domingo, 5 de janeiro de 2014

A Epifania a partir dos nomes dos Reis Magos

Epifania significa manifestação. É sabido por muitos de nós que não se tem certeza se os misteriosos reis Magos do Evangelho de hoje eram realmente reis e nem mesmo se eram três. O fato é que a tradição conservou inclusive os seus nomes. E é a partir deles e do evento epifânico do Senhor que pretendo desenvolver essa reflexão.

“Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,3)

  1. Luz dos Povos
Um dos reis Magos chama-se Melchior que significa rei da luz. De fato, Melchior e seus companheiros se deram conta de um sinal iluminador, uma estrela. É a partir daí que eles empreitam por uma busca, por um caminho rumo a Algo que eles sabem ser maior que esse sinal luz que os orientam, buscam o Rei da Luz (cf. Mt 2,2).  
A vida de todo aquele que busca Cristo é uma constante peregrinação rumo a Ele. É um movimento, um desejo de sair de si e ir ao encontro de algo Maior, do Cristo. Ele também veio ao nosso encontro. Em sua divindade, Ele quis aproximar-se de nós, sendo um de nós, humano e nascido em nosso meio. Aquele que não caminha ao encontro do Cristo que veio, não caminha sob à luz (cf. Is 60, 3). Fato é que, muitas vezes, sentimos que nossa vida caminha como que envolvida em trevas, sob nuvens escuras (cf. Is 60, 2) que são os problemas, as dificuldades e os sofrimentos que o cotidiano da vida nos traz. Como é difícil caminhar nessa hora! A caminhada da vida fica pesada, parece que estamos sós e que não há luz que nos inspire como continuar... Também os reis Magos em certo momento de sua trajetória rumo a Jesus ficaram sem a luz da estrela que os orientavam.
O melhor a fazer nessas horas de escuridão da vida é levantar-se e acender uma luz! (cf. Is 60, 1), que é a fé daquele que caminha, mesmo quando não parece possível caminhar... Olhar ao redor, para os outros que dividem conosco a mesma caminhada e que buscam a mesma felicidade no encontro com Cristo, pode ser que ajude (cf. Is 60, 4-5), nos trará alegria e força para seguir adiante. Olhar para a própria vida e perceber os momentos “luminosos” em que Deus agiu, as várias ocasiões em que a estrela da sua luz iluminou a nossa vida, nos leva a darmo-nos conta de que, de alguma maneira, a estrela do Deus que nos atrai a si, está lá, brilhando para nos guiar. Os reis Magos ao se darem conta de ver de novo a sua estrela-luz guiadora, encheram-se de Alegria (cf. Mt 2, 9-10). O Cristão também é assim, alegre porque caminha com Deus, rumo ao encontro definitivo com Ele. Nossa vida é uma peregrinação de luzes e sombras, mas que não significa, de modo algum, uma caminhada triste ou vazia de sentido.

“Com justiça ele governe o vosso povo” (Sl 72)

  1. O encontro com Cristo transforma a realidade
Outro dos reis Magos é conhecido como Gaspar. Seu nome significa “aquele que guarda os bens de Deus, tesoureiro”.  Esse significado logo nos faz lembrar que Deus, Criador do mundo, o confiou-o a nós, para guardá-lo e cultivá-lo (cf. Gn 2,15). Com o tempo, o homem organizou-se de tal forma que escolheu dentre eles alguns representantes para proteger e reger de forma justa em vista do bem comum. Porém, sabemos por vasta experiência que nem sempre os governantes assumem esse papel e na verdade, passam a pensar em seus próprios interesses. Herodes, por exemplo, no Evangelho de hoje está mal intencionado quanto o nascimento de um menino que está sendo chamado de rei pelos reis Magos (cf. Mt 2, 2-3). Ele é a figura de um governante que usa o poder a ele confiado não para o bem do povo, mas apenas para mante-se no poder. Ele menti e simula suas verdadeiras intenções aos reis Magos, escondendo o seu verdadeiro interesse por trás do seu desejo de “adorar” Jesus (cf. Mt 2, 8).
Entretanto, os reis Magos, após o encontro com Jesus mudam o seu caminho. O encontro com Jesus sempre gera mudança, nunca é um encontro inerte, apático. O encontro com Cristo definitivamente transforma a vida de quem com Ele se encontra. Os reis Magos não compactuam com o projeto de Herodes, eles percebem que estava na hora de um novo caminho (cf. Mt 2, 12).
Estamos em ano de eleições. O rumo que nosso país vai tomar está em muito sob a nossa responsabilidade um vez que vamos escolher os que irão governar. Em uma época em que os primeiros corruptos foram punidos de forma pública pelo mau uso do poder a eles confiado, urge de nossa parte uma atitude concreta que impeça cada vez mais que a corrupção esteja presente no governo por meio dos seus membros. Uma das maiores manifestações que os brasileiros poderão fazer, será diante da urna, na hora de votar.
Que possamos escolher representantes íntegros, de “ficha limpa”, que transpareçam interesse pelas causas comuns da justiça e da paz, em atenção aos mais pobres e indigentes da nossa sociedade (cf. Sl72).

