segunda-feira, 26 de novembro de 2018

As dinâmicas na ou da Catequese? Refletindo métodos e técnicas na educação da fé

texto de Suzana Costa Coutinho
Educadora

          
  É comum, nos vários encontros, reuniões e cursos que participamos junto a catequistas e outras lideranças comunitárias e eclesiais, ouvirmos a demanda por capacitações sobre dinâmicas, para “animar” os encontros, cursos e outros eventos na comunidade ou no grupo. É comum, também, ouvirmos que se terá “momentos de animações”, ou uma “equipe para animar” tal evento. Esta reflexão quer trazer elementos que nos ajudem a entender o que são as dinâmicas e sua relação com a atividade catequética.
            O conceito de dinâmica muito comum entre as pessoas é de uma ação ou atividade que faça mover, que “anime”. Há pessoas que preparam seus encontros, cursos e reuniões de forma a ter vários momentos com muitas “dinâmicas”. Se refletirmos um pouco mais, vamos percebendo que, por trás desses conceitos, está a ideia de que dinâmica é algo a parte, inserido para movimentar outra coisa. Pois bem: a palavra dinâmica realmente significa “movimento”, algo que faz “explodir” para mover (dínamo, dinamite...).
            Quando pensamos num encontro catequético, podemos nos perguntar: que dinâmica ele terá? Ou: que dinâmicas vou usar? São perguntas diferentes com concepções de dinâmica diferentes. Na primeira, estamos falando de “método”, ou seja, de um ciclo, de um roteiro que faça o encontro “caminhar”, mover-se de um determinado ponto até outro que desejo (meu objetivo no encontro). Na segunda pergunta, estamos falando de técnicas, de atividades dentro do roteiro que nos ajudem a “animar” o encontro. São duas perguntas válidas, mas que só terão força se forem feitas juntas. Ou seja, para falar de dinâmica na Catequese, precisamos pensar o “método” catequético e, dentro dele, as técnicas que iremos utilizar para dar “vida” ao método.


1. O método é a dinâmica da catequese

            Como a catequese se move? Ao fazer esta pergunta estamos querendo saber qual a dinâmica da catequese. Os documentos da Igreja sobre a Catequese falam de um jeito de catequizar, um jeito de ser da catequese. Este jeito significa sua identidade, que a faz única e, ao mesmo tempo, integrante das outras ações ou dimensões evangelizadoras da Igreja. Portanto, reconhecem que há uma dinâmica própria da catequese, que se expressa como uma ação educativa da fé. Desta forma, o documento Catequese Renovada afirma que Catequese é um processo dinâmico de educação da fé, um itinerário e não apenas instrução.
Como processo educativo, qual método seguir? Partimos de alguns fundamentos pedagógicos importantes para a ação catequética. Primeiro, ter presente que as atividades devem ser adaptadas à psicologia dos/as educandos/as, ao ambiente social em que vivem e interagem, aos objetivos da ação e aos conteúdos que devem ser apreendidos e interiorizados. Segundo, que educação é processo de duas mãos: o aprender e o ensinar, e que esse processo deve ocorrer de forma dialógica, ou seja, entre sujeitos (educador/a e educando/a) e não de um sobre o outro.
Embora a pedagogia seja grande aliada da Catequese, ela sozinha não garante um processo de educação da fé. Por isso, o documento Catequese Renovada ajuda a compreender o método catequético a partir da ação de Deus Trino e da própria Igreja:
a)    O modo de proceder de Deus Pai na história (cf. Salmo 103,3-6) que se revela de diversos modos e comunica-se através dos acontecimentos da vida do povo (PARTE DA REALIDADE das pessoas);
b)    O modo de proceder de Jesus que, por meio da sua vida, palavras, sinais e atitudes, leva à plenitude a Revelação Divina. O Filho que acolhe, anuncia, convida, envia, chama a atenção às necessidades e para a reflexão sobre a mudança, tem linguagem simples e firmeza diante das tentações;
c)     A ação do Espírito Santo, “Mestre interior”, que impulsiona para o conhecimento intelectual e a experiência amorosa, para uma experiência existencial (pessoal e comunitária de Deus) fundamentada no amor; que leva ao anúncio da verdade revelada, cria meios para a comunhão filial com Deus, a construção da comunidade de irmãos, o estabelecimento da justiça, da solidariedade e da fraternidade;
d)    O modo de proceder da Igreja, como Mãe e educadora da fé.

