pela linguagem comum que atravessa os corpos, aquece os corações e nutre as mentes. O anúncio da ressurreição, enquanto evento corporal, pressupõe uma Igreja que saiba ainda dar a palavra ao seu próprio corpo integral. Isso é esperança. Mesmo neste tempo dilatado e ameaçador, que preocupa e aflige, mas abre novos passos possíveis, necessários e talvez decisivos.

A Ceia do Senhor nas Igrejas domésticas
Vamos tentar, no horizonte do que foi expresso até agora, imaginar como poderíamos celebrar a Ceia do Senhor em nossas casas, como autênticas Igrejas domésticas.
Deixamo-nos guiar pela liturgia, adaptando-a aos nossos contextos. É apenas um exemplo possível de "enraizamento" da liturgia eclesial em nosso mundo e modo de vida.

a. "Em sua glória" (Contemplação da cruz da glória)

A liturgia nos faria começar com um cântico inspirado nesta antífona de entrada:
Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (cf. Gal 6,14)

Poderíamos preparar um canto específico da casa, que se torna um pouco único no tríduo e durante toda o tempo da Páscoa, para colocar de maneira estável um crucifixo significativo, por valor afetivo, por valor estético ou porque feito em família.
Poderíamos começar nos reunindo ali, se possível com luzes mais suaves (mantendo-as assim o tempo todo), não antes de começar a cair à noite.

Poderíamos contemplar a cruz cantando um refrão com as palavras da antífona, se a conhecemos, ou com palavras semelhantes, ou proclamando-as. Poderíamos compartilhar, inclusive criando-o, um refrão ad hoc, de simples beleza, como comunidade paroquial ou como diocese, e fazê-lo circular para conseguir aprendê-lo a tempo.
Poderíamos encontrar palavras breves para orientar a contemplação em direção ao esplendor da glória, e sentir que a glória de Deus na cruz de Cristo tem a ver com seu peso na história, inclusive a nossa. Poderíamos então cantar o cântico da glória para confessar o louvor a Deus que em Cristo vem para tornar nossa história uma história de salvação. Poderíamos alternar um refrão do glória, com expressões de louvor que ecoem situações da história da salvação em que a glória do Senhor se manifestou e com as quais se possa perceber que nossa situação tem semelhança.

b. "Guarde a nossa vida" (rito de custódia do mal: a porta)

Naquele mesmo "canto especial", poderíamos colocar um jarro, talvez transparente, cheio de água.
Poderíamos buscar água nele e levar para um de nossos lugares mais "carregados" de problemas, de mal. Como os judeus, a soleira, a porta da frente. Não podemos atravessá-la, porque lá fora está o mal; dentro, ao contrário, a segurança da vida. Os judeus fizeram um gesto apotropaico, espargindo a soleira com o sangue do cordeiro que depois eles consumiriam. Poderíamos lavar os batentes da porta e a maçaneta com a água, realizando um gesto que estamos repetindo com frequência neste momento para nos proteger, mas oferecendo-lhe um contexto diferente, que o ressignifica, expondo-o à presença de Deus, para que esse mesmo gesto tenha o poder de ressignificar qualquer outra "lavagem" que faremos na vida cotidiana. "Vamos marcar" a soleira da casa com a água que recebemos da contemplação da glória de Cristo na cruz e da confissão de seu peso na história, que se faz esperança de fazer dele experiência na nossa.

Poderíamos acompanhar o gesto com uma parte do Sl 121:
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.
O Senhor te guardará de todo mal; ele guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

Essa mesma água (que será reposta quando acabar) poderia ser a mesma água para encher a jarra para o jantar e, portanto, beber durante a ceia, e a mesma água para lavar as mãos antes de sentar mesa, talvez usando uma bacia e sabão.
É a mesma água e a mesma bacia com a qual será vivido o lava-pés. A mesma bacia e a mesma água poderiam encontrar um lugar em nosso canto especial, ao lado do jarro com água limpa. Como água "carregada" pela passagem salvífica de Deus, não será jogada fora, mas será guardada, pelo menos durante a época da Páscoa.