“Os pagãos são admitidos à mesma herança” (Ef 3,6)

  1. Uma Epifania Ecumênica
O último dos reis Magos, segundo a antiga tradição é chamado de Baltazar que tem o seguinte chocante significado: Rei protegido pelo deus Baal.
 Parece um absurdo que, ao que tudo indica, um dos reis Magos que tenha visitado Jesus tenha um nome que em seu significado alude ao deus pagão Baal. Talvez seja algo no mínimo estranho porque o deus Baal é mencionado em uma série de relatos bíblicos, principalmente no Primeiro Testamento em que seu culto e seguidores são combatidos com frequência (cf. Jz 2, 11-16). O fato é que irremediavelmente a tradição afirma que Baltazar estava lá.
De fato, podemos compreender a sua presença justamente como a abertura ao mundo pagão da Boa Nova que é Jesus Cristo. São Paulo na segunda leitura de hoje nos diz que também os de outras religiões “são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3, 6). Essa forma de pensar nos impele para além da ideia de conversão daqueles que não são católicos, para a compreensão de que há outros caminhos e tradições religiosas, umas mais próximas outras nem tanto da nossa forma de pensar e se relacionar com Deus, mas que todas merecem o nosso respeito. Valorizar o que há de bom e conhecer outras confissões religiosas não significa perder a nossa identidade. Tolerância não é deixar-se levar.
Em um mundo plural, ou seja, formado por pessoas que pensam de forma diferente, há algo que nos une. Resta a nós dar maior importância àquilo que é comum entre nós do que aquilo que nos difere. Ser feliz é algo que todo mundo quer. Esse desejo está dentro do coração de todo ser humano. Perceber que não é possível ser feliz sozinho e que o diferente é justamente aquilo que nos enriquece, já é um grande passo.


Que hoje Maria, Mãe de Deus, nos mostre, como mostrou aos Magos (cf. Mt 2, 11) o seu Filho, Luz que transforma o que ilumina!

domingo, 24 de novembro de 2013

Os Portadores de Cristo


Hoje me encontrei com Cristo, Rei, Senhor em sua Glória, o Poderoso do Universo. Sua presença era nobre e viva. Ele não estava velado, eu via-O claramente. Ele é um só,  mas estava em muitos. Estava sentado, Eternamente sentado, na verdade, como em seu trono glorioso. Tronos ladeados por duas rodas que eram movidas pela necessária ajuda de mãos humanas. Encontrei-O nos portadores, nos portadores de Cristo. Fico imaginando que glória é essa que a gente celebra... só pode ser essa, a Glória de ser com os seus. Hoje alguém sussurrou no ouvidos dos portadores que, mesmo quando não parece que é assim, mesmo quando a família, os amigos e parentes os abandonam, Deus não os abandona, está sempre a visitá-los, está com eles. E sabe por que? Porque eles são os portadores de Cristo!
Uma capela, um portador sentado no seu trono de duas rodas, eu e uma presença divina... ninguém mais. Pergunto como ele está, interrompendo o seu diálogo com o Rei Maior; Ele me responde que está bem; que é evangélico, mas que encontra no Templo Católico forças para mover as rodas que fazem sua cadeira caminhar... não tem problema, eu também sou ecumênico. Mas ele diz que tem um segredo a me contar. Se emociona; não sabe ler, mas viu um filme da vida de Jesus e desde então, sonha com Ele. Me pergunta se é coisa de Deus. Ora, mas é claro que é! Tem coisa mais de Deus do que um portador que sonha com Ele e toca a roda da vida? Então ele me conta mais um segredo. Abre a blusa, saca do bolso da camisa um chaveiro, em formato de chinelo... parece guardá-lo nessa caminhada da vida.. é algo importante. Mas ele me revela um detalhe. Na verdade, não era um detalhe, era o essencial. O chinelo tem uma estampa, uma imagem da Mãe Negra, Nossa Senhora Aparecida. "Dessa eu não abro mão!", me diz. Um Sorriso e dou um beijo devotado em seu chaveiro antes que ele o guarde novamente. Eu saio de Fé renovada.