Portanto, a dinâmica da Catequese deve ser aquela que impulsiona a pessoa a aderir livre e totalmente a Deus, a introduz no conhecimento vivo da Palavra de Deus e a ajuda no discernimento vocacional para a vida na Igreja e na sociedade. Para isso, considera que é preciso viver o clima de acolhimento e docilidade ao dom do Espírito Santo, promover um ambiente espiritual de oração e recolhimento, pronunciar a palavra com autoridade e fortaleza e incentivar a participação ativa dos catequizandos.
Na caminhada da Igreja, principalmente na América Latina, a Catequese vai se identificar com o método pastoral “VER-ILUMINAR-AGIR”, ao qual vai incluir “CELEBRAR-AVALIAR”. E vai afirmar o método como passos que não são estanques, mas um processo dinâmico.
Assim, o “VER” propõe ser um olhar crítico e concreto a partir da realidade da pessoa, dos acontecimentos e dos fatos da vida, como disse Jesus, para saber discernir “os sinais dos tempos”. Nem todos já têm esse olhar crítico, por isso, é preciso ouvir as pessoas, a partir de suas visões de mundo, ajudando-as a ampliar sua capacidade de analisar a realidade.
Para ajudar nessa “ampliação” do olhar, vem o segundo passo, que é o “ILUMINAR”. Este é o momento de escutar a Palavra de Deus. Este “escutar” implica reflexão e estudo que iluminam a realidade, questionando-a pessoal e comunitariamente. Também é uma busca de conversão contínua para realizar a vontade do Pai. Momento de abertura ao Espírito Santo, com a escuta orante da Palavra, com uma atitude contemplativa e fidelidade à mesma Palavra, à Tradição e ao Magistério. São passos necessários para esse momento: descobrir a ligação da caminhada com a mensagem evangélica; fazer o confronto da realidade com as exigências da proposta de salvação anunciada por Cristo e buscar o discernimento em vista da organização de uma ação transformadora.
Chega-se, desta forma, no terceiro momento: o “AGIR”. Momento de tomar decisões, orientando a vida na direção das exigências do projeto de Deus. Também é o tempo de vivenciar e assumir conscientemente o compromisso e dar as necessárias respostas para a renovação da Igreja e transformação da realidade. Este passo exige: confiança em Deus, coerência entre fé e vida e fortaleza para acolher as mudanças necessárias na sociedade e na vida pessoal. O AGIR é compromisso de viver como irmãos, de promover integralmente as pessoas e as comunidades, de servir os mais necessitados, de lutar por justiça e paz, de denunciar profeticamente e de transformar evangelicamente as estruturas e as situações desumanas, buscando o bem comum.
CELEBRAR e AVALIAR podem e devem estar presentes nos outros momentos. Celebrar a realidade, celebrar a Palavra, celebrar a ação. Avaliar como vemos a realidade, como agimos diante da Palavra, como atuamos na nossa vida pessoal, comunitária, eclesial e social. Celebrar e avaliar também a caminhada catequética, os encontros, as fases, as turmas, as vivências catequéticas.


