domingo, 30 de dezembro de 2018

A Floresta Natalina de Emanuel


Quando Emanuel nasceu, conta-se que ele fora encontrado recém-nascido num galho de árvore, dentro de uma flor aroseada tão grande que as pétalas macias, frágeis e ao mesmo tempo protetoras envolviam por completo o menino que só fora descoberto porque passava por ali um grupo que escutou o seu choro mimoso. Esta fora a única flor gerada por aquela árvore, como se ela tivesse concentrado todo o seu florir naquela amostra unigênita de sua botânica. A flor fechara para nunca mais se abrir depois de ter deitado ao mundo o jovem Emanuel.

A árvore de cuja flor brotou Emanuel era frondosa, de galhos cheios que faziam uma refrescante sombra aos passantes. Pela história do nascimento de Emanuel que corria de boca em boca por ali, chamavam-na de Árvore que dá Vida ou Árvore Mãe. Com o tempo e o costume do povo, falava-se apenas em Árvore da Vida. De fato, não era um árvore qualquer: Ela se destacava em meio as outras pela verdedura e pela energia que inspirava a quem a olhasse de perto. Quando a brisa leve farfalhava seus galhos, ela parecia alegrar-se e o barulho de suas folhas lembrava um canto de amor. O vento acariciava-a e ela zunia docemente em agradecimento.

Emanuel que agora já era um menino, escutara a história de seu nascimento diversas vezes, contada por todos do pequeno vilarejo perto de onde a árvore estava. Já fazia algum tempo que Emanuel decidira ir morar à sombra da Árvore da Vida. Ora, já que lhe diziam que ele brotara da árvore, nada mais justo do que ele morar aos seus pés, pensara. E assim fez: Armou a sua tenda à proteção dos galhos da Árvore da Vida e por ali ficou.

O pequeno Emanuel era conhecido e querido por todos do vilarejo. Ele caminhava até lá todos os dias. Passeava pela praça onde sempre encontrava conhecidos que lhe davam o de comer ou algum dinheiro em troca de pequenas tarefas e trabalhos simples. No fim do dia, ele voltava para a Árvore e, já ao longe, quando avistava os seus primeiros galhos, o seu coração se enchia de alegria. Havia tardes que, enquanto o sol se punha, ele ficava contemplando a Árvore e meditando sobre a história de seu nascimento. Assim, passavam-se os dias do infante Emanuel.   

Certa vez, Emanuel notou lá na copa da Árvore algo diferente de folhas. Era algo com tons de amarelo vivo. Subiu no galho mais baixo e depois trepou-se em uma mais alto até conseguir ver do que se tratava: Era um fruto amareleço de formato violão que Emanuel não conhecia. Ele escalou em outro galho ainda mais alto e logo podia tocar no fruto novo. Colheu-o. Era o primeiro fruto não menino que a árvore dava. Sua superfície era levemente aveludada e acariciável ao toque humano. O cheiro doce e inebriante atiçava o paladar. Emanuel teve vontade de comê-lo e ali mesmo, embrenhado entre as ramas da Árvore da Vida, fartou-se do fruto novo. Pela primeira vez na eternidade saboreou-se dum alimento de suculência tão saciadora. Era uma delícia de fruto que podia ser abocanhado com leveza e que enchia o paladar de tão aquoso que era. Emanuel festejou agradecido pelo novo fruto. Depois, desceu até sua tenda e recostado no tronco da Árvore adormeceu. E sonhou um sonho tão lindo e sagrado que não ousou contar a ninguém sobre as maravilhas dos mistérios insondáveis que vislumbrou naquela noite. Seu coração de menino estava acalentado.

