terça-feira, 30 de janeiro de 2018

12 verdades sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem que todo consagrado precisa saber



Texto de 
Menkell Rodrigues
João Melo 

  • 1      A Bíblia é imensamente mais importante do que o Tratado

A Bíblia é Palavra de Deus! E o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem está fundamentado e repleto de citações e referencias bíblicas. Não é possível se aprofundar no conhecimento do Tratado sem antes conhecer bem a Bíblia Sagrada. E mais, São Jerônimo afirma que “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.
Com efeito, até Bento XVI lamentou na sua catequese sobre a leitura da Bíblia do dia 3 de agosto de 2011 que, “na realidade, muitos cristãos nunca leram a Bíblia e tem um conhecimento muito limitado e superficial. [...] Alguns desses livrinhos [que compõem a Bíblia] permanecem quase que desconhecidos para a maior parte das pessoas, também para bons cristãos”.
E também o Papa Francisco no Angelus do dia 5 de março de 2017 ensinou que “é preciso conhecer bem, ler, meditar e assimilar a Bíblia, pois a Palavra de Deus é sempre ‘atual e eficaz’. [...] O que aconteceria se usássemos a Bíblia como usamos o nosso celular? Se a levássemos sempre conosco (ou pelo menos um Evangelho de bolso), o que aconteceria? Se voltássemos quando a esquecemos, se a abríssemos várias vezes por dia; se lêssemos as mensagens de Deus contidas na Bíblia como lemos as mensagens em nosso celular, o que aconteceria? É uma comparação paradoxal, mas faz pensar... [...] Com efeito, se tivéssemos a Palavra de Deus sempre no coração, nenhuma tentação poderia nos afastar de Deus e nenhum obstáculo poderia nos desviar no caminho do bem; saberíamos vencer as propostas do Mal que está dentro e fora de nós; e seríamos mais capazes de viver uma vida ressuscitada segundo o Espírito, acolhendo e amando nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e carentes, inclusive nossos inimigos”.
O próprio São Luís Maria Grignion de Montfort afirma que a Bíblia é fonte primeira da fé, quando diz que por ela poderia provar a devoção que propõe. Ele reconhece a superioridade e autoridade da Bíblia: “Se eu me dirigisse aos espíritos fortes desta época, tudo isso, que digo simplesmente, poderia prová-lo pela Sagrada Escritura, pelos Santos Padres, citando longas passagens em latim e aduzindo os mais fortes argumentos [...]” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 26).
Dito de outra maneira: Antes de ler o Tratado, leia a Bíblia!

