quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Vida de São José de Anchieta em jogral

José de Anchieta  - se Deus quiser amanhã (3 de Abril de 2014) , finalmente, mesmo depois dos imprevistos de última hora- será declarado santo. São José de Anchieta.

 Em meio aos meus livros, encontrei em um do conhecido frei Bernardo Cansi - saudoso catequeta de longa fama - um jogral em seu livro "Jograis e Celebrações" V. III da Paulinas, em que nas páginas 96 a 98, comemora o dia 9 de junho como Dia Nacional de Anchieta. Eis aí o Jogral:

A Vida do Padre José de Anchieta  (Jogral) 

1.       O padre José de Anchieta nasceu em 1533.
2.       É sacerdote jesuíta, isto é, da Companhia de Jesus. Jesuítas são padres que se dedicam à catequese, à cultura e à propagação do Evangelho de Jesus.
3.       José de Anchieta nasceu em La Laguna, nas Ilhas Canárias.
4.       Veio ao Brasil com 20 anos de idade. Veio na comitiva do segundo Governador Geral, Dom Duarte da Costa.
5.       Padre José de Anchieta começou trabalhando no Planalto de Piratininga, berço da maior cidade industrial do Brasil, São Paulo.
Todos – Anchieta ensinava e instruía os colonos e os índios. Verdadeiro mestre e grande amigo.

1.       Aos 43 anos foi provincial dos padres jesuítas no Brasil.
2.       Morreu com a idade de 64 anos, no estado do Espírito Santo.
3.       Pelo trabalho que exerceu na catequese, no ensino religioso, Anchieta é chamado por todos de “Apóstolo do Brasil”.
4.       Como catequista, foi o primeiro mestre do Brasil.
5.       Não só ensinou. Não foi apenas um catequista. Um sacerdote dedicado ao Evangelho. Mas foi um literato. Escreveu livros sobre o Brasil.
Todos – O padre José de Anchieta é chamado também de “O Fundador da Literatura Brasileira”.

1.       Oi enfermeiro.
2.       Foi poeta.
3.       Foi escritor.
4.       Teatrólogo. Através do teatro ensinava religião e o bem.
5.       Através do palco, tornava as lições mais agradáveis  e simples.
Todos – Exerceu sua tarefa de educador, de mestre, de sacerdote com amor, com competência. Foi muito responsável como sacerdote e educador.

11.       Interessou-se muito na ajuda aos índios.
22.       Aprendeu a língua dos índios tupis. Escreveu esse livro: “Arte da Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil”. Era a íngua Tupi. Vejam o trabalho de Anchieta. Seríamos capazes de realizar tamanha aventura? Seríamos capazes de aprender uma língua dos índios só para  poder falar com eles?
33.       Através do teatro, Anchieta mostrava que Deus é o Criador das coisas.
44.       Nos jograis que fazia com os índios ensinava a diferença entre o bem e o mal. Entre a luz e as trevas. O pecado e a santidade. A morte e a vida. A vida eterna e a vida passageira desse mundo.
55.       Usava muitos cantos e poesias para se fazer entender por todos.
Todos – As peças eram encenadas nas aldeias dos índios. Nas cidades. Dentro das igrejas. Ou em palcos armados nas escolas e nos colégios.

11.       Célebre é sua poesia à “Bem-aventurada Virgem Mãe de Deus, Maria”.
22.       Que o padre José de Anchieta seja para todos nós um exemplo de amizade ao Brasil.
33.       Que o padre Anchieta seja para os brasileiros um exemplo de amor a Deus e ao próximo.
44.       Que o padre José de Anchieta continue em nossa vida, em nossos trabalhos e na missão de cada um de nós.
55.       Padre Anchieta, abençoai o Brasil.

Todos- Padre Anchieta abençoai todos os educadores. Todos os catequistas. Todas as escolas. Os índios. Os pobres. Os brasileiros todos. Do norte ao sul. Do leste ao oeste. Do cento às praias do mar. Abençoai o céu e o povo brasileiro. Padre Anchieta, ajudai-nos a ser santos e responsáveis em nossa missão de brasileiros, de homens de fé e esperança. Amém. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Frozen: uma Aventura de Fuga e de Amor Ágape

Frozen já é a animação mais assistida no cinema de todos os tempos. Ora, uma vez que o filme está cada vez mais popular, cabe aqui, portanto, valorizar os vários aspectos positivos que a animação da Disney mostra.
Elsa é a rainha amaldiçoada por ter o poder de congelar as coisas. Seu drama é não saber como controlar o seu poder e ferir os outros, como fez quando era pequena, em um acidente com sua irmã mais nova, Anna. Diante de uma crise, sobre forte pressão no dia de sua coroação, Elsa que até então escondeu o seu poder de todos e se vê desmascarada, foge para uma montanha. Ela decide deixar tudo para trás, sua irmã, reino e problemas. O seu Deixar tudo para trás, cena da música “Let it Go” (em português ficou “Livre Estou”– embora a música seja ótima e mereça o Oscar de Melhor Canção Original 2014 que ganhou)  não se mostrou a melhor solução, aliás a aparente liberdade em deixar tudo, “chutar o balde”, pode até ser prazeroso e trazer a sensação de liberdade inicial como mostra a música :  “I know I left a life behind / But I'm too relieved to grieve” – tradução livre :Eu sei que deixei uma vida para trás/Mas estou aliviada demais para lamentar.
 Não é a primeira vez que isso acontece. Outro famoso personagem da Disney já tinha feito o mesmo e não foi bem sucedido também. O Hit “hakuna matata” é também, como o Hit de Elsa, o momento em que o leão Simba decide por deixar de lado os problemas mal resolvidos da vida e tentar seguir adiante. Seguir adiante não é o problema, o problema é não fazer isso direito. O profeta Jonas, na Bíblia, faz a mesma bobagem, segue a vida “fugindo” de sua missão (cf. Jn 1,1-3), os reis Simba e Elsa fogem da responsabilidade e de todas as dificuldades que isso implica. Jonas foge da sua responsabilidade incumbida por Deus (cf. Jn 1, 1-2). Fugir não é a solução! Felizmente todos eles, Jonas (cf. Jn 3, 1-5), Elsa e Simba voltam e cumprem o seu chamado, sua vocação. Não adie, não deixe pra lá, não fuga da sua vida, enfrente-a!
Elsa é amaldiçoada. Nasceu com o poder de congelar, fazer gelo e neve. Seus poderes com o tempo só aumentam e ela torna-se capaz de causar um inverno constante e uma tempestade sem fim. Com a morte dos pais e o acidente com a irmã mais nova, Elsa cresce convicta de que sua condição é, de fato, a condição de alguém amaldiçoado, por isso resolve isolar-se, para não ferir ninguém. A sua condição natural, inerente à sua vida a fez assim, não foi uma escolha. Nem todas as situações da vida são escolhas. Elsa demorou em perceber que é a sua atitude diante do que a vida é, é que fará de sua condição uma maldição ou um dom. A sua condição existencial não define toda a sua vida. É preciso optar por fazer o melhor de uma situação controversa. O caminho? Acho que aqui está o grande valor do filme Frozen – Uma Aventura Congelante , Elsa verbaliza, quase no fim da animação holywoodiana, o caminho para fazer de uma condição irreversível, o melhor possível: o Amor.
De fato, Frozen não apresenta a idéia de amor apenas em seu víeis romântico (Eros), mas explora também o conceito do amor filia entre Elsa e Anna e – o mais eloqüente – o amor ágape. O coração congelado de Anna só pode ser curado por um “ato de verdadeiro amor”. O espectador é levado a acreditar que se trata do clássico beijo do amor verdadeiro (romântico – Eros), explorado em outros contos da Disney e DreamWorks –para citar alguns exemplos – mas, é na verdade um gesto de amor agápico que cura Anna. O amor que é o sacrificar-se pelo outro, um amor-doação que o cristão bem conhece. O dar a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15, 13). Anna estava totalmente congelada, sem vida, mas não por acaso. Seu sofrimento tinha um sentido, resgatar a sua irmã, salvar sua vida. Não há como não lembrar o sofrimento enfrentado por Jesus que sofre pelo gênero humano, para sua salvação. De alguma maneira, Anna parece por em prática o que Jesus outrora disse: “Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13, 35). Ora, o Amor é o ponto auge do viver cristão “porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8)