Na manhã seguinte, para sua surpresa, a Árvore da Vida frutificara mais uma meia dúzia de frutos. Emanuel apanhou-os em uma cesta a fim de levá-los para o vilarejo. Lá, distribuiu-os para aqueles que eram mais pobres e famintos, como ele. Naquele dia, porém, Emanuel notou que as pessoas o cumprimentavam dispensando-lhe mais atenção do que o costume e dando-lhe os parabéns. Foi quando lhe caiu na conta que com a colheita do fruto novo, esquecera completamente de que dia era aquele: o dia em que se comemorava o seu nascimento. Emanuel ficou ainda mais contente, pois sabia o que isso significava: era dia de festa. Desde que completara um ano de vida, era costume dos moradores do vilarejo que nesse dia, ao cair da tarde, todo o povo se reunisse em torno do lenhoso tronco da Árvore da Vida, levando velas e lamparinas que penduravam nos galhos para ali celebrarem a vida de Emanuel. Dessa vez, além de toda a comida e bebida trazida por eles, haveria também os novos frutos da Árvore da Vida. E, de fato, a alegria e o encanto com os novos frutos foram tão intensas, que os cantos e danças arrastaram-se noite adentro e os homens e mulheres daquele tempo chamaram aquele festejo de Natal.



Dias depois, Emanuel notou que ao redor da grande Árvore nasceram várias outras pequenas árvores da mesma espécie. Passado alguns meses, rápido como o soprar do vento, elas já não eram mais brotos pequenos, mas sim verdadeiras árvores cujos galhos se encontravam formando um único teto esverdeado sob a cabeça de Emanuel e de quem por lá passasse. Era uma inteira floresta nascida da Árvore da Vida. E apesar das árvores serem todas irmãs, misteriosamente cada uma delas produzia um fruto diferente nas cores e nos sabores. Que floresta adorável essa em que o jovem Emanuel vivia!

Agora, haviam dias em que ele não era mais visto no vilarejo e julgavam que estava na floresta que se alastrava dia a dia. Ainda assim, os viajantes que por lá passavam raramente o encontravam. A floresta era toda silêncio humano. Só os pássaros e o vento nas folhas pareciam cantarolar um perene hino sacro. 

No vilarejo os boatos eram incontestáveis: O festejo do Natal daquele ano ia ser o maior de todos, pois havia agora uma inteira floresta com frutos em abundância para celebrar. Outros moradores de vilarejos mais distantes, peregrinos e até estrangeiros também apareceriam para a festa do Natal que ganhava novas proporções.

De fato, naquele ano, o Natal de Emanuel foi grandioso. Mas com a sua grandeza, aconteceu de um ou outro festeiro, tomados por um instinto egoísta que contradizia o espírito da comemoração do nascimento de Emanuel, armarem-se de instrumentos cortantes a fim de levarem para si árvores do Natal, ferindo a Floresta e a celebração. Eles queriam cultivar as árvores só para si mesmos, privilegiando-se de seus frutos, e os mais vis já almejavam enriquecer com o comércio da frutificação das árvores do Natal. Então, Emanuel que subira em um dos galhos da Árvore da Vida gritou a estes e a todos, proclamando:

- Depõe tuas armas e sê bem-vindo! Cá, à sombra acolhedora da Árvore de Natal, dividimos os frutos desse convívio de fraternidade! É desejo de partilha e de festejo do Reinado Divino! Dá mais um passo, chega mais perto, coma e beba dessa ceia natalina sem nenhuma paga! Inebrie-se com os frutos dessa Árvore de Vida que nos abraça a todos e todas com seus galhos frondosos e frutificados! Entra na roda com a gente e cante um hino natalino que alegra e resfolega o coração de utopia! Que saudades de um mundo melhor!

Fez-se silêncio. E o som do farfalhar das árvores pelo vento, escutado por pessoas saciadas pelos frutos das árvores da Floresta, despertava nos convivas o desejo de cantar cantos e hinos de alegria, os cantos de Natal. E o Reino da festa de Natal vigorava e tudo parecia suficiente.

Outros festeiros de terras longínquas, mais acanhados e discretos, procuraram Emanuel para dizer-lhe o quanto o Natal os repleitavam e do desejo sincero e profundo de poder celebrá-lo novamente em suas terras e lares distantes, pois sabiam que não poderiam voltar à Floresta de Natal. Emanuel escutou-os a todos com compaixão e misericórdia. Ele sabia o que eles queriam e precisavam: levar uma das Árvores de Natal e cultivar a celebração que se realiza ao seu redor. E assim ele lhes concedeu. Mas, na intimidade de seu coração, Emanuel sabia que o tempo da Floresta da Árvore da Vida estava acabando e que ao redor das árvores de seu nascimento nascia agora algo novo e maior: a propagação do Natal.