Ao atravessar a soleira, voltando para casa, pode-se narrar, em breve, a ceia judaica: como Deus pediu aos judeus que espargissem os marcos das portas de suas casas com sangue, para defendê-los do extermínio da morte, hoje nós os purificamos com a água da vida, invocando a mesma proteção.
Lavamos as mãos. Buscamos a água para colocar na mesa.

c. "Admita-nos no banquete do seu reino" (rito de aliança)

Poderíamos nos sentar à mesa, começando a ceia "abençoando a mesa" com a citação de Apocalipse (3,20; 22,20):
O Senhor diz: Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.
R. Venha, Senhor Jesus.

Inicia-se a ceia. É importante que seja uma ceia onde a ênfase possa ser colocada no pão e no vinho. Seria bom se o pão fosse preparado em casa, talvez juntos, e fosse suficiente para o dia seguinte. Diante do pão e do vinho, compartilhando-os e degustando-os, poderíamos nos ajudar mutuamente a descobrir quantas relações, quanto trabalho, quanta natureza, quanta providência, quanta Escritura há neles. E quando se chega a perceber - conversado, talvez até com histórias "do passado", trocando essas palavras cheias de gratidão e admiração - que está sendo tocada a dimensão da aliança, proclama-se a história da instituição em 1Cor 11, 23- 26.

d. "para que possamos ter parte com você" (rito de custódia do mal: amor até o fim)

Após a proclamação do relato da ceia, uma lavagem mútua dos pés poderia ser realizada (deixando a ceia ali onde está ...). Como se sentíssemos a urgência de agir na mesma lógica da aliança que nos faz experimentar o pão, o vinho e o relato. Aquele que conduz a oração se levanta, vão pegar uma toalha, tira água do jarro e pega a bacia e pede para poder lavar os pés dos outros membros da família, que talvez poderiam nem saber do gesto. Lava os pés com o sabão, beija-os e lava-os novamente com sabão (para não causar contágio). Mas, pelo menos assim, finalmente, se pode voltar a dar um beijo, advertindo-o não perigoso, mas é vital dizer até que ponto a vida do outro me importa, até que ponto a vida do outro importa a Deus, e quero que seja afastada das garras do mal. Se o contexto permitir, pode-se, de fato, viver o gesto com reciprocidade, para que cada um possa acessar novamente esse com-tato essencial, ressignificado cristologicamente. O tempo em que entramos, com nossa "quarentena", não é um tempo apressado; portanto, a ceia e o próprio ato do lava-pés podem não ser tão estilizados a ponto de se tornem insignificantes; pode levar todo o tempo, simbólico e poético, necessário.

Depois de ter realizado o lava-pés, pode-se proclamar o Evangelho (Jo 13, 1-15) e deixar um pouco de silêncio, para que as sensações, pensamentos e percepções relacionadas ao que está sendo vivenciado possam emergir dentro de si.

silêncio poderia então se abrir e se tornar intercessão, para todos aqueles com quem nos preocupamos e que gostaríamos de lavar para preservar do mal e alcançar com nosso beijo de amor e dedicação, de bênção e eternidade. Essas orações seriam então reunidas na oração fundamental, do Pai nosso, onde é Ele quem acolhe nossas vidas em suas mãos, libertando-nos do mal.

e. Entramos na noite, acompanhados pelo perfume (rito de entrada na noite)

O canto "especial" da casa, que é importante seja um pouco "isolado", percebido como diferente, pode se tornar um local importante para acompanhar o tempo da Páscoa como chave de acesso ao tempo da ameaça da pandemia. Permanecem ali a cruz, a Sagrada Escritura, o jarro com água "pura" e a bacia com a água que purificou. Ali, no final da ceia, se pode colocar o pão para o dia seguinte, aquele pão que hoje está cheio de sentido, e deverá ser capaz de dar sentido também ao drama do dia seguinte.

Ali, uma vela perfumada é acesa e deixada queimando enquanto a casa é reorganizada, após a ceia, para que o perfume se espalhe.
No início da ceia, se pode suspender o uso dos vários meios de comunicação e entrar em um silêncio de profundidade.
Depois da arrumação, prontos para ir para a cama, poder-se-ia reunir, em silêncio, neste canto sagrado da casa, deixando entrar em si o brilho da luz da vela, enquanto todas as outras luzes são apagadas e o perfume se espalha. Poderíamos nos dar o boa noite ali, retomando o Salmo 121, na íntegra:

Levanto os meus olhos para os montes e pergunto:
De onde me vem o socorro?
O meu socorro vem do Senhor,
que fez os céus e a terra.
Ele não permitirá que você tropece;
o seu protetor se manterá alerta,
sim, o protetor de Israel não dormirá,
ele está sempre alerta!
O Senhor é o seu protetor;
como sombra que o protege, ele está à sua direita.
De dia o sol não o ferirá,
nem a lua, de noite.
O Senhor o protegerá de todo o mal,
protegerá a sua vida.
O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada,
desde agora e para sempre.

Poder-se-ia terminar com o Glória ao Pai, confiar-se à intercessão materna de Maria e apagar a vela, tomando cuidado antes que o percurso para chegar aos quartos no escuro seja facilmente praticável. Assim, será possível entrar na noite que prepara a morte, acompanhados pelo perfume que consegue habitá-la mesmo quando a última luz se apaga.

Sites consultados:


[1] http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_19921011_fidei-depositum.html

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A confusão do Kalendas de Natal no folheto Paulus

A editora Paulus publicou folheto da Missa de Natal com alterações no tradicional texto da Kalendas - anúncio do Natal e isso está dando o que falar.

A maior parte das críticas ao Kalendas paulino se referem a menção de elementos e personagens de religiões e tradições culturais não cristãs.
Veja como ficou o folheto depois da adaptação do Anúncio:


O texto é inoportuno. E não é pelas menções extra ecclesia. Sobre isso, parece que um comunicado da editora já explicou o que qualquer católico com mais do que a catequese de primeira eucaristia já sabe: O texto, assim como o original em latim, faz menções não só à história bíblica - o original menciona a cultura romana -. A adaptação buscou incluir também a história antiga de outras culturas orientais e ameríndias.

E por que a inclusão?
O Concílio Vaticano II admite “elementos de Verdade e graça” e “sementes do Verbo”, para além das culturas judaico-cristãs (cf. Decreto Ad Gentes 9 e 11).

E mais. A Kalendas da editora paulina não faz "caldo religioso", equiparando Jesus com líderes espirituais e religiosos de outras tradições. No texto sobressai a centralidade da Pessoa de Jesus, homem e Deus. Tudo o mais presente no texto do Anúncio de Natal está em referência a Ele. Nesse sentido, o Kalendas favorece uma compreensão de que Jesus encarnado redime toda a humanidade e redimensionar as diversas experiências religiosas da humanidade.

Mas então por que o texto é inoportuno? Simples! Porque a grande parte das comunidades que usam os folhetos da Paulus desconhecem esses novos elementos inseridos no texto. Pergunte lá na sua comunidade quem foi Lao-Tsé e verá a resposta...

Pensando nisso, decidimos ajudar você e sua comunidade que vão celebrar a Missa de Natal com o folheto da Paulus, fornecendo alguns pontos interessantes para reflexão das controvertidas partes do Kalendas:

1) "Enquanto, no México, os ameríndios construíam a cidade dos deuses": Gente, aqui com certeza é Tenochtitlan (hoje Cidade do México), fruto da cultura Asteca. É desse meio que nascerá depois a devoção à Virgem de Guadalupe, por meio do ameríndio São Juan Diego. 