Com a vitória do Amor, o inverno chega ao fim!

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Epifania a partir dos nomes dos Reis Magos

Epifania significa manifestação. É sabido por muitos de nós que não se tem certeza se os misteriosos reis Magos do Evangelho de hoje eram realmente reis e nem mesmo se eram três. O fato é que a tradição conservou inclusive os seus nomes. E é a partir deles e do evento epifânico do Senhor que pretendo desenvolver essa reflexão.

“Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,3)

  1. Luz dos Povos
Um dos reis Magos chama-se Melchior que significa rei da luz. De fato, Melchior e seus companheiros se deram conta de um sinal iluminador, uma estrela. É a partir daí que eles empreitam por uma busca, por um caminho rumo a Algo que eles sabem ser maior que esse sinal luz que os orientam, buscam o Rei da Luz (cf. Mt 2,2).  
A vida de todo aquele que busca Cristo é uma constante peregrinação rumo a Ele. É um movimento, um desejo de sair de si e ir ao encontro de algo Maior, do Cristo. Ele também veio ao nosso encontro. Em sua divindade, Ele quis aproximar-se de nós, sendo um de nós, humano e nascido em nosso meio. Aquele que não caminha ao encontro do Cristo que veio, não caminha sob à luz (cf. Is 60, 3). Fato é que, muitas vezes, sentimos que nossa vida caminha como que envolvida em trevas, sob nuvens escuras (cf. Is 60, 2) que são os problemas, as dificuldades e os sofrimentos que o cotidiano da vida nos traz. Como é difícil caminhar nessa hora! A caminhada da vida fica pesada, parece que estamos sós e que não há luz que nos inspire como continuar... Também os reis Magos em certo momento de sua trajetória rumo a Jesus ficaram sem a luz da estrela que os orientavam.
O melhor a fazer nessas horas de escuridão da vida é levantar-se e acender uma luz! (cf. Is 60, 1), que é a fé daquele que caminha, mesmo quando não parece possível caminhar... Olhar ao redor, para os outros que dividem conosco a mesma caminhada e que buscam a mesma felicidade no encontro com Cristo, pode ser que ajude (cf. Is 60, 4-5), nos trará alegria e força para seguir adiante. Olhar para a própria vida e perceber os momentos “luminosos” em que Deus agiu, as várias ocasiões em que a estrela da sua luz iluminou a nossa vida, nos leva a darmo-nos conta de que, de alguma maneira, a estrela do Deus que nos atrai a si, está lá, brilhando para nos guiar. Os reis Magos ao se darem conta de ver de novo a sua estrela-luz guiadora, encheram-se de Alegria (cf. Mt 2, 9-10). O Cristão também é assim, alegre porque caminha com Deus, rumo ao encontro definitivo com Ele. Nossa vida é uma peregrinação de luzes e sombras, mas que não significa, de modo algum, uma caminhada triste ou vazia de sentido.