Aquela noite foi a última em que Emanuel foi visto pelos festejantes do seu Natal. Ele nunca mais apareceu no vilarejo. Alguns dizem que ele permanece na Floresta de Natal e que na época das comemorações natalinas ainda é possível vê-lo dançar enquanto come frutos novos. Outros dizem que ele viaja mundo afora, levando Árvores de Natal e sua celebração de fraternidade e partilha para outros povos e nações. Os mais místicos arriscam dizer que Emanuel faz-se sempre presente toda vez que um punhado de gente se reúne em torno de uma árvore para celebrar o Natal.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

As florestas natalinas das Árvores de Natal



Antes de se popularizar, já São Bonifácio decorava em sua Igreja, por ocasião do Natal, uma “nova” Árvore da Vida (cf. Gn 2,8), sinal do Cristo, novo Adão. Diz um texto bíblico: “No meio da praça e em ambas as margens do rio cresce a Árvore da Vida, frutificando doze vezes por ano, produzindo cada mês o seu fruto, e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 22,2). 

Aos poucos, o costume de colocar também dentro de casa um Árvore da Vida – de Natal – ganhou força e hoje é possível imaginar a verdadeira floresta natalina que habita milhões de lares nessa época do ano, como que cumprindo uma profecia bíblica: “As florestas e todas as árvores odoríferas, darão sombra a Israel, por ordem de Deus. Sim, Deus guiará Israel, com alegria, à luz de sua glória, manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem” (Br 5,8-9;  1ª Leitura do 2º Domingo do Advento Ano C). São Árvores que dão sombra a Israel, árvores que aconchegam sob seus galhos o pequeno menino, o filho do Altíssimo; árvores que acolhem na misericórdia e na justiça o Messias esperado, o filho de Davi, filho de Jessé. “Naquele dia, nascerá um galho do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o Espírito do Senhor” (Is 11,1). “Naquele dia, a raiz de Jessé se erguerá como um sinal entre os povos; hão de busca-la as nações, e gloriosa será a sua morada” (Is 11,10). A raiz brotou, o rebento cresceu e de seu tronco de Árvore da Vida fez-se árvore do madeiro da Cruz, donde superabundou a Vida: Jesus é a verdadeira Árvore da Vida - de Natal

O Menino Jesus nascido em pobreza é a semente da justiça que frutifica em Árvore da Vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). “Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jr 33,15 – 1º Leitura do 1º Domingo do Advento Ano C). Jesus nasce pobre com os pobres, sua humanidade até a raiz assume toda a condição humana, menos o pecado. Ele assume a causa dos empobrecidos e marginalizados e dá a vida em resgate da justiça na terra e da dignidade de todo homem e de toda mulher. O apelo de ver o menino Jesus nos irmãos e irmãs, particularmente os que mais sofrem, ainda é vigente: Em cada criança faminta, sem moradia, afeto e direto à educação e saúde básica está presente o menino Deus feito pobre entre os pobres que clama por uma sombra de Árvore da Vida que lhe dê mais vida.  Árvore de Natal faz-se eloquente convite ao compromisso com a justiça e com a promoção da Vida plena para todos.

O Incrível significado das bolas da árvore de Natal


O tempo do Natal nos coloca numa atmosfera de fraternidade e gratuidade generosas que nos inspiram um estilo de vida mais humano e o sonho de um mundo mais justo e feliz. É a Mística do Natal que aproxima a todos, mesmo os não crentes e aqueles que não comemoram o sentido religioso da data. O “espírito do Natal” nos alcança e inebria. Por isso, hoje, diante da pluralidade em que vivemos, mais do que nunca, é oportuno deixar-se encantar pela rica simbologia natalina que nos toca e une a todos. Resgatá-la em suas origens e revalorizá-la possibilita o encontro de diálogo e partilha da mística envolvente desse tempo natalino.