Hoje, solenidade de Cristo Rei do Universo e conclusão do Annus Fidei, encerrei o meu trabalho pastoral no Hospital Geriátrico e de convalescentes Dom Pedro II - Jaçanã, SP.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A Parábola do pobre Lázaro e o filme Elysium

No filme Elysium o garoto Max e não só ele, mas toda a população que vive no planeta terra olhava para cima, na direção do céu e lá viam Elysium, a morada dos ricos que, diante da degradação do planeta terra, construíram para si uma "fortaleza" na órbita do planeta. Contudo, a maior parte da população que era a que estava na terra, vivia ainda em extrema pobreza. Os ricos estavam para além do céu do planeta, em esplêndido conforto e em uma vida despreocupada... os pobres, com os seus tormentos, viviam na terra, no chão duro da realidade da vida.

Para ler a Sinopse do filme CLIQUE AQUI

Na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas 16, 19-31), os dois vivem de maneiras completamente diferentes. O rico vive esbanjando em festas e roupas finas (cf. Lc 16, 19) e não percebe o pobre que vive a margem do seu luxo (cf. Lc 16, 20). Ambos morrem. O pobre é levado para o céu, onde goza agora de conforto e felicidade (cf. Lc 16, 22.) O rico é enterrado e na região dos mortos passa por grandes tormentos (cf. Lc 16, 23). 
Max, em Elysium, cresce e, como Lázaro da parábola evangélica, vive a margem da sociedade - junto com a maior parte das pessoas - é pobre e vive nessa condição causada por um sistema social, político e econômico marcado por uma profunda desigualdade social em que os que são ricos e privilegiados fazem de tudo para manter-se nessa condição.
Embora as duas narrativas tenham como foco a relação antagônica e conflituoso entre o pobre e o rico e prezem, de alguma maneira, pela crítica social, o movimento "céu- terra" é distintos entre as duas.

1. "Buscai as coisas do alto" (Cl 3,1)

O homem sempre busca viver bem. Max ainda garoto, fascinado pela "morada dos deuses - Elysium" promete a personagem Frey que um dia quer levá-los lá... para as alturas. É um desejo incutido não só em seu coração e no de Frey, todos querem estar lá, querem uma passagem para o lugar que é sinômimo de uma vida de felicidade, para uma vida digna. A ideia do que é Elysium se aproxima muito da ideia "céu" ou paraíso cristã difundida por muitas pessoas no imaginário popular. Porém, ao invés de ser um lugar que acolhe os pobres que outrora sofreram, como Lázaro, é um lugar povoado por poucos ricos, gente poderosa e importante... que grande contradição!
O rico da narrativa do Evangelho foi enterrado, ou seja, permaneceu na terra, terra onde os pobres que não tinham cidadania para morar em Elysium permaneciam pelo resto de suas vidas. Na região dos mortos, ele eleva o seu olhar para o céu, para onde está o pobre Lázaro (cf. Lc 16, 23), certamente quer estar lá em cima. Max também eleva os olhos para o céu, desejando Elysium. O desejo de buscar as coisas do alto é um desejo inato no homem... Como que uma vontade de transcendência. 
Ora, o que pode significar esse desejo de céu, esse elevar o olhar para lá?