  • 2       A consagração é a Jesus Cristo por meio de Maria

Se enganam aqueles que acham que São Luís Maria Grignion de Montfort prega uma consagração feita à Nossa Senhora. Na verdade, a consagração é feita unicamente a Jesus Cristo - por meio de Maria. O santo autor do Tratado, ao começar sua obra, frisa de modo direto e explicito o sentido último do método de consagração que ele nos propõe: “Deus Espírito Santo consentiu que os apóstolos e evangelistas a ela [Virgem Maria] mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo” (Tratado, n. 4). Como podemos ver, um horizonte nobre e sutil de devoção à Nossa Senhora é o que galga São Luis Maria Grignion de Montfort, mantendo-se fiel à pedagogia adotado pelo próprio Deus de conferir à Maria um papel importante e especial no plano da Salvação, dispondo dela tanto quanto ela possa colaborar para que fixemos os olhos no Seu Divino Filho, Jesus Cristo. Uma consagração ideal deve, portanto, nos ajudar a explicitar sempre mais um ato de união a Jesus Cristo, de modo que a nossa vida esteja conformada a vida d’Ele.
Quando falamos em ato de consagração, estamos nos referindo a pessoas que se deixam mover pelo Espírito Santo a fazer de algum modo presente a forma de vida que Ele, Jesus, elegeu. Aqui se trata de rever, constantemente, a tônica, o acento dado, devida e fielmente ao ato de consagração: ter por nossa maior motivação e atração a Pessoa de Jesus Cristo, seu Evangelho e o Reino por Ele anunciado. Que você consagrado, possa dizer, de modo claro e convidativo que és consagrado a Jesus Cristo, porque a vida d’Ele enche de um sentido novo e pleno a sua, “que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 266).
Maria, no seu venerado lugar de sutileza, pede-nos, calorosamente, que seja o seu Filho Jesus a pérola preciosa de toda consagração. É ele a nossa motivação. E Maria é a mãe que ajuda nesse caminho. O Papa Bento XVI, na oração do Ângelus, proferida em 25 de março de 2012, recorda toda Igreja: “Amados irmãos, não esqueçais que a verdadeira devoção à Virgem Maria aproxima-nos sempre de Jesus, e ‘não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa Mãe e a imitar as suas virtudes’ (Lumen Gentium, n. 67). Amá-La é comprometer-se a escutar o seu Filho; é viver segundo as palavras do fruto bendito do seu ventre”.
Sempre buscamos conhecer melhor o Cristo, para melhor amar a Mãe
A parte inicial do texto, continua a aprofundar a centralidade do método: “Se quiserdes compreender a Mãe – diz um santo – compreendei o Filho” (Tratado, n. 12). Aqui se evidencia a relação afetiva, tão cara a todo consagrado/a, com Maria Santíssima, e qual o propósito e o fruto dessa relação com a Mãe: o conhecimento interno do Filho. Pode ocorrer de alguns consagrados caírem no reducionismo de pensar que o seu ato de consagração, pelo método de São Luís, se expresse exclusivamente por práticas de devoção mariana. Se assim o for, compreenderam erroneamente o destino prático da consagração feita a Jesus. Há de se dizer sem rodeios, e para o entendimento salutar do método: o objetivo da consagração é a melhor imitação do modo de proceder de Jesus Cristo, dando testemunho da Boa Nova por Ele anunciada, confiando no auxilio materno de intercessão de Maria. Contudo, isso não implica fazer da vida um apostolado de divulgação sobre Maria e práticas de piedade popular.
O santo autor, no número 13 do Tratado, assim se expressa: “meu coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial alegria, para demonstrar que Maria Santíssima tem sido, até aqui, desconhecida, e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser”. São Luís diz que é algo do coração dele, isto é, enraizado na sua experiência pessoal de oração, daí que não se pode tomar essa afirmação como sinônimo da autoridade eclesial. Atrelar como obrigatório o laço afetivo com a Virgem Maria para que Jesus seja conhecido é um modo maximalista de compreender a colaboração que Nossa Senhora opera no plano da Salvação. Ela, na sua pessoa e como dom disposto pelo próprio Deus, é um meio de se aproximar do Messias, mas não se constitui como caminho único, embora no final da caminhada, inevitavelmente, poderemos contemplar a comunhão entre o Filho e a Mãe. O magistério da Igreja sempre reconheceu isso de maneira equilibrada e convicta, cujo posicionamento oficial, em suma, sempre afirmou que a propagação de toda e qualquer devoção está sempre associada a finalidade de tornar Jesus Cristo conhecido, porque no fim é Ele somente o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).
Todo consagrado, ao ler a obra de São Luís, certamente sabe da consciência que o santo tem do lugar e papel da Virgem Maria em relação ao seu Filho e, portanto a Deus e a graça operante na vida humana e do mundo. Citamos alguns exemplos:
“Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Majestade infinita ela é menos que um átomo, é, antes, um nada, pois que só ele é ‘Aquele que é’ (Ex 3, 14) e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre independente e bastando-se a si mesmo, não tem nem teve jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe querer para tudo fazer” (Tratado, n. 14).
“Cuidemos, porém, de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou imperfeição em Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, e, portanto, não lhe dá ordens, como uma mãe terrestre as dá a seu filho. Maria, porque está toda transformada em Deus pela graça e pela glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede, não quer, não faz a menor coisa contrário à eterna e imutável vontade de Deus” (Tratado, n. 27).
  • 3    Você provavelmente vai precisar de ajuda para entender o texto do Tratado que tem linguagem medieval