O “ofertório” das bolas de Natal

Um dos símbolos de Natal mais usados são as bolas da árvore de Natal. Tradicionalmente vermelhas, as bolas de plástico hoje substituem o antigo costume de colocar frutas de verdade na Árvore de Natal, especialmente as maças! De acordo com uma tradição bíblica, frutos da terra e da colheita do trabalho do homem do campo eram ofertados a Deus em louvor pela colheita abençoada: “Trarás à casa do Senhor, teu Deus, as primícias dos frutos do teu solo” (Ex 34,26). Homens e mulheres, trabalhadores simples e humildes, como os pastores que na narrativa bíblica visitam Jesus, ofereciam o fruto de seu trabalho e da mãe terra ao Deus da Vida.  

De fato, isso é tão verdade que ainda hoje isso acontece. Estive no Paraguai em 2017, em cidades do interior e na grande cidade de Encarnación e vi por lá muitas frutas depositadas aos pés de presépios, especialmente melancias que são abundantes nessa época. A atitude que está por trás desse gesto é só uma: gratidão. É o exercício de agradecer os “frutos” recebidos da Vida. Gesto esse que ainda pode ser repetido por nós. Frutas nas árvores de Natal têm haver com ofertório! Na Europa as maças decoravam a árvore de Natal – sinal da Árvore da Vida – num gesto de agradecimento pela nova frutificação, o dom da Vida do Menino Deus que se fez homem por nós.

Na Catedral de Encarnación as frutas eram de plástico porque o presépio ficava exposto no pátio em frente à Igreja e as frutas logo poderiam apodrecer. Hoje, as bolas de plástico coloridas substituíram os diversos tipos de frutas. Porém, o convite à atitude de agradecer os frutos colhidos permanece. Decorar a Árvore de Natal com bolas coloridas pode ser um gesto de recordação da vida em agradecimento por tudo de bom que a vida é e tem. Cada bola um agradecimento. Cada bola, um desejo expresso de um fruto que ainda precisa ser colhido. Cada bola, uma prece. 

Em algumas igrejas, as famílias trazem uma bola de natal para decorar o entorno do presépio ou a Árvore de Natal da comunidade. Esse gesto é feito no ofertório ou durante as preces dos fiéis, com um canto apropriado.        

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

As dinâmicas na ou da Catequese? Refletindo métodos e técnicas na educação da fé

texto de Suzana Costa Coutinho
Educadora

          
  É comum, nos vários encontros, reuniões e cursos que participamos junto a catequistas e outras lideranças comunitárias e eclesiais, ouvirmos a demanda por capacitações sobre dinâmicas, para “animar” os encontros, cursos e outros eventos na comunidade ou no grupo. É comum, também, ouvirmos que se terá “momentos de animações”, ou uma “equipe para animar” tal evento. Esta reflexão quer trazer elementos que nos ajudem a entender o que são as dinâmicas e sua relação com a atividade catequética.
            O conceito de dinâmica muito comum entre as pessoas é de uma ação ou atividade que faça mover, que “anime”. Há pessoas que preparam seus encontros, cursos e reuniões de forma a ter vários momentos com muitas “dinâmicas”. Se refletirmos um pouco mais, vamos percebendo que, por trás desses conceitos, está a ideia de que dinâmica é algo a parte, inserido para movimentar outra coisa. Pois bem: a palavra dinâmica realmente significa “movimento”, algo que faz “explodir” para mover (dínamo, dinamite...).
            Quando pensamos num encontro catequético, podemos nos perguntar: que dinâmica ele terá? Ou: que dinâmicas vou usar? São perguntas diferentes com concepções de dinâmica diferentes. Na primeira, estamos falando de “método”, ou seja, de um ciclo, de um roteiro que faça o encontro “caminhar”, mover-se de um determinado ponto até outro que desejo (meu objetivo no encontro). Na segunda pergunta, estamos falando de técnicas, de atividades dentro do roteiro que nos ajudem a “animar” o encontro. São duas perguntas válidas, mas que só terão força se forem feitas juntas. Ou seja, para falar de dinâmica na Catequese, precisamos pensar o “método” catequético e, dentro dele, as técnicas que iremos utilizar para dar “vida” ao método.