2. A prática da justiça

É verdade que Lázaro poderia ser pobre, com uma vida de sofrimentos e ao mesmo tempo ser um homem injusto e infiel a Deus. Nesse caso, como nos atesta a lógica do Evangelho (cf. Mt 25), ele não seria recompensado com o céu. Porém, não foi assim. Embora o texto bíblico não nos fale nada sobre a maneira como Lázaro viveu, ele nos diz que na terra, ele só  recebeu males (cf. Lc 16, 25). Contudo, para o cristianismo, não é possível conceber que estando no céu, Lázaro pudesse ter vivido de outra maneira que não de maneira justa e fiel.
Max, por sua vez, têm desde muito novo um vasto histórico de infrações e crimes cometidos contra o regime vigente. É bom lembrar que os crimes e infrações de Max estão relacionados a roubos e a quebra de normas em relação à sua relação com o estado, ou seja, em geral, não são crimes cometidos contra os outros que vivem na mesma condição que ele, mas, na verdade, revelam o seu descontentamento com o sistema em voga.
Em princípio, Max não se distancia muito da figura do rico do Evangelho que não enxergava o pobre marginalizado à sua volta (cf. Lc 16, 20), ou melhor, enxergava mas agia com indiferença. Ora, embora Max também fosse pobre, sua condição existencial, por si só, não justificava uma atitude apática e indiferente diante do sofrimento alheio. Nesse sentido, quando ele resolve fazer algo de concreto para mudar o sistema causador da desigualdade social, não faz isso se não para salvar a sua própria vida. No fundo, trata-se ainda, como no caso do rico da Bíblia, de uma atitude egoísta, de quem só pensa em si mesmo.
Será somente no decorrer da narrativa cinematográfica que Max se mostrará mais altruísta e acabará, por fim, com um gesto redentor que poderá mudar o rumo da história humana. O rico que desprezou Lázaro na terra, depois de receber a sua recompensar por não praticar a justiça, fomentando a desigualdade social, só na região dos mortos dar-se-á conta do que fez e, então, pedirá  pelo outros, seus irmãos, só assim, deixará de pensar em si mesmo (cf. Lc 16, 27). Mas para ele já é tarde, para Max ainda estava em tempo, mas para esse rico, o tempo já tinha se esgotado...
De fato, o tempo corre, a desigualdade aumenta e seja para quem for, essa realidade impõe-se de tal maneira que é impossível ficar indiferente a ela. Uma atitude é esperada. Resta saber como é que re-AGIR-emos diante da nossa realidade. Afinal, todos queremos um céu na terra!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Número 29 da Lumen Fidei e a Iniciação à Vida Cristã

"A fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende em um percurso de seguimento." Lumen Fidei, 29.
Esse trecho da carta apostólica nos lembra justamente o itinerário de Iniciação à Vida Cristã que precisa acontecer, a exemplo da pedagogia divina, progressivamente, respeitando as realidades e as condições do "terreno" para a acolhida da semente da Palavra de Deus. 
Nesse parágrafo o papa nos diz que a fé é um conhecimento e que este está ligado ao transcorrer do tempo. Com isso, o papa quer ao mesmo tempo afirmar que a transmissão, adesão e o aprofundamento da fé ocorrem na realidade concreta do cotidiano da vida, ou seja, no tempo. De fato, não trata-se de qualquer tempo, falamos do tempo presente em que a Palavra é ouvida, explicitada e, portanto, configurada ao ouvinte crente. Poderíamos dizer que trata-se do tempo necessário para que a semente da Palavra de Deus crie raízes e possa brotar. Essa fé vivida e aprofundada é um sinal dos frutos dessa fé que, uma vez fincada no "terreno" fértil do coração do homem, é capaz de transbordar-se aos demais, oferecendo seus frutos que levam consigo novas sementes e propagam um verdadeiro campo da fé.
Além disso, o texto nos diz que essa fé torna-se real e conhecimento para o crente, na medida em que é aprendida em um percurso de seguimento. Novamente, lembramos de um caminho a ser percorrido, um itinerário de discipulado e seguimento.
Hoje, a Igreja no Brasil quer que "re-proponhamos" o caminho ordinário de iniciação à Vida Cristã, permitindo que outros caminhos sejam também levados em conta. É sabido por todos nós que as estruturas atuais da maior parte das paróquias não atende de modo adequado o objetivo de fazer discípulo missionários de Jesus Cristo, torná-los cristãos e que temos uma dificuldade maior ainda em atingir àqueles que são indiferentes ou hostis a Igreja.
Olhando para sua tradição milenar, a Igreja vê na história, em uma época de missão, num mundo de cultura pagã e de poucos cristãos - os primeiros séculos do cristianismo  - um tesouro a ser resgatado que, adaptado as condições atuais, ajuda a responder de forma eficaz ao desafio da Nova Evangelização. Esse tesouro chama-se catecumenato.
Nessa perspectiva, a Igreja nos convida a adotar o itinerário da Iniciação à Vida Cristã de uma catequese com estilo catecumenal. Essa nova maneira de fazer catequese exige um novo modelo de comunidade paroquial que só aos poucos e com muito esforço conseguiremos mudar.
O estudo 97 da CNBB (Iniciação à Vida Cristã) e o RICA (RItual da Iniciação Cristã de Adultos) contém as orientações necessárias para começar a implantação da iniciação cristã de inspiração catecumenal nas paróquias. As últimas diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil da CNBB já indicam esse caminho.
A Iniciação à Vida Cristã propõe uma ação evangelizadora dividida em 4 tempos. No primeiro tempo (chamado de pré-evangelização), ocorre o primeiro anúncio ou anúncio querigmático da pessoa de Jesus Cristo, sua paixão, morte e ressurreição, ou seja, o ponto essencial e primordial da fé. Esse anúncio ocorre de forma pessoal, por introdutores que procuram em um clima de amizade e acolhida do iniciando, anunciar-lhes a vida de Jesus, sobretudo por meio de seus Evangelhos. Num segundo momento, em um tempo maior que o primeiro, ocorre o tempo de catequese propriamente dito, tempo em que de forma sistemática, a fé é aprofundada e vivida pelos iniciandos. Feito isso, segue-se o tempo da iluminação em que os iniciandos vivem um período de preparação mais intensa para a celebração dos sacramentos por meio de uma experiência de espiritualidade e oração fortes. Celebrados os sacramentos, segue-se o tempo da mistagogia, em que o significado da celebração dos sacramentos é aprofundada. Nesse último tempo, há um acentuado caráter missionário.
Esse processo é maior que a catequese em si e envolve toda a comunidade. Trata-se de um caminho de adesão à fé e que hoje, mais do que nunca, precisa ser por nós abraçado.

domingo, 25 de agosto de 2013

Crônica de um Congresso de catequistas no Rio Grande do Sul

1. Sobre a viagem
Frio e muita chuva. Contam-me que faz dias que chove sem parar e que muitos lugares em diversas cidades estão inundados. No táxi, já na rodovia, vejo regiões inteiras alagadas que lembram uma represa, mas o motorista me diz que na verdade são de ruas e vias de acesso e que o evento se repete todo ano.
De Porto Alegre fui para a pequena e bela Bom Princípio. O meu aplicativo de mapas da Google não contém o mapeamento das ruas da cidade, é a primeira vez que isso acontece. A maior parte da população local fala alemão fluentemente, o padre que me conta isso, tem em seu cachecol as cores da bandeira alemã.
Antes de ir para o seminário menor onde iria ser hospedado, fui a um colégio marista que fica ao lado do seminário. Lá, fui acolhido calorosamente por um grupo de jovens e adultos que trabalhavam em mais uma edição do seu tradicional CLJ (Curso de Liderança Católica). Seus correspondentes em São Paulo são o FSJC  e o TLC, dentre outros.  No evento estava acontecendo uma "Missa catequética", onde o padre explica parte por parte da missa antes que cada parte do rito aconteça. Uma das organizadoras explicou como ocorre esse encontro de jovens, no seu relato ela disse que naquele dia, mais cedo,  os jovens  escreveram uma carta para seus pais ou responsáveis depois de participarem de uma palestra sobre família e que nesta, eles deveriam escrever tudo o que sempre desejaram dizer a eles. Tais cartas tinha ido para a rodoviária e chegando ao seu destino, os pais, já avisados, deviam ir a rodoviária mais perto de suas casas e buscar a carta de seus filhos. No encerramento eles participariam de uma missa com eles. Naquele dia, o cardápio do jantar incluía churrasco.
Mais tarde, por volta das 21:20, fui "encontrado" pelos seminaristas do propedêutico da diocese de Montenegro. Uma vez no seminário, eu, eles e seus reitores jantamos - pizza. Tivemos uma conversa muito proveitosa, trocando experiências e partilhando as realidades da Arquidiocese de São Paulo e da Diocese de Montenegro. Os reitores se mostraram despojados e muito próximos de seus formandos. Um dos seminaristas revela que o bispo também é assim.
2. Sobre o congresso
No dia seguinte começou o Congresso Catequético Vocacional. O encontro que reuniu catequistas de toda a diocese levava esse nome porque nele seria inaugurado o Ano Vocacional diocesano. No café da manhã - comi cuca pela primeira vez - procurei conversar com o maior número de catequistas possível. A maior parte, como em São Paulo e no Brasil todo, é mulher, mas mesmo assim, achei muito expressivo o número de catequistas homens. A faixa etária também era muito diversa, embora os adultos fossem predominantes. Ouvi relatos de pessoas que são catequistas a mais de 15 anos bem como de outros que começaram a pouco tempo.   
É facilmente notável que a diocese está passando por uma fase de reestruturação da catequese e que esta está agradando a catequistas e catequizandos. A diocese caminha rumo a uma catequese de inspiração catecumenal.