2) "Seiscentos anos depois que o Espírito de Deus revelava o brilho de seu esplendor na China a Lao-Tsé": Lao-Tsé é um sábio oriental que fundou a tradição religiosa taoísta. Nesse ano o Vaticano assinou junto com líderes espirituais do Taoísmo um documento em que ambas as religiões comprometem-se a conscientizar seus adeptos sobre a "importância de educar as crianças ao respeito, apreciando a cultura e o patrimônio próprios, bem como a do outro". Veja mais aqui: http://br.radiovaticana.va/news/2016/10/17/encontro_em_taiwan_diálogo_cristão-taoísta_seja_farol_luz/1265693

3) "Na Índia, a Buda, o Iluminado": Buda deu origem ao bem conhecido Budismo. Já é tradição que anualmente o Vaticano envie uma mensagens aos "amigos budistas" por ocasião das festividades da vida de Buda. E os textos não têm medo de afirmar que Buda passou por um processo de "iluminação", como você pode ver na mensagem desse ano de tema ecológico: http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/05/06/0320/00736.html

4) "E, no Ocidente, inspirava a sabedoria grega": Aqui estamos falando da Filosofia... Sócrates, Platão, Aristóteles e companhia. São Justino em sua obra Apologia afirma: "Sócrates foi um cristão assim como Abraão, ainda que ele não o conheceu" 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sugestão do Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, não é norma universal para a Igreja

Ganhou espaço na mídia internacional a notícia de que o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos teria pedido aos bispos e padres que celebrassem ocasionalmente a Missa ad orientem,  isto é, "de costas para o povo".

A notícia ganhou vulto sobretudo nos meios mais conservadores porque parece acenar a possibilidade de inserir uma prática do rito extraordinário (tridentino) no rito ordinário (moderno).

Mas vamos com calma...

A notícia não nos veio de Roma, mas de Londres, onde o Cardeal Sarah abria uma conferência sobre liturgia. Ele falava ao clero local de Londres e a outros participantes da conferência sobre uma sugestão para o tempo do advento que poderia ser inserida com muita prudência e catequese pelos ministros ordenados que assim desejassem. Para ele, no advento, se todo a assembleia, ministros ordenados e fiéis, estivessem voltados para o tabernáculo em alguns momentos litúrgicos em que particularmente nos voltamos a Deus, isso bem traduziria a espiritualidade da espera pelo "Senhor que vem", própria desse tempo litúrgico.

Nessa ocasião, Dom Robert Sarah não estava sugerindo que a Missa fosse celebrada no rito tridentino. Ele estava falando da possibilidade de se celebrar ad orientem algumas partes do rito ordinário.

A fala do prefeito da Congregação para o Culto Divino não tem força de decreto ou orientação para a Igreja universal. Se tivesse, tais orientações já estariam publicadas de forma oficial e até disponíveis na página da Congregação para o Culto Divino. O último texto emanado pela Congregação e assinado pelo Cardeal é sobre a elevação da memória obrigatória de Sta. Maria Madalena à festa no calendário romano (consulta feita dia 07/07/2016). O que Sarah disse em Londres são sugestões e nada mais.

 Por fim, a fala do Cardeal Robert, segundo o portal de notícias National Catholic Register, na íntegra diz que a possibilidade dessas inserções sejam feitas: "naquelas partes dos ritos litúrgicos em que nos voltamos para Deus". Isso não parece, portanto, uma "exortação" a celebrar todo o rito ordinário ad orientem.

A Missa no rito romano moderno não mudou e sua forma ordinário continua sendo de frente para o povo.

terça-feira, 14 de julho de 2015

É certo dar pãozinho ou hóstias não consagradas para crianças que ainda não fizeram a Primeira Eucaristia?

Há o costume, em muitas comunidades, de, distribuir pãozinho ou hóstias não consagradas para crianças que ainda não fizeram Primeira Eucaristia depois das Missas. Não é fácil emitir um juízo sobre essa prática que em muitos lugares está profundamente enraizada.