“Com justiça ele governe o vosso povo” (Sl 72)

  1. O encontro com Cristo transforma a realidade
Outro dos reis Magos é conhecido como Gaspar. Seu nome significa “aquele que guarda os bens de Deus, tesoureiro”.  Esse significado logo nos faz lembrar que Deus, Criador do mundo, o confiou-o a nós, para guardá-lo e cultivá-lo (cf. Gn 2,15). Com o tempo, o homem organizou-se de tal forma que escolheu dentre eles alguns representantes para proteger e reger de forma justa em vista do bem comum. Porém, sabemos por vasta experiência que nem sempre os governantes assumem esse papel e na verdade, passam a pensar em seus próprios interesses. Herodes, por exemplo, no Evangelho de hoje está mal intencionado quanto o nascimento de um menino que está sendo chamado de rei pelos reis Magos (cf. Mt 2, 2-3). Ele é a figura de um governante que usa o poder a ele confiado não para o bem do povo, mas apenas para mante-se no poder. Ele menti e simula suas verdadeiras intenções aos reis Magos, escondendo o seu verdadeiro interesse por trás do seu desejo de “adorar” Jesus (cf. Mt 2, 8).
Entretanto, os reis Magos, após o encontro com Jesus mudam o seu caminho. O encontro com Jesus sempre gera mudança, nunca é um encontro inerte, apático. O encontro com Cristo definitivamente transforma a vida de quem com Ele se encontra. Os reis Magos não compactuam com o projeto de Herodes, eles percebem que estava na hora de um novo caminho (cf. Mt 2, 12).
Estamos em ano de eleições. O rumo que nosso país vai tomar está em muito sob a nossa responsabilidade um vez que vamos escolher os que irão governar. Em uma época em que os primeiros corruptos foram punidos de forma pública pelo mau uso do poder a eles confiado, urge de nossa parte uma atitude concreta que impeça cada vez mais que a corrupção esteja presente no governo por meio dos seus membros. Uma das maiores manifestações que os brasileiros poderão fazer, será diante da urna, na hora de votar.
Que possamos escolher representantes íntegros, de “ficha limpa”, que transpareçam interesse pelas causas comuns da justiça e da paz, em atenção aos mais pobres e indigentes da nossa sociedade (cf. Sl72).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança” (Ef 3,6)

  1. Uma Epifania Ecumênica
O último dos reis Magos, segundo a antiga tradição é chamado de Baltazar que tem o seguinte chocante significado: Rei protegido pelo deus Baal.
 Parece um absurdo que, ao que tudo indica, um dos reis Magos que tenha visitado Jesus tenha um nome que em seu significado alude ao deus pagão Baal. Talvez seja algo no mínimo estranho porque o deus Baal é mencionado em uma série de relatos bíblicos, principalmente no Primeiro Testamento em que seu culto e seguidores são combatidos com frequência (cf. Jz 2, 11-16). O fato é que irremediavelmente a tradição afirma que Baltazar estava lá.
De fato, podemos compreender a sua presença justamente como a abertura ao mundo pagão da Boa Nova que é Jesus Cristo. São Paulo na segunda leitura de hoje nos diz que também os de outras religiões “são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3, 6). Essa forma de pensar nos impele para além da ideia de conversão daqueles que não são católicos, para a compreensão de que há outros caminhos e tradições religiosas, umas mais próximas outras nem tanto da nossa forma de pensar e se relacionar com Deus, mas que todas merecem o nosso respeito. Valorizar o que há de bom e conhecer outras confissões religiosas não significa perder a nossa identidade. Tolerância não é deixar-se levar.
Em um mundo plural, ou seja, formado por pessoas que pensam de forma diferente, há algo que nos une. Resta a nós dar maior importância àquilo que é comum entre nós do que aquilo que nos difere. Ser feliz é algo que todo mundo quer. Esse desejo está dentro do coração de todo ser humano. Perceber que não é possível ser feliz sozinho e que o diferente é justamente aquilo que nos enriquece, já é um grande passo.