Para a catequese de 1ª Eucaristia, como eles preferem chamar, era usado, pelo menos na fala de alguns, o próprio Catecismo da Igreja Católica. Ficava a encargo do próprio catequista adaptar o conteúdo e a linguagem para a realidade do catequizando. Essa catequese já tinha e vai continuar a ter duração de 2  anos. Já a catequese de Crisma que tinha duração de 1 ano, passará a 2. Não havia um material específico. Na catequese de adultos, os catequistas muitas vezes são os padres, seminaristas do seminário maior ou outros leigos com formação teológica. A celebração dos sacramentos com os adultos normalmente ocorre junto com as crianças e jovens e não necessariamente no tempo Pascal.
Em geral, as turmas são formadas por poucos catequizandos. 4, 6, há lugares em que só é permitido ter turmas de até 12 catequizandos. Se houver mais, então outro catequista assume o restante. Parece que a maior parte deles atua sozinho e que os poucos que atuam em duplas, têm turmas um pouco maiores.
A diocese está adotando o material do padre Leomar Brustolin, palestrante do congresso, que propõe uma catequese de estilo catecumenal a partir da leitura orante da Bíblia. O 1° plano de pastoral da diocese será sobre a Iniciação Cristã, tema do nosso congresso.
3. Sobre a fala do Padre Leomar
Padre Leomar iniciou sua fala enfaticamente dizendo que, de fato, pretendemos implantar o processo de Iniciação à Vida Cristã, mas que, uma vez que ninguém dá o que não tem, é preciso primeiro viver e falar da própria experiência de iniciação à vida cristã para depois poder passar a tratar da iniciação das crianças, jovens e adultos. Em outras palavras, precisamos primeiro ser iniciados  - nós, catequistas - para depois iniciarmos aos outros.
Nesse sentido, é preciso primeiro identificar a situação atual o "onde estamos" e depois, propor o "onde queremos estar" da iniciação cristã. Constata-se que ao mesmo tempo em que é "difícil" evangelizar, em razão dos desafios pastorais e da cultura vigente, que nunca tornou-se também tão fácil evangelizar devido a "sede", a falta de sentido em que as pessoas estão imersas.
Outro aspecto por ele levantado é justamente uma crescente maneira de lidar com a fé na esfera do individualismo, criando uma espécie de fé privatizada. Insiste que a fé na catequese tem que ser vivida de forma comunitária. Aconselha, inclusive, que nos encontros de catequese, a forma de rezar seja comunitária também, ou seja, não rezar por individualidades do tipo "minha família", "meu problema", etc, antes rezar por "nossas famílias" e " nossos problemas". Não é cristão rezar apenas pelas próprias necessidades. A preocupação maior do cristão é sempre com o outro.
Ovacionado, pe. Leomar afirmou que  o novo modelo de catequese vai mudar o estilo de ser da paróquia. Uma catequese nova exige uma comunidade nova (Cf. Mt 9,17).
É preciso criar "Comunidades catecumenais" - termo que não conhecia - que são comunidades onde a catequese fortalece todas as lideranças da comunidade. A catequese torna-se a "menina dos olhos" da comunidade, mantendo uma constante relação com as outras pastorais, de modo a oferecer "serviços catecumenais" - outra expressão nova.
Uma metáfora: Nossos batizados, ou que receberam outros sacramentos, mas não foram evangelizados são como que se possuíssem uma poção de sementes que nunca irão plantar.
Agora faz 30°C em São Paulo e estou feliz por saber que vou ver o Sol brilhar. Trago comigo a esperança luminosa de uma catequese cada vez mais iniciática...
Mãos a obra!
25 de Agosto, dia do Catequista.
Em algum lugar, depois de deixar Porto Alegre, RS.