2. As dinâmicas dentro do método catequético

Na ação educativa deve-se considerar as qualidades das experiências de aprendizagem ou as atividades propostas em cada fase do método a ser adotado, ou seja, das técnicas que serão utilizadas para dar vida ao método. Ao escolher uma “técnica” a ser utilizada com o grupo, busca-se levar em conta sua diversidade, de forma que todos os/as educandos/as participem. Há os que gostam mais de cantar, outros/as que gostam mais de ler, outros/as ainda de desenhar ou escrever, ou ainda de atividades de grupo. A diversidade também evitará a monotonia que pode levar ao cansaço e à falta de motivação.
Por mais “divertidas”, alegres e entusiasmadas que sejam as técnicas, deve-se ter o cuidado para que elas sejam, de fato, coerentes com o tema e com os valores do Evangelho. A técnica não é um acessório, mas é parte integrante do processo catequético. Por isso também deve ser adequada ao interesse e às capacidades dos/as educandos/as-catequizandos/as, e ser significativa, próxima ao seu mundo, às suas preocupações, à sua vida (tem que fazer sentido!).
Para a tarefa educativa, o/a educador/a-catequista pode contar com técnicas didáticas, lúdicas, operativas e celebrativas. No entanto, pode-se dizer que o problema das técnicas ou dinâmicas, ou ainda atividades, não consiste tanto em ter mais ou menos imaginação e criatividade, mas numa coerência, que se expressa na seleção e organização que corresponda com os objetivos da Catequese.
            Nesta diversidade, as atividades lúdicas, por exemplo, não servem apenas para “brincar” ou passar o tempo de forma divertida. A brincadeira não só ajuda a aprender, como fortalece os laços entre as pessoas e aprimora habilidades. São consideradas técnicas, ou dinâmicas lúdicas: desenho, jogos, danças, construção coletiva, leituras, softwares educativos, passeios, dramatizações, cantos, teatro de fantoches, contar histórias, etc.
Sobre os jogos, vale ressaltar que as propostas devem ser fundamentadas nos valores cristãos da vivência e da partilha comunitárias e não da competição e exclusão. Por isso, ressalta-se a validade dos chamados “jogos cooperativos”, onde todos buscam um objetivo comum, sem competição. Nos Jogos Cooperativos não há lugar para a exclusão nem para “melhores” ou “piores”, mas com eles se aprende a considerar o outro como parceiro e solidário, a ter consciência dos sentimentos e a valorizar as diferenças, a desenvolver a empatia e a capacidade de trabalhar para interesses coletivos, priorizando a integridade de todos.
Em relação aos meios de comunicação social (jornal, rádio, TV, revistas, cinema etc.), têm-se várias possibilidades. Uma delas é a do uso dos meios para divulgar a boa nova de Jesus, educar as comunidades, servir ao bem-comum e como espaço para a vivência da cultura própria etc. A outra é a de educar para os meios, ajudando as pessoas a discernir entre o que é construtivo e o que não é - educar para a recepção dos meios.
Para isso, podem-se utilizar filmes e documentários com vários temas que levantem as questões e problemas humanos. Isso pode ser feito por meio de fichas de estudo, debates, painéis, mural, releitura evangélica etc. Os jornais e revistas trazem notícias, charges, caricaturas, HQ e anúncios. Com eles, é possível discutir a linguagem da mídia, a sedução para o consumo, como são tratados os diversos temas, o que é fato e o que é opinião. Podem ser elaborados cartazes, debates, mural, painéis. Ou ainda, pode ser feita a produção de um jornal da turma: que notícias gostaríamos de dar ao mundo? Que notícias damos hoje de nossa realidade (familiar, comunitária, eclesial?).
Em relação à música, pode-se aproveitá-la dentro dos encontros, não só para animá-los, mas também para analisar a letra e os questionamentos que os artistas fazem da realidade, com seus valores e contra-valores.
Com discernimento e a experiência vivida e partilhada entre os/as catequistas, vai-se aprendendo novas técnicas, novas dinâmicas, ou a dar novo sentido a técnicas já utilizadas, renovando-as, integrando-as, complementando-as. É possível, inclusive, classificar as dinâmicas segundo as funções que elas podem ajudar a desenvolver: dinâmicas de apresentação, acolhida e integração do grupo; dinâmicas de estudo; dinâmicas de planejamento e de avaliação; dinâmicas para a celebração, entre outras.


3. Como organizar as dinâmicas para o encontro catequético

Tendo como “caminho” de educação da fé o método “Ver – Iluminar – Agir – Celebrar – Avaliar”, o/a catequista buscará as técnicas necessárias para cada momento, dando “vida” ao método. Para ajudar nesta tarefa, convidamos para que a prática de Jesus nos ilumine, refletindo sobre o seu encontro com a samaritana (Jô 4, 1-30) e com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35). Seja na beira do poço ou no caminho para o vilarejo fora de Jerusalém, Jesus:
1.    Aproxima-se: cria empatia, confiança; relaciona-se, colocando em primazia a pessoa, valorizando-a. Pergunta, ouve, deixa falar, insiste, provoca. Estabelece relacionamento profundo.
2.    Detecta a realidade: dialoga sobre a realidade, ouve a versão que a pessoa tem, questiona, procura esclarecimentos.
3.    Ilumina com a Palavra de Deus: Jesus apresenta pistas de como a pessoa vai perceber, à luz da Palavra, o que está nos acontecimentos. Ensina, mas com unção, amor, vibração.
4.    Provoca clima de oração: “Senhor, dá-me desta água viva!”, reza a Samaritana. “Fica conosco, Senhor, pois a tarde está avançada!”, rezam os discípulos de Emaús.
5.    Celebra junto: partilha a vida, a Palavra, a prece e a refeição. Eucaristia! É na partilha que o Senhor se manifesta.
6.    Conversão: Ao longo do processo, há constante interação entre a Palavra e a vida. Reconhece-se que algo está mudado, é novo. Sente-se o coração arder e vontade de agir.
7.    Ação: a Samaritana vai ao povo falar de Jesus. Os discípulos voltam a Jerusalém. É a dimensão missionária da fé. É a fé que age em forma de amor.

Em outras palavras, a organização do encontro catequético pode e deve contar com dinâmicas que propiciem:
1.    Acolhida: quando as pessoas interagem, colocando-se em diálogo; criam laços.
2.    Ver a realidade: deixar as pessoas falarem do que sabem sobre o tema proposto, levantar questões e problematizar as visões que se tem.
3.    Iluminar-se pela Palavra: ouvir e refletir a Palavra de Deus e os documentos da Igreja, criando um maior conhecimento, a partir dos valores do Reino, sobre o fato, o tema debatido.
4.    Rezar a vida e a fé: a Palavra de Deus nos convida à oração que pode ser espontânea, ou preparada, com símbolos e ritos que nos permitem fortalecer nossa espiritualidade.
5.    Propor-se à mudança: dinâmicas que ajudem a propor e a vivenciar compromissos, seja durante os encontros, seja em outros momentos, mas que essa mudança ocupe nossas vidas e seja manifestação do desejo de viver os valores do Reino.

Diante de tantas possibilidades, da criatividade dos/as catequistas, de suas experiências, de materiais que subsidiam a ação catequética, com recursos de todos os jeitos (mais ou menos tecnológicos, complexos, simples, coletivos, emprestados, copiados, inventados, comprados) e, principalmente, da ação do Espírito que impulsiona para a missão, é possível dinamizar a catequese, porque se parte da vida, se deixa iluminar pela Palavra e se coloca em ação. Sem a dinâmica que lhe é própria, qualquer recurso para a Catequese se perde, todas as forças se esvaziam, as motivações são facilmente desfeitas.
Para encerrar este ponto da conversa, destacamos aqui um trecho do texto que Ir. Vera Bombonatto apresentou na 3ª Semana Brasileira de Catequese: “Ser cristão é entrar no movimento da vida de Jesus que armou sua tenda entre os pobres e excluídos deste mundo, anunciando-lhes a boa-nova do Reino, que passa pela cruz, mas não termina nela e sim na ressurreição”.
As dinâmicas e técnicas são algumas propostas. A grande proposta é o seguimento e o discipulado de Jesus. Este horizonte jamais poderá ser esquecido, porque é este o centro da Catequese. Tudo o mais é mutável, transferível, adaptável, reciclável...



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ALBERICH, E. Catequese evangelizadora. Manual de Catequética Fundamental. São Paulo: Salesiana, 2004.

BOMBONATTO, Vera I. Discípulos missionários hoje. Catequese, caminho para o discipulado. 3ª Semana Brasileira de Catequese. Itaici, SP: Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética, 2009.

CNBB. Catequese Renovada. Documento 26. São Paulo: Paulinas, 1983.

______. É hora de mudança! Planejamento pastoral dentro do Projeto RNM. São Paulo: Paulinas, 1998.

______. Diretório Nacional de Catequese. Documento 84. São Paulo: Paulinas, 2006.

DIOCESE de Osasco. Metodologia Fé e Vida caminham juntas na comunidade. Cadernos Catequéticos, n. 9. São Paulo: Paulus, 1998.

KESTERING, Juventino. Elementos de metodologia de uma catequese libertadora. Revista de Catequese. n. 82. 1998, p. 47-52.

PAIVA, Vanildo de. Catequese e liturgia, duas faces do mesmo mistério – Reflexões e sugestões para a interação entre Catequese e Liturgia. São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Catequese).

PIMENTA, Ivan Teófilo. Linhas metodológicas de uma catequese libertadora. Revista de Catequese. n. 23. 1983, p. 27-35.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Flamula Laranja


Olho daqui de cima com a flanela na mão, da janela dos andares desse prédio, dos vidros que serão olhados se eu limpei. É a aparência o que importa! Gostam do esmero exterior. Eu limpo a sujeira deles.

Flanela agitada flamejando velozmente na transparência do vidro. O sol bate forte e alaranjante enquanto esfrego para me livrar de toda a sujeira que impede que eu veja além...O que vejo do outro lado? Vejo no meu reflexo o suor pingar-me qual água pura de bica. Água transformada em vinho, fez meu Jesus. Suor e calor transformados em pão para os filhos, faz a doméstica milagrosa.

 Aquele tecido inquieto, com movimentos tão perfeitos, meticulosamente ordenados são uma verdadeira sinfonia tocada à transparência do vidro. Toda limpeza de vidro é uma orquestra. Toda Faxineira é Maestra. E o som do pano esfregado contra a superfície lisa é canto dia e noite Cinderella que não chora, mas esfrega.

Socorre-me de minha mesquinhez e abana-me tua flamula benta, ó Santas Mulheres!



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Meu voto para presidente

Algumas pessoas me perguntaram em quem eu vou votar. Resolvi que vou dar a minha opinião. Não vou cair no infantilismo dessa gritaria virtual e excluir contatos das redes sociais por causa de uma divergência política. Eu vou apenas dizer o que penso. 
Meu candidato para a presidência do país no 1º turno está fora da disputa no 2º turno. Era Geraldo Alckmin (PSDB). Não morro de amores por ele. A verdade é que, diante dos candidatos, ele, que foi governador de São Paulo, me parecia a melhor opção. 2º turno temos o arrogante PT e o "Messias" Bolsonaro (PSL). Triste.
Seja como for, quero falar com você que é católico e vai votar. Quem me conhece, sabe o quanto eu aprecio o trabalho da CNBB (Conferência dos Bispos do Brasil). Acompanho os seus escritos, documentos e estudos desde que estava no ensino médio. Meu compromisso enquanto cristão com a Igreja - e mesmo o despertar de minha vocação em muito devo a leitura e escuta atenta do Magistério local. Busco orientar o meu agir eclesial e cristão a partir das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja No Brasil - sempre promulgadas pela CNBB - igualmente me guio pelo Magistério do Episcopado Latino-Americano (CELAM) e pelo Magistério Universal (Santa Sé e documentos pontifícios). Sou católico e vivo a minha fé, mesmo que, por vezes, eu seja criticado pelo gosto e pela proximidade que tenho pelos documentos eclesiais e de modo particular pela CNBB. 

É por isso que fiquei consternado quando vi que Jair Bolsonaro ofendeu a CNBB chamando-a de parte podre da Igreja: https://www.youtube.com/watch?v=49_yJ8li34k   -  http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/583781-bolsonaro-sobre-os-bispos-brasileiros-eles-sao-a-parte-podre-da-igreja-catolica  - Não quero esse homem como presidente e acho que os católicos também não deveriam querer alguém que fala assim de seus bispos. 

Alguns talvez saibam ano passado estive morando em Sinop (MT) e pude conhecer de perto o trabalho do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), participei do julgamento do caso do assassinato do Ir. Vicente Canãs, SJ que morreu defendendo os índios daquela região e até pude participar de uma perícia em uma aldeia indígena ... eu contei isso aqui: http://joaomelo10.blogspot.com/2017/12/do-cativeiro-ao-presente-de-despedida.html   - Jair Bolsonaro ofendeu o CIMI também... que é uma organização católica que busca garantir que os indígenas tenham os seus direitos básicos atendidos. Depois de ter vivido um ano no Mato Grosso e ter visto e vivido de perto o trabalho do CIMI na defesa dos indígenas, eu não posso concordar com a afirmação de Jair Bolsonaro de que o CIMI é a parte podre da Igreja. Não quero esse homem como presidente e acho que os católicos também não deveriam querer alguém que fala assim do trabalho da Igreja na defesa dos povos indígenas. 

CNBB  e CIMI são duas das entidades que fazem parte da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) que está articulando, a pedido do papa Francisco, o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia: https://www.youtube.com/watch?v=W5AMCIBO3hE – Para quem é católico e já não tem o costume de ler os documentos da CNBB e não sabe o que é um Sínodo dos Bispos, aconselho pelo menos ler a Constituição Apostólica Episcopalis Communio Sobre o Sínodo Dos Bispos: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_constitutions/documents/papa-francesco_costituzione-ap_20180915_episcopalis-communio.html - CNBB  e CIMI são duas entidades essenciais na realização da ação ordinária da Santa Sé, isto é, o Sínodo dos Bispos.
A temática está em torno do cuidado da casa comum, tema da Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html  - Enquanto isso, Jair Bolsonaro defende a  fusão dos ministérios da agricultura e meio ambiente –apesar que agora que está querendo voltar atrás https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/18/bolsonaro-defende-juntar-ministerios-da-agricultura-e-do-meio-ambiente-e-se-diz-preocupado-com-questoes-ambientais.ghtml  - Não quero esse homem como presidente e acho que os católicos também não deveriam querer alguém que demonstra pouco interesse no cuidado com a casa comum – cuidado  tão insistido pelo papa Francisco. 
Esse ano estou participando da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Feira de Santana (BA). Vejo cada vez que visito um pavilhão da cadeia o que é a realidade de um preso daqui. Urge Direitos Humanos para que o ambiente em que eles estão confinados possa oferecer as condições adequadas para a ressocialização dos presos... Função primeira do sistema penitenciário brasileiro que, na verdade, está falido. Não precisamos de mais violência nos presídios, ou de mais presídios... Precisamos de humanização dos complexos prisionais que existem a fim de humanizar quem por lá passa. Os Diretos Humanos lutam  por  isso. Por outro lado, Jair Bolsonaro quer boicotar a atuação dos Direitos Humanos que ele diz defender bandido: https://www.valor.com.br/politica/5934943/bolsonaro-esta-equivocado-sobre-direitos-humanos-diz-procurador - Não quero esse homem como presidente e acho que os católicos também não deveriam querer alguém que demonstra não conhecer nada da realidade prisional do país que pretende governar  –a maior parte das pessoas que concordam com ele também não sabem como é um presídio. Lástima.
Quem me conhece sabe que eu nunca fui e não sou petista. Para não dizer que nunca, votei uma vez no senador Eduardo Suplicy em SP. Só. Não defendo o voto no PT.
Nessas eleições, eu concordo com o Mano Brown quando diz que o PT não fala com o povão da periferia mais:  https://epoca.globo.com/mano-brown-acaba-com-clima-festivo-em-ato-do-pt-23183740 - Eu concordo com Luciano Huck quando diz que é lamentável que sejam esses os dois candidatos a chegarem ao 2º turno: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/luciano-huck-sigo-aqui.shtml - Eu concordo com Caetano Veloso quando defende o Mano Brown e diz que o brasileiro está polarizado. Eu concordo com FHC quando diz que Jair Bolsonaro é um muro e Haddad uma porta enferrujada de um partido que não faz autocrítica.
Seja como for, no fim das contas, eu estou ainda com o PSDB. Não com o Doria de SP – desesperado para ganhar brigou com Alckmin e correu pra apoiar Bolsonaro - , mas com o FHC, o Alberto Goldman que declarou voto no Haddad: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/24/goldman-declara-apoio-haddad.htm e com a ala do PSDB conhecida como Esquerda Pra Valer https://www.boletimdaliberdade.com.br/2018/10/13/corrente-esquerda-pra-valer-do-psdb-declara-apoio-a-fernando-haddad/  - https://www.esquerdapravaler.com.br/ -  MEU VOTO NÃO É PETISTA. MEU VOTO É ANTI-BOLSONARO.

Esquerda não é coisa de comunista. Comunismo não existe no Brasil, só em Cuba, Coréia do Norte, China mais ou menos.... 

 O verdadeiro perigo é Bolsonaro. E eu ainda acho que os católicos deveriam saber disso. Mas respeito a sua divergência. 

Tenho uma confissão a fazer..... disse tudo isso mas a verdade é que ... vou justificar o voto, estou fora da minha zona eleitoral. Valeu a reflexão!



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Ondas do Hospital Irmã Dulce


Sentado à mureta olhava as ondas do mar açoitarem os rochedos da praia. Era até confortável permanecer por ali, em cima do muro. Mas a sola dos pés experimentavam um vento que acariciava liberdade inquieta, como criança que balança as pernas sem tocar o chão. Em cima do muro, sem chão e com desejos que borbulhavam a cada nova onda que quebrava nas pedras. Fez-se silêncio no restante do mundo inteiro. Só era possível ouvir o estrondo brutal das águas lambendo aquelas rochas impassíveis. Quanta força naquelas ondas! O que as agitam dessa maneira? E nesse instante, o sangue é água do mar; e uma enseada de pensamentos é cuspida pelo oceano de sentimentos que nadam à braçadas na interioridade. E tudo que mais se quer é sair de cima do muro, pular água adentro e unir-se ao arrebentar da maré. Quanta estupidez! Todo aquele exagero de força batendo nas rochas e... nada, as pedras continuam lá, em suas firmezas. E as águas voltam a insistir outra vez. Que desperdício! Ninguém precisa de sua força inútil! Então Stuart Mill estava certo e as coisas valem pelo utilitarismo que elas têm? E amar é útil? E ser amado é útil?
Desci do muro e fui para o hospital da Irmã Dulce colhendo conchas...colchas de retalhos para costurar a minha humanidade. Usei lençóis azuis, todos eles repetidos e com a mesma frase bordada: ”Obras Sociais Irmã Dulce”. Em cada retalho um pedaço rasgado e amado de vida.
“Tudo que vai com Deus e com fé, vai bem”, repetia Santa Dulce dos Pobres, enquanto nos olhava numa presença que não sei explicar, mas sentia.
No jardim do hospital, gente de nome florido que na flor da idade tinha uma filha que no botão da idade já tinha desabrochado outra criança que perdera o pai assassinado naqueles dias. Nesse canteiro, o espinho é o câncer. Mas esse jardim de mulheres e homens teima em primaverar. Quanta força nessa maré! Qual a fonte que agita esse oceano de garra?
Passei uma semana aí colhendo dores de um sofrimento imerecido, dilacerante e injusto. Protesto! Por que aquelas pessoas sofrem tanto? Por que o sofrimento? E não houve resposta que cala-se a dor. 93 anos é idade de fazer quimioterapia? Família é coisa que dá vontade para viver. Solidão é coisa que dá vontade de morrer. Você tem medo da morte? Sussurra uma voz carente de afago. Me deixe em paz a senhora e o diabo das suas perguntas! Não quero dizer o que sinto. Não dou meus porcos famintos para comer as pérolas alheias. Lanço meus porcos precipício abaixo, mar adentro para que se calem. Protejo as suas pérolas. Engulo solenemente cada detalhe de sua história. Escuto atentamente. Amo-te com a presença do olhar. Mas “os olhos mentem a dor da gente”, canta o poeta. Na verdade, os olhos gritam. O olhar entrega e se entrega no anseio de colo e de força. Que desperdício de força nessa torrente d´agua que bate às pedras da praia. Para que essa força? Amar é útil? Quando o olhar lhe disser que está com medo, mesmo que a boca diga o contrário, ame mesmo... e ame com força! O amor é resposta generosa ao sofrimento. E peque sem matéria contra a tradicional castidade: Beije os corpos que encontrar no jardim do paraíso hospitalar. Ame e deixe-se amar com coragem e generosidade.
Na brisa leve das manhã e nas tardes sôfregas de Salvador, passeei no jardim da oncologia para encontrar o Cristo que quer vida em abundância.
Eu quis gritar e eu gritei. Eu quis sair correndo, e Deus sabe como eu tenho corrido. Eu quis enfrentar o oceano e mudar o curso da vida de tantos. Mas eu não pude: caí de joelhos na areia, choroso, vencido, entregue, dependente, calado. Que não seja feita a minha vontade. Mas isso não significa que não era possível fazer algo! É sempre possível amar...porque as águas do mar sempre voltarão a se lançar com intensidade sobre as rochas da praia. E eu voltei ao hospital.
Lá, me encontrei com Cristo Rei, Senhor em sua Glória, o Poderoso do Universo. Sua presença era nobre e viva. Ele mão estava velado, eu via-O claramente. Ele é um só, mas estava em muitos. Estava sentado, Eternamente sentado em seu trono glorioso. Tronos ladeados por duas rodas que eram movidas pela necessária ajuda de mãos humanas. Fico imaginando que Glória é essa que a gente celebra... só pode ser essa, a Glória de ser com os Seus e tocar a roda da vida.
Ouvia-se línguas estranhas. Eram idiomas que reverberavam numa lógica distinta do português e de outros dialetos conhecidos. Expressões comunicativas mais civilizadas: o toque, o olhar, um barulho. Anunciavam afeto, idioma que às vezes fingimos não saber falar. Geriatria, enfermaria, centro para pessoas com deficiência. Ternura. A energia daquelas águas que banhavam as pedras praianas era inesgotável. Impressionante.
“Eu não sou alcoólatra, um cachaceiro. Eu sou uma pessoa só, sem ajuda. Eu sou um dependente”. “Eu sou o remédio da minha mulher. Se eu pudesse morava aqui no hospital. Fiquei 5 dias fora e ela piorou. Como eu poderia abandonar uma mulher cm quem vivi 33 anos juntos?”. “E quem diz que tudo isso começou de um galinheiro. É um milagre, o milagre da multiplicação do bem”. “Eu quero ir para casa”.
Aberto o livro de rituais, lia-se o curandeirismo: ”e debelada toda a enfermidade seja restabelecida completamente a saúde...”. Incredível. Mentira. Faltou fé. O doente não tocado anunciava a renovação do ciclo da vida. Rezou-se no lugar: “Conceda-lhe consolação e força Senhor”. Amém! Força? Você já olhou o mar a noite? O céu e o mar não têm distinção. Ambos são uma imensidão de horizonte azul escuro de pontos brilhantes que você pode chamar de estrelas ou de barcos, tanto faz, tudo é uno diziam os pré-socráticos e os medievais. E em tudo há movimento.
Parece brincadeira tudo isso. Cenoura e vassoura: brincadeiras de um espetáculo gaiato. Cenoura é microfone. Vassoura é cetro real. E eu não ousaria discordar de crianças no hospital.


sábado, 25 de agosto de 2018

QUEM É O CATEQUISTA?


O catequista não é professor. É alguém que como o profeta Jeremias, foi seduzido pelo Senhor porque deixou-se seduzir por Ele (cf. Jr 20,7). Não é um profissional dotado de vários conhecimentos. É alguém que responde a um chamado de Deus, que abraça a sua vocação e no nome da Igreja, enviado em missão, anuncia a alegria do encontro com Jesus Cristo!

O catequista não tem alunos. Ele se faz caminhante com os iniciandos porque vê neles, como vê em si mesmo, almas sedentas de Deus (cf. Sl 63) que querem beber da fonte divina. Ele os conduz pela experiência de fé aos mistérios dos sacramentos.

O catequista não dá aula. Ele oportuniza encontros onde, juntos, catequistas e iniciandos se ajudam a distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom e o que não é (cf. Rm 12,2). É alguém que ensina pra viver o Reino de Deus no hoje da vida.

O catequista é antes de tudo, alguém que conhece Jesus, é alguém consciente da realidade. Ele sabe que todo sofrimento e morte é seguido de ressurreição, é Páscoa (cf. Mt 16, 21)! Por isso, ele mostra que seguir Jesus é renúncia de si mesmo, é atitude de posse da cruz da vida, mas é sobretudo seguimento que resultará em Vida Eterna (cf. Mt 16, 24.27).

O catequista é aquele que faz discípulos missionários para Jesus, porque sabe que é assim que a salvação de Deus os alcança!