Que hoje Maria, Mãe de Deus, nos mostre, como mostrou aos Magos (cf. Mt 2, 11) o seu Filho, Luz que transforma o que ilumina!

domingo, 24 de novembro de 2013

Os Portadores de Cristo


Hoje me encontrei com Cristo, Rei, Senhor em sua Glória, o Poderoso do Universo. Sua presença era nobre e viva. Ele não estava velado, eu via-O claramente. Ele é um só,  mas estava em muitos. Estava sentado, Eternamente sentado, na verdade, como em seu trono glorioso. Tronos ladeados por duas rodas que eram movidas pela necessária ajuda de mãos humanas. Encontrei-O nos portadores, nos portadores de Cristo. Fico imaginando que glória é essa que a gente celebra... só pode ser essa, a Glória de ser com os seus. Hoje alguém sussurrou no ouvidos dos portadores que, mesmo quando não parece que é assim, mesmo quando a família, os amigos e parentes os abandonam, Deus não os abandona, está sempre a visitá-los, está com eles. E sabe por que? Porque eles são os portadores de Cristo!
Uma capela, um portador sentado no seu trono de duas rodas, eu e uma presença divina... ninguém mais. Pergunto como ele está, interrompendo o seu diálogo com o Rei Maior; Ele me responde que está bem; que é evangélico, mas que encontra no Templo Católico forças para mover as rodas que fazem sua cadeira caminhar... não tem problema, eu também sou ecumênico. Mas ele diz que tem um segredo a me contar. Se emociona; não sabe ler, mas viu um filme da vida de Jesus e desde então, sonha com Ele. Me pergunta se é coisa de Deus. Ora, mas é claro que é! Tem coisa mais de Deus do que um portador que sonha com Ele e toca a roda da vida? Então ele me conta mais um segredo. Abre a blusa, saca do bolso da camisa um chaveiro, em formato de chinelo... parece guardá-lo nessa caminhada da vida.. é algo importante. Mas ele me revela um detalhe. Na verdade, não era um detalhe, era o essencial. O chinelo tem uma estampa, uma imagem da Mãe Negra, Nossa Senhora Aparecida. "Dessa eu não abro mão!", me diz. Um Sorriso e dou um beijo devotado em seu chaveiro antes que ele o guarde novamente. Eu saio de Fé renovada.

Hoje, solenidade de Cristo Rei do Universo e conclusão do Annus Fidei, encerrei o meu trabalho pastoral no Hospital Geriátrico e de convalescentes Dom Pedro II - Jaçanã, SP.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A Parábola do pobre Lázaro e o filme Elysium

No filme Elysium o garoto Max e não só ele, mas toda a população que vive no planeta terra olhava para cima, na direção do céu e lá viam Elysium, a morada dos ricos que, diante da degradação do planeta terra, construíram para si uma "fortaleza" na órbita do planeta. Contudo, a maior parte da população que era a que estava na terra, vivia ainda em extrema pobreza. Os ricos estavam para além do céu do planeta, em esplêndido conforto e em uma vida despreocupada... os pobres, com os seus tormentos, viviam na terra, no chão duro da realidade da vida.

Para ler a Sinopse do filme CLIQUE AQUI

Na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas 16, 19-31), os dois vivem de maneiras completamente diferentes. O rico vive esbanjando em festas e roupas finas (cf. Lc 16, 19) e não percebe o pobre que vive a margem do seu luxo (cf. Lc 16, 20). Ambos morrem. O pobre é levado para o céu, onde goza agora de conforto e felicidade (cf. Lc 16, 22.) O rico é enterrado e na região dos mortos passa por grandes tormentos (cf. Lc 16, 23). 
Max, em Elysium, cresce e, como Lázaro da parábola evangélica, vive a margem da sociedade - junto com a maior parte das pessoas - é pobre e vive nessa condição causada por um sistema social, político e econômico marcado por uma profunda desigualdade social em que os que são ricos e privilegiados fazem de tudo para manter-se nessa condição.
Embora as duas narrativas tenham como foco a relação antagônica e conflituoso entre o pobre e o rico e prezem, de alguma maneira, pela crítica social, o movimento "céu- terra" é distintos entre as duas.

