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quarta-feira, 6 de maio de 2020

O eclipsar de Deus em tempos de Covid-19

“Afastastes de mim meus parente e amigos (...)
Eu estou aqui preso e não posso sair” (Sl 87,9)

A escuridão sobre a terra (Mc 15,33) era vista como praga (Ex 10,22-23). A maior característica de uma praga é a morte em massa, como a peste negra medieval, a gripe espanhol moderna e a Covid-19 da época contemporânea. Nessas horas, a pergunta que sai de dentro como num grito em prece (Mc 15,37) é: “Eloí Eloí lemá sabactâni?” (meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?) (Mc 15,34). E as vezes a resposta imediata é um silêncio prenhe de escuridão (Mc 15,33). A experiência da tristeza mortal e da agonia (Mc 14,33-34), mas também do sofrendo e da morte (Mc 15,37) fizeram parte da experiência da humanidade inteira ao longo de todos os tempos. Por meio de sua paixão e morte de Cruz, Jesus participa do mesmo sofrimento humano.


Jesus também experimentou esse eclipsar do Pai quando da sua morte (Mc 15,33-34; Lc 23,45). Na hora de maior brilho, meio-dia, contraditoriamente é quando uma escuridão quarentenou a luz da terra de Israel e seu Templo (Mc 15,33). De fato, em tempos antigos, o povo de Israel experenciou esse profundo eclipsar do Pai com a realidade do exílio. Hoje, a quarentena que nos priva do banho de sol nas ruas, nos obriga a um exílio dentro de nossas próprias casas. Que sinal essa escuridão nos comunica (Jl 2,1-2; Sl 105,28; Is 50,3-4; Ez 32,7; Jr 15,9)? Luto (Am 8,9-10)?

Ora, as mortes e o luto das famílias que padecem com Covid-19 não podem ser objeto de desrespeito e zombaria. Zombaram também de Jesus na hora de sua morte, com a lenda de que Elias milagrosamente iria o resgatar da Cruz: “Olha, ele chama por Elias”, “Deixem-no e vejamos se Elias vem tirar ele daí” (Mc 15,35-36). A zombaria continua: “E daí?”, “É uma gripezinha!”. Jesus segue sua paixão e morte na pandemia de nossos dias.

No relato segundo Marcos, a morte de Jesus provoca reviravoltas (Mc 15,38-39): O véu do santuário é rasgado, indicando ruptura com o sistema religioso (Mc 15,38), e uma novidade, um pagão, o centurião, proclama a identidade de Jesus (Mc 15,39). Ruptura e novidade são reviravoltas provocadas pela escuridão eclipsar da morte de Jesus. Ruptura e novidade são apelos para épocas de escuridão eclipsar. Com o que vamos fazer ruptura? Qual será a novidade pós-Covid-19? Martin Buber (1878–1965) certa vez contou:

"Quando, no dia de sua criação – diz uma lenda judaica –, os primeiros homens rejeitaram a Deus e foram expulsos do jardim, pela primeira vez viram o sol se pôr. Ficaram amedrontados, porque não conseguiram entender tal fato a não como se, por sua culpa, o mundo estivesse voltando a mergulhar no caos. Durante a noite inteira os dois ficaram sentados, um diante do outro, chorado, e sua conversão aconteceu. Então raiou a manhã" (BUBER, M. Eclipse de Deus. Campinas: Verus, 2007, p. 26).

A humanidade inteira precisa de um tempo penitencial. Precisamos do nosso “meio-dia à nona hora” que Jesus viveu junto ao povo na Cruz (Mc 15, 33-34). Precisamos nos permitir sentir algum abandono do Pai, “Eloí Eloí lemá sabactâni?” (meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?) (Mc 15,34), precisamos também gritar nossas dores que nos fazem buscar Deus nas profundezas de nosso ser (Mc 15,37). Precisamos de tempo para chorar nossas mortes e, então, responder aos apelos de ruptura e novidade (Mc 15,38-39). Em suma, precisamos viver a quarentena.

Com a sua profissão de fé, o Centurião pagão estava apto para o seguimento a Jesus (Mc 15,39). A novidade de sua fé era novidade para toda a comunidade cristã nascente. Essa novidade nasce da morte de cruz, do eclipse de Deus em Jesus. Todo eclipse é transitório e toda escuridão é passageira. Ao mesmo tempo, na Morte de Jesus segundo Marcos, é possível vislumbrar que toda escuridão é prenhe também de apelo ao novo que rompe com a zombaria da indiferença do sofrimento alheio e chama à conversão. A luz vai raiar amanhã.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Decretos e Formulários para Missa em tempo de pandemia

Íntegra dos Decretos e Formulários para a 'missa em tempo de pandemia' e oração especial para Sexta-feira Santa em português (Covid19 em 2020) promulgados pela Congregação para o Culto Divino:

Decretos e Formulários para Missa em tempo de pandemia by João Melo on Scribd

quarta-feira, 25 de março de 2020

Dom Walmor faz contraponto a pronunciamento do Governo Federal


Presidente da CNBB comenta pronunciamento de Bolsonaro

Nós repudiamos, criticamos veementemente, autoridades do executivo nacional quando minimizam aquilo que precisa ser realizado com responsabilidade por todos nós. A pandemia do COVID19 e muitas outras pandemias não podem se compor agora mais e mais como pandemias de irresponsabilidades, de inconsequências e de falta de sentindo humanístico e respeitoso para com a dignidade da pessoa humana.

Por isso, nesse dia do acendimento da luz esperançosa, da festa da Anunciação, nós temos um Salvador! É Deus quem nos conduz e nEle encontraremos um caminho de superação de tantas crises e pandemias construindo uma sociedade mais justa e fraterna. Sem crise ambientais, sem a ganância do poder, sem o apelo ao dinheiro.

É preciso, primeiro, nesse tempo: FIQUE EM CASA! Esta é a indicação das autoridades competentes, sanitárias e sensatas. Fique em casa! Trabalhemos tudo o que podemos para ajudar a construir uma sociedade justa e fraterna. Os trabalhos precisam ser mantidos com as condições necessárias, resgatando e cuidando da vida de cada um de nós.

Esperamos dos poderes que ajam de modo a ter uma ordem social e política adequada, extirpando, de fato, aquilo que está na contramão e substituindo por caminhos novos que precisamos percorrer.

Esperamos, pois, muitas coisas, entre elas, do PODER EXECUTIVO, a apresentação de um grande projeto de contingência para o amparo dos mais pobres, nesse momento de crise. Um projeto inteligente, que faça mostrar que a sociedade brasileira cuida, de fato, dos cidadãos, sobretudo dos que precisam mais, dos vulneráveis, dos mais pobres, garantindo trabalho e sustento para todos.

Esperamos do LEGISLATIVO, em todas as suas esferas, a corajosa postura de mostrar com exemplos e com intuições que possam modificar o caminho do mundo e da sociedade brasileira, propostas concretas de mudanças, sobretudo no testemunho bonito de a todos convocando para a solidariedade.
Esperamos da SUPREMA CORTE a força de garantir a justiça e a defesa da ordem constitucional.

Nos segmentos todos da sociedade, esperamos competência e colaboração humanística e solidária. Abrindo mão de muitas coisas, de salários, de benesses, numa hora em que o mundo precisa mudar e só mudará na força da solidariedade”.

Dom Walmor,
Presidente da CNBB