1. O método é a dinâmica da catequese

            Como a catequese se move? Ao fazer esta pergunta estamos querendo saber qual a dinâmica da catequese. Os documentos da Igreja sobre a Catequese falam de um jeito de catequizar, um jeito de ser da catequese. Este jeito significa sua identidade, que a faz única e, ao mesmo tempo, integrante das outras ações ou dimensões evangelizadoras da Igreja. Portanto, reconhecem que há uma dinâmica própria da catequese, que se expressa como uma ação educativa da fé. Desta forma, o documento Catequese Renovada afirma que Catequese é um processo dinâmico de educação da fé, um itinerário e não apenas instrução.
Como processo educativo, qual método seguir? Partimos de alguns fundamentos pedagógicos importantes para a ação catequética. Primeiro, ter presente que as atividades devem ser adaptadas à psicologia dos/as educandos/as, ao ambiente social em que vivem e interagem, aos objetivos da ação e aos conteúdos que devem ser apreendidos e interiorizados. Segundo, que educação é processo de duas mãos: o aprender e o ensinar, e que esse processo deve ocorrer de forma dialógica, ou seja, entre sujeitos (educador/a e educando/a) e não de um sobre o outro.
Embora a pedagogia seja grande aliada da Catequese, ela sozinha não garante um processo de educação da fé. Por isso, o documento Catequese Renovada ajuda a compreender o método catequético a partir da ação de Deus Trino e da própria Igreja:
a)    O modo de proceder de Deus Pai na história (cf. Salmo 103,3-6) que se revela de diversos modos e comunica-se através dos acontecimentos da vida do povo (PARTE DA REALIDADE das pessoas);
b)    O modo de proceder de Jesus que, por meio da sua vida, palavras, sinais e atitudes, leva à plenitude a Revelação Divina. O Filho que acolhe, anuncia, convida, envia, chama a atenção às necessidades e para a reflexão sobre a mudança, tem linguagem simples e firmeza diante das tentações;
c)     A ação do Espírito Santo, “Mestre interior”, que impulsiona para o conhecimento intelectual e a experiência amorosa, para uma experiência existencial (pessoal e comunitária de Deus) fundamentada no amor; que leva ao anúncio da verdade revelada, cria meios para a comunhão filial com Deus, a construção da comunidade de irmãos, o estabelecimento da justiça, da solidariedade e da fraternidade;
d)    O modo de proceder da Igreja, como Mãe e educadora da fé.

Portanto, a dinâmica da Catequese deve ser aquela que impulsiona a pessoa a aderir livre e totalmente a Deus, a introduz no conhecimento vivo da Palavra de Deus e a ajuda no discernimento vocacional para a vida na Igreja e na sociedade. Para isso, considera que é preciso viver o clima de acolhimento e docilidade ao dom do Espírito Santo, promover um ambiente espiritual de oração e recolhimento, pronunciar a palavra com autoridade e fortaleza e incentivar a participação ativa dos catequizandos.
Na caminhada da Igreja, principalmente na América Latina, a Catequese vai se identificar com o método pastoral “VER-ILUMINAR-AGIR”, ao qual vai incluir “CELEBRAR-AVALIAR”. E vai afirmar o método como passos que não são estanques, mas um processo dinâmico.
Assim, o “VER” propõe ser um olhar crítico e concreto a partir da realidade da pessoa, dos acontecimentos e dos fatos da vida, como disse Jesus, para saber discernir “os sinais dos tempos”. Nem todos já têm esse olhar crítico, por isso, é preciso ouvir as pessoas, a partir de suas visões de mundo, ajudando-as a ampliar sua capacidade de analisar a realidade.
Para ajudar nessa “ampliação” do olhar, vem o segundo passo, que é o “ILUMINAR”. Este é o momento de escutar a Palavra de Deus. Este “escutar” implica reflexão e estudo que iluminam a realidade, questionando-a pessoal e comunitariamente. Também é uma busca de conversão contínua para realizar a vontade do Pai. Momento de abertura ao Espírito Santo, com a escuta orante da Palavra, com uma atitude contemplativa e fidelidade à mesma Palavra, à Tradição e ao Magistério. São passos necessários para esse momento: descobrir a ligação da caminhada com a mensagem evangélica; fazer o confronto da realidade com as exigências da proposta de salvação anunciada por Cristo e buscar o discernimento em vista da organização de uma ação transformadora.
Chega-se, desta forma, no terceiro momento: o “AGIR”. Momento de tomar decisões, orientando a vida na direção das exigências do projeto de Deus. Também é o tempo de vivenciar e assumir conscientemente o compromisso e dar as necessárias respostas para a renovação da Igreja e transformação da realidade. Este passo exige: confiança em Deus, coerência entre fé e vida e fortaleza para acolher as mudanças necessárias na sociedade e na vida pessoal. O AGIR é compromisso de viver como irmãos, de promover integralmente as pessoas e as comunidades, de servir os mais necessitados, de lutar por justiça e paz, de denunciar profeticamente e de transformar evangelicamente as estruturas e as situações desumanas, buscando o bem comum.
CELEBRAR e AVALIAR podem e devem estar presentes nos outros momentos. Celebrar a realidade, celebrar a Palavra, celebrar a ação. Avaliar como vemos a realidade, como agimos diante da Palavra, como atuamos na nossa vida pessoal, comunitária, eclesial e social. Celebrar e avaliar também a caminhada catequética, os encontros, as fases, as turmas, as vivências catequéticas.