As hóstias não consagradas

Na fila, na hora da comunhão, os adultos trazem os pequenos que com olhares curiosos, querem também receber aquilo que os pais ganharam. Como isso é educativo! Esse desejo ainda não saciado lhes faz muito bem! No entanto, pais ou pessoas da comunidade, vendo que as crianças querem receber a hóstia, quase que por dó da “pobre criança” que está passando vontade, ou por um sentimento de inclusão precipitado, acabam por distribuir as hóstias não consagradas depois da Missa, saciando a curiosidade e o desejo dos pequenos. Precisamos estar atentos aos problemas que essa prática pode causar.
O primeiro deles é que essas crianças, muitas vezes, não fazem ainda a distinção entre hóstias não consagradas e o pão eucarístico. A diferença ainda não está clara, principalmente se a criança não estiver inserida em um processo de catequese.
O pequeno quer saber que gosto tem a hóstia, do que ela é feita, etc. Infelizmente, esquecemos que catequese e liturgia precisam caminhar juntas. A Eucaristia não é algo que se entende pelo esforço intelectual e pelas brilhantes explicações dos catequistas. A Eucaristia é celebração, é Mistério! E Mistério é diferente de enigma, pois, o enigma quando decifrado, esgota-se. Já o Mistério, por mais conhecido que seja, sempre permanece Mistério. Eucaristia não é enigma, é Mistério! Por isso, hoje, se insiste tanto na Catequese Mistagógica.
Ora, o Mistério da Eucaristia é sobretudo o Corpo e Sangue de Cristo, nas espécies do pão e do vinho. Portanto, pão e vinho, com todas as suas características de sabores e formas, integram o Mistério Eucarístico. Sendo assim, quando distribuímos hóstias não consagradas, estamos abrindo mão de alguns aspectos do Mistério Eucarístico que lhe são fundamentais: o sabor, a forma e o acesso ao sinal do pão. Seria reducionismo dizer que a Eucaristia se resume nos sinais do pão, mas igualmente reducionista seria dizer que ela se resume na explicação ou intelecção da diferença entre o pão não consagrado e o pão que é Jesus. O mistério Eucarístico comporta e integra todas essas dimensões, do saber (intelecto) e do sabor (sinal do pão).  
            Cultivar nas crianças o sadio desejo de terem acesso ao pão eucarístico é um estímulo eficiente para que elas iniciem a catequese com alegria. Pais e comunidade precisam ser educados para essa prática.

O pãozinho para as crianças

Em outros lugares, existe a prática de distribuir pãezinhos para as crianças, já que estas não podem comungar. Pães bonitos, doces, as vezes repletos de açúcares e outras delícias que derretem qualquer paladar, especialmente o infantil. Isso torna-se um costume e os pequenos adoram. Quando fazem a Primeira Eucaristia, passam a ter acesso à mesa eucarística durante as Missas e percebem que o pão que é Jesus não é carregado de tantos açúcares quanto o pãozinho que agora é distribuído para os mais novos.
            Em geral, o pãozinho já é uma saída melhor do que as hóstias não consagradas. Mas, ainda assim, pode apresentar suas dificuldades. A catequese precisa se encarregar de esclarecer a diferença entre o pãozinho no fim da Missa e o pão Sagrado da Eucaristia.

Conclusão

Para terminar, cito o parágrafo 96 da instrução “REDEMPTIONIS SACRAMENTUM”, sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia, em que o assunto que aqui discutimos é tratado com clareza:


 “Deve ser desaprovado o uso de distribuir, contrariamente às prescrições dos livros litúrgicos, à maneira de comunhão, durante a celebração da santa missa ou antes dela, hóstias não-consagradas ou qualquer outro material comestível ou não. Se em alguns lugares vigora, por concessão, o costume particular de benzer o pão e distribuí-lo após a missa, convém fazer com grande cuidado uma correta catequese sobre tal gesto. Por outro lado, não devem ser introduzidos costumes semelhantes, nem jamais serem utilizadas para tais hóstias não-consagradas”.