1. "Buscai as coisas do alto" (Cl 3,1)

O homem sempre busca viver bem. Max ainda garoto, fascinado pela "morada dos deuses - Elysium" promete a personagem Frey que um dia quer levá-los lá... para as alturas. É um desejo incutido não só em seu coração e no de Frey, todos querem estar lá, querem uma passagem para o lugar que é sinômimo de uma vida de felicidade, para uma vida digna. A ideia do que é Elysium se aproxima muito da ideia "céu" ou paraíso cristã difundida por muitas pessoas no imaginário popular. Porém, ao invés de ser um lugar que acolhe os pobres que outrora sofreram, como Lázaro, é um lugar povoado por poucos ricos, gente poderosa e importante... que grande contradição!
O rico da narrativa do Evangelho foi enterrado, ou seja, permaneceu na terra, terra onde os pobres que não tinham cidadania para morar em Elysium permaneciam pelo resto de suas vidas. Na região dos mortos, ele eleva o seu olhar para o céu, para onde está o pobre Lázaro (cf. Lc 16, 23), certamente quer estar lá em cima. Max também eleva os olhos para o céu, desejando Elysium. O desejo de buscar as coisas do alto é um desejo inato no homem... Como que uma vontade de transcendência. 
Ora, o que pode significar esse desejo de céu, esse elevar o olhar para lá?

2. A prática da justiça

É verdade que Lázaro poderia ser pobre, com uma vida de sofrimentos e ao mesmo tempo ser um homem injusto e infiel a Deus. Nesse caso, como nos atesta a lógica do Evangelho (cf. Mt 25), ele não seria recompensado com o céu. Porém, não foi assim. Embora o texto bíblico não nos fale nada sobre a maneira como Lázaro viveu, ele nos diz que na terra, ele só  recebeu males (cf. Lc 16, 25). Contudo, para o cristianismo, não é possível conceber que estando no céu, Lázaro pudesse ter vivido de outra maneira que não de maneira justa e fiel.
Max, por sua vez, têm desde muito novo um vasto histórico de infrações e crimes cometidos contra o regime vigente. É bom lembrar que os crimes e infrações de Max estão relacionados a roubos e a quebra de normas em relação à sua relação com o estado, ou seja, em geral, não são crimes cometidos contra os outros que vivem na mesma condição que ele, mas, na verdade, revelam o seu descontentamento com o sistema em voga.
Em princípio, Max não se distancia muito da figura do rico do Evangelho que não enxergava o pobre marginalizado à sua volta (cf. Lc 16, 20), ou melhor, enxergava mas agia com indiferença. Ora, embora Max também fosse pobre, sua condição existencial, por si só, não justificava uma atitude apática e indiferente diante do sofrimento alheio. Nesse sentido, quando ele resolve fazer algo de concreto para mudar o sistema causador da desigualdade social, não faz isso se não para salvar a sua própria vida. No fundo, trata-se ainda, como no caso do rico da Bíblia, de uma atitude egoísta, de quem só pensa em si mesmo.
Será somente no decorrer da narrativa cinematográfica que Max se mostrará mais altruísta e acabará, por fim, com um gesto redentor que poderá mudar o rumo da história humana. O rico que desprezou Lázaro na terra, depois de receber a sua recompensar por não praticar a justiça, fomentando a desigualdade social, só na região dos mortos dar-se-á conta do que fez e, então, pedirá  pelo outros, seus irmãos, só assim, deixará de pensar em si mesmo (cf. Lc 16, 27). Mas para ele já é tarde, para Max ainda estava em tempo, mas para esse rico, o tempo já tinha se esgotado...
De fato, o tempo corre, a desigualdade aumenta e seja para quem for, essa realidade impõe-se de tal maneira que é impossível ficar indiferente a ela. Uma atitude é esperada. Resta saber como é que re-AGIR-emos diante da nossa realidade. Afinal, todos queremos um céu na terra!