O texto original está em francês medieval: “Traité de la Vraie Dévotion a la Sainte Vierge”. Nele abundam as citações latinas, e também imagens e ideias próprias do tempo em que foi escrito. Um exemplo simples, para começar: São Luís diz que “Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra [da Virgem Maria]” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 9). Ele diz isso porque na sua época as igrejas tinham vários altares nas laterais, cada um dedicado a um santo diferente, onde eram celebradas missas, as vezes ao mesmo tempo.
Outro exemplo, e bem mais complicado é a questão da PREDESTINAÇÃO que perpassa vários parágrafos do Tratado (n. 30, 31, 32, 40 etc). Nessas partes, o Tratado têm uma linguagem ultrapassada para os dias de hoje. O termo “predestinados” pode causar grande confusão porque pode-se compreender que alguns de nós já nascemos “pré destinados” à salvação, enquanto outros “pré destinados” à condenação; E isso não é verdade. Todo ser humano foi criado na liberdade para escolher abraçar o amor de Deus ou fechar-se a ele. Daí que não existem predestinados. A Virgem Maria é Mãe da Misericórdia e ela está em conformidade com a vontade do Pai que é salvar a todos: “Deus nosso Salvador deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2,3-4). Deus não criou alguém para a condenação.
É importante lembrar que o texto traduz a mentalidade de um outro tempo. O Tratado também apresenta outros problemas mais graves para os leitores de hoje que estão em plena comunhão com a Igreja e seu Magistério. O número 30, por exemplo, afirma que “os réprobos, os hereges, os cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disto se gloriem, pois não têm Maria por mãe”. E acrescenta “O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo ostentam desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem e buscam por suas palavras e exemplos, abertamente e às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e amesquinhar o culto e o amor a Maria”.
Ora, faz tempo que a Igreja abandonou oficialmente o uso de expressões como “réprobos, hereges, cismáticos, etc”. Nenhum texto do magistério se utiliza mais dessa linguagem considerada retrógada e agressiva. O motivo é simples: Ao invés de condenar ou anatematizar, a Mãe Igreja sabiamente prefere persuadir à retidão da fé católica pelo anúncio, testemunho e pelo diálogo respeitoso.
Além disso, hoje, já não é possível afirmar que aqueles que não cultivam particular devoção à Virgem Santíssima porque pertencem a religiões cristãs que não cultuam Maria, não tenham Deus por Pai ou estejam privados da salvação em Cristo. Isso é falso! São João Paulo II, devotíssimo à Virgem Maria, e conhecido apreciador do Tratado, ensina o contrário: “as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica” (Carta Encíclica Ut Unum Sint, n. 10). E acrescenta que há “elementos de santificação e de verdade que, de modo distinto, se encontram e atuam para além das fronteiras visíveis da Igreja Católica: Muitos há, com efeito, que têm e prezam a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, manifestam sincero zelo religioso, crêem de coração em Deus Pai onipotente e em Cristo, Filho de Deus Salvador, são marcados pelo Batismo que os une a Cristo e reconhecem e recebem mesmo outros sacramentos nas suas próprias igrejas ou comunidades eclesiásticas” (Carta Encíclica Ut Unum Sint, n. 12). Como poderiam eles crer no Pai onipotente e misericordioso e não terem Deus verdadeiramente por Pai?


  • 4     Os termos “servo (a)” ou “consagrado (a)” de Jesus Cristo por Maria são mais adequados do que “escravo (a)”

O método de consagração proposto por São Luís Maria Grignion de Montfort é realizado no seio da Igreja e, portanto, deve estar atento ao que ela nos orienta no tempo presente, levando em conta a sua atualização pastoral e o discernimento feito por ela para corresponder à vontade de Deus segundo os sinais dos tempos. Ao abordar esse assunto, não trilharemos os meandros das subjetividades, ou seja, de propor uma retórica pautada em opiniões diversas que visam apenas levar os consagrados numa guerra de seus gostos e desgostos. É preciso que todo consagrado tenha claro e leve a sério aquilo que a Mãe Igreja nos orienta na praxe da vida espiritual, não ficando refém de seus achismos, por mais belos e heroicos que lhes pareçam.
Hoje, a Igreja Católica vive no mundo inteiro um novo apelo de anúncio chamado “Nova Evangelização”. Essa discussão é tão importante e de extrema pertinência à vida dos fiéis que foi tema da XIII Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos no ano de 2012, convocada, na época, por Bento XVI. Desta Assembleia Sinodal com os Bispos do mundo inteiro, surgiu a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, promulgado pelo Santo Padre o papa Francisco, e fala sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. É nela, portanto, que está contida a nova chave de leitura para exercer todo e qualquer modo de evangelização no mundo de hoje.
Ao se falar da Nova Evangelização, um dos critérios de grandíssima relevância é a linguagem utilizada na comunicação dos bens espirituais às pessoas do nosso tempo. Assim, diz-nos o Santo Padre neste documento supracitado:
“Ao mesmo tempo, as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade; é que, no depósito da doutrina cristã, «uma coisa é a substância (...) e outra é a formulação que a reveste». Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave. Lembremo-nos de que «a expressão da verdade pode ser multiforme. E a renovação das formas de expressão torna-se necessária para transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável»” (Evangelii Gaudium, n. 41).
Aqui o Santo Padre, em comunhão com os Bispos do mundo inteiro – expressando assim o pedido da Igreja universal – apresenta o apelo de rever as linguagens e expressões que usamos para transmitir as verdades e práticas da fé e incