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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Que proposta é essa do Rito Amazônico?

Vamos começar dizendo como não se deveria entender a proposta de um Rito Amazônico: Há quem acredita que se trata da criação de um jeito novo e único de celebrar a Missa e os outros sacramentos para toda a região amazônica e suas várias culturas e povos indígenas. Ora, isso seria um “nivelamento” cultural que ignoraria a diversidade da região. Outros creem que o Rito Amazônico seria uma adaptação de algumas partes do Rito Romano. Isso seria uma atitude superficial, algo que não nasceria das culturas dos povos amazônicos. O Rito Amazônico não deveria ser entendido nem como uma coisa, nem como a outra; sua proposta pode ser acolhida com mais amplitude. 

 Primeiro é preciso compreender o que nesse caso significa “Rito”. Rito, nesse contexto, indica o conjunto de usos e de normas culturais, jurídicas, administrativas e ministeriais próprias de igrejas locais específicas. Portanto, Rito também é o mesmo que liturgia, isto é, a globalidade do complexo de usos litúrgicos, o inteiro depósito eucológico e o modo de celebrar as ações litúrgicas específicas de determinadas igrejas locais. 

 No ocidente temos alguns Ritos, como o Rito Romano, da diocese de Roma, celebrado em todo o Ocidente e em muitas regiões do Oriente, sendo o que mais foi popularizado e é o mais conhecido por nós; mas também temos o Rito Ambrosiano, própria da diocese de Milão, Itália; o Rito Hispânico ou Mozorábico, celebrado na Catedral de Toledo, na Espanha, e reformado de acordo com as orientações do Vaticano II; e o Rito de Braga ou bracarense, celebrado na Diocese de Braga, Portugal. O Rito Amazônico seria mais um rito ocidental, nascido das igrejas locais da região pan-amazônica. 

 Contudo, a proposta de um rito novo não precisa significar propor um único jeito de celebrar a fé, os sacramentos e a vida, para todos os povos da Amazônia. Olhemos mais atentamente o que se passa com o mais popular dos ritos ocidentais, o nosso famigerado Rito Romano. 

 De fato, dentro do único Rito Romano existem cinco formas do mesmo Rito Romano. Temos a forma ordinária, celebrada segundo os livros litúrgicos promulgados por Paulo VI e por João Paulo II; mas há também a forma extraordinária, celebrada segundo os livros litúrgicos em vigor em 1962 e retomados por Bento XVI na Carta Apostólica em forma de Motu Proprio Summorum Pontificum. A estas duas formas, se acrescenta uma terceira, ainda não bem definida nos livros litúrgicos, constituída pela tradição litúrgica da comunidade anglicana, acolhida na plena comunhão com a Igreja católica seguindo a Constituição apostólica Anglicanorum coetibus de 04 de novembro de 2009. Finalmente, existem outras duas formas. Uma é ligada a algumas Igrejas particulares africanas e reconhecida como rito zairense, mais precisamente, se trata de uma significativa adaptação do Missal do Rito Romano para as dioceses do Zaire. A outra pertence a um movimento, o Caminho neo-catecumenal. Também aqui se trata de uma adaptação do Missal Romano.  

O Rito Amazônico não deveria ser mais uma dessas formas dentro do Rito Romano. Ao contrário, o Rito Amazônico poderia conter mais de uma forma dentro de si, dentro do mesmo Rito Amazônico, tal qual o Rito Romano contém 5 distintas formas com livros litúrgicos distintos. Além de poder ser um rito ocidental autônomo, a exemplo do Rito Ambrosiano, Bracarense ou como tantos ritos orientais que existem hoje na Igreja, o Rito Amazônico poderia abarcar dentro de si várias formas (ritos) diferentes, feitos um a um de acordo com a cultura de cada povo amazônico. Com efeito, a liturgia amazônica pode ser constituída com autonomia e criatividade que exprima de forma plural os diversos modos culturais dos povos amazônidas, com uma organização da vida litúrgica das igrejas locais, com celebrações dos sacramentos, com ritmos de ano litúrgico e proclamação dos tempos e modos de rezar específicos. Sabemos que as igrejas orientais possuem essa autonomia em seus próprios ritos. O Rito Amazônico poderia também ser lugar favorável para o desenvolvimento de uma expressão ministerial multifacetada e de rosto amazônico. Para além dos ministérios ordenados tradicionais de bispos, presbíteros e diáconos homens, e ministérios não ordenados – e também ainda não instituídos - como catequistas, que outros ministérios, inclusive que valorizem o papel da mulher nessa região, poderiam ser propostos?  

Um aspecto determinante para a formação e o desenvolvimento de um rito é uma fase inicial e demorada de gestação nas culturas. Depois, segue-se um grande momento de criatividade espontânea. Por fim, pessoas dotadas de espírito de oração e sensibilidade pastoral, codificam em textos litúrgicos o novo Rito.  

sábado, 4 de abril de 2020

Amazônia de amanhã: Ramos secos ou árvore verde?



 “Se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23,31)

Jesus fala de si mesmo como uma árvore verde. E não é de se estranhar: De fato, no caminho do calvário, quando Ele profere essas palavras, está carregando um madeiro de árvore cortada: a Cruz. A árvore verde é árvore viva que dá frutos. A árvore seca é árvore sem vida, sem frutos. Hoje, na dolorosa paixão do Cristo, a árvore da Cruz parece mais uma árvore seca do que uma árvore verde. Quitaram a vida da árvore verde - do Cristo – no madeiro da Cruz. Secaram-na de vida. E, não obstante, essa árvore seca produz seu fruto de vida para todos: ‘eis o lenho da Cruz da qual pendeu a salvação do mundo’. As queimadas, o extrativismo, o desmatamento para o uso desmedido do agronegócio e pecuária mudam milhões de árvores verdes em árvores secas. A Criação geme em dores de Cruz. Os biomas brasileiros estão ameaçados pela secura dos corações que tratam a Casa Comum como casa de ninguém.

“Se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23,31).

Essas palavras de Jesus são dirigidas às mulheres que ele encontra em uma das estações da Via Crucis às quais Ele recomenda que não chorem por Ele, mas por elas mesmas e pelos seus descendentes (cf. Lc 23,28). Chorai pelos que virão, disse Jesus. Chorai hoje pelos descendentes dos povos que mais padecem com a exploração da Mãe Terra, chorai, hoje, com os empobrecidos, com os ribeirinhos, os quilombolas e os povos indígenas.

Nesse ano, com a exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, do papa Francisco, nossos corações se voltam para aquela realidade e seus povos. Aqui também se encontra o rosto do Cristo padecente, o rosto de Cristo encarnado no rosto dos povos amazônicos: é o rosto da Igreja amazônica. É um rosto também sofredor de povos que resistem e lutam. “Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado” (Is 50, 6-7). Cristo padece bofetões e cusparadas na Amazônia. “Transpassaram minhas mãos e os meus pés e eu posso contar todos os meus ossos” (Sl 21). Os territórios tradicionais indígenas são transpassados e retalhados por fazendeiros. “Cães numerosos me rodeiam furiosos e por um bando de malvados fui cercado” (Sl 21). A atual política de demarcação da terra cerca os territórios dos povos tradicionais por regiões de plantio e cria de gado, onde já não é mais possível caçar e pescar para a sobrevivência.

“Se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23,31).

O Domingo de Ramos contém uma referência também aos ramos do Evangelho da Procissão de Ramos. Os ramos são a manifestação expressiva do povo que acolhe o Senhor como profeta poderoso em Jerusalém. Nesse episódio, “do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: ‘Mestre, repreende teus discípulos!’ Jesus, porém, respondeu: ‘Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão’”. De rosto impassível como pedra (cf. Is 50,7) os povos amazônicos seguem sua luta pela vida em suas terras. Este é o rosto da Igreja Amazônica: Um rosto resistente e forte. Pois, se os discípulos de Jesus se calarem, as pedras gritarão, seus rostos impassíveis como pedra gritarão, e até os ramos das palmeiras de oliveira gritarão, os ramos de açaí gritarão, os ramos de coco e tucumã gritarão, os ramos de buriti gritarão, a Floresta gritará; caso os discípulos de Jesus se calarem na Amazônia.