2. As dinâmicas dentro do método catequético

Na ação educativa deve-se considerar as qualidades das experiências de aprendizagem ou as atividades propostas em cada fase do método a ser adotado, ou seja, das técnicas que serão utilizadas para dar vida ao método. Ao escolher uma “técnica” a ser utilizada com o grupo, busca-se levar em conta sua diversidade, de forma que todos os/as educandos/as participem. Há os que gostam mais de cantar, outros/as que gostam mais de ler, outros/as ainda de desenhar ou escrever, ou ainda de atividades de grupo. A diversidade também evitará a monotonia que pode levar ao cansaço e à falta de motivação.
Por mais “divertidas”, alegres e entusiasmadas que sejam as técnicas, deve-se ter o cuidado para que elas sejam, de fato, coerentes com o tema e com os valores do Evangelho. A técnica não é um acessório, mas é parte integrante do processo catequético. Por isso também deve ser adequada ao interesse e às capacidades dos/as educandos/as-catequizandos/as, e ser significativa, próxima ao seu mundo, às suas preocupações, à sua vida (tem que fazer sentido!).
Para a tarefa educativa, o/a educador/a-catequista pode contar com técnicas didáticas, lúdicas, operativas e celebrativas. No entanto, pode-se dizer que o problema das técnicas ou dinâmicas, ou ainda atividades, não consiste tanto em ter mais ou menos imaginação e criatividade, mas numa coerência, que se expressa na seleção e organização que corresponda com os objetivos da Catequese.
            Nesta diversidade, as atividades lúdicas, por exemplo, não servem apenas para “brincar” ou passar o tempo de forma divertida. A brincadeira não só ajuda a aprender, como fortalece os laços entre as pessoas e aprimora habilidades. São consideradas técnicas, ou dinâmicas lúdicas: desenho, jogos, danças, construção coletiva, leituras, softwares educativos, passeios, dramatizações, cantos, teatro de fantoches, contar histórias, etc.
Sobre os jogos, vale ressaltar que as propostas devem ser fundamentadas nos valores cristãos da vivência e da partilha comunitárias e não da competição e exclusão. Por isso, ressalta-se a validade dos chamados “jogos cooperativos”, onde todos buscam um objetivo comum, sem competição. Nos Jogos Cooperativos não há lugar para a exclusão nem para “melhores” ou “piores”, mas com eles se aprende a considerar o outro como parceiro e solidário, a ter consciência dos sentimentos e a valorizar as diferenças, a desenvolver a empatia e a capacidade de trabalhar para interesses coletivos, priorizando a integridade de todos.
Em relação aos meios de comunicação social (jornal, rádio, TV, revistas, cinema etc.), têm-se várias possibilidades. Uma delas é a do uso dos meios para divulgar a boa nova de Jesus, educar as comunidades, servir ao bem-comum e como espaço para a vivência da cultura própria etc. A outra é a de educar para os meios, ajudando as pessoas a discernir entre o que é construtivo e o que não é - educar para a recepção dos meios.
Para isso, podem-se utilizar filmes e documentários com vários temas que levantem as questões e problemas humanos. Isso pode ser feito por meio de fichas de estudo, debates, painéis, mural, releitura evangélica etc. Os jornais e revistas trazem notícias, charges, caricaturas, HQ e anúncios. Com eles, é possível discutir a linguagem da mídia, a sedução para o consumo, como são tratados os diversos temas, o que é fato e o que é opinião. Podem ser elaborados cartazes, debates, mural, painéis. Ou ainda, pode ser feita a produção de um jornal da turma: que notícias gostaríamos de dar ao mundo? Que notícias damos hoje de nossa realidade (familiar, comunitária, eclesial?).
Em relação à música, pode-se aproveitá-la dentro dos encontros, não só para animá-los, mas também para analisar a letra e os questionamentos que os artistas fazem da realidade, com seus valores e contra-valores.
Com discernimento e a experiência vivida e partilhada entre os/as catequistas, vai-se aprendendo novas técnicas, novas dinâmicas, ou a dar novo sentido a técnicas já utilizadas, renovando-as, integrando-as, complementando-as. É possível, inclusive, classificar as dinâmicas segundo as funções que elas podem ajudar a desenvolver: dinâmicas de apresentação, acolhida e integração do grupo; dinâmicas de estudo; dinâmicas de planejamento e de avaliação; dinâmicas para a celebração, entre outras.


3. Como organizar as dinâmicas para o encontro catequético

Tendo como “caminho” de educação da fé o método “Ver – Iluminar – Agir – Celebrar – Avaliar”, o/a catequista buscará as técnicas necessárias para cada momento, dando “vida” ao método. Para ajudar nesta tarefa, convidamos para que a prática de Jesus nos ilumine, refletindo sobre o seu encontro com a samaritana (Jô 4, 1-30) e com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35). Seja na beira do poço ou no caminho para o vilarejo fora de Jerusalém, Jesus:
1.    Aproxima-se: cria empatia, confiança; relaciona-se, colocando em primazia a pessoa, valorizando-a. Pergunta, ouve, deixa falar, insiste, provoca. Estabelece relacionamento profundo.
2.    Detecta a realidade: dialoga sobre a realidade, ouve a versão que a pessoa tem, questiona, procura esclarecimentos.
3.    Ilumina com a Palavra de Deus: Jesus apresenta pistas de como a pessoa vai perceber, à luz da Palavra, o que está nos acontecimentos. Ensina, mas com unção, amor, vibração.
4.    Provoca clima de oração: “Senhor, dá-me desta água viva!”, reza a Samaritana. “Fica conosco, Senhor, pois a tarde está avançada!”, rezam os discípulos de Emaús.
5.    Celebra junto: partilha a vida, a Palavra, a prece e a refeição. Eucaristia! É na partilha que o Senhor se manifesta.
6.    Conversão: Ao longo do processo, há constante interação entre a Palavra e a vida. Reconhece-se que algo está mudado, é novo. Sente-se o coração arder e vontade de agir.
7.    Ação: a Samaritana vai ao povo falar de Jesus. Os discípulos voltam a Jerusalém. É a dimensão missionária da fé. É a fé que age em forma de amor.

Em outras palavras, a organização do encontro catequético pode e deve contar com dinâmicas que propiciem:
1.    Acolhida: quando as pessoas interagem, colocando-se em diálogo; criam laços.
2.    Ver a realidade: deixar as pessoas falarem do que sabem sobre o tema proposto, levantar questões e problematizar as visões que se tem.
3.    Iluminar-se pela Palavra: ouvir e refletir a Palavra de Deus e os documentos da Igreja, criando um maior conhecimento, a partir dos valores do Reino, sobre o fato, o tema debatido.
4.    Rezar a vida e a fé: a Palavra de Deus nos convida à oração que pode ser espontânea, ou preparada, com símbolos e ritos que nos permitem fortalecer nossa espiritualidade.
5.    Propor-se à mudança: dinâmicas que ajudem a propor e a vivenciar compromissos, seja durante os encontros, seja em outros momentos, mas que essa mudança ocupe nossas vidas e seja manifestação do desejo de viver os valores do Reino.

Diante de tantas possibilidades, da criatividade dos/as catequistas, de suas experiências, de materiais que subsidiam a ação catequética, com recursos de todos os jeitos (mais ou menos tecnológicos, complexos, simples, coletivos, emprestados, copiados, inventados, comprados) e, principalmente, da ação do Espírito que impulsiona para a missão, é possível dinamizar a catequese, porque se parte da vida, se deixa iluminar pela Palavra e se coloca em ação. Sem a dinâmica que lhe é própria, qualquer recurso para a Catequese se perde, todas as forças se esvaziam, as motivações são facilmente desfeitas.
Para encerrar este ponto da conversa, destacamos aqui um trecho do texto que Ir. Vera Bombonatto apresentou na 3ª Semana Brasileira de Catequese: “Ser cristão é entrar no movimento da vida de Jesus que armou sua tenda entre os pobres e excluídos deste mundo, anunciando-lhes a boa-nova do Reino, que passa pela cruz, mas não termina nela e sim na ressurreição”.
As dinâmicas e técnicas são algumas propostas. A grande proposta é o seguimento e o discipulado de Jesus. Este horizonte jamais poderá ser esquecido, porque é este o centro da Catequese. Tudo o mais é mutável, transferível, adaptável, reciclável...



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ALBERICH, E. Catequese evangelizadora. Manual de Catequética Fundamental. São Paulo: Salesiana, 2004.

BOMBONATTO, Vera I. Discípulos missionários hoje. Catequese, caminho para o discipulado. 3ª Semana Brasileira de Catequese. Itaici, SP: Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética, 2009.

CNBB. Catequese Renovada. Documento 26. São Paulo: Paulinas, 1983.

______. É hora de mudança! Planejamento pastoral dentro do Projeto RNM. São Paulo: Paulinas, 1998.

______. Diretório Nacional de Catequese. Documento 84. São Paulo: Paulinas, 2006.

DIOCESE de Osasco. Metodologia Fé e Vida caminham juntas na comunidade. Cadernos Catequéticos, n. 9. São Paulo: Paulus, 1998.

KESTERING, Juventino. Elementos de metodologia de uma catequese libertadora. Revista de Catequese. n. 82. 1998, p. 47-52.

PAIVA, Vanildo de. Catequese e liturgia, duas faces do mesmo mistério – Reflexões e sugestões para a interação entre Catequese e Liturgia. São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Catequese).

PIMENTA, Ivan Teófilo. Linhas metodológicas de uma catequese libertadora. Revista de Catequese. n. 23. 1983, p. 27-35.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Flamula Laranja


Olho daqui de cima com a flanela na mão, da janela dos andares desse prédio, dos vidros que serão olhados se eu limpei. É a aparência o que importa! Gostam do esmero exterior. Eu limpo a sujeira deles.

Flanela agitada flamejando velozmente na transparência do vidro. O sol bate forte e alaranjante enquanto esfrego para me livrar de toda a sujeira que impede que eu veja além...O que vejo do outro lado? Vejo no meu reflexo o suor pingar-me qual água pura de bica. Água transformada em vinho, fez meu Jesus. Suor e calor transformados em pão para os filhos, faz a doméstica milagrosa.

 Aquele tecido inquieto, com movimentos tão perfeitos, meticulosamente ordenados são uma verdadeira sinfonia tocada à transparência do vidro. Toda limpeza de vidro é uma orquestra. Toda Faxineira é Maestra. E o som do pano esfregado contra a superfície lisa é canto dia e noite Cinderella que não chora, mas esfrega.

Socorre-me de minha mesquinhez e abana-me tua flamula benta, ó Santas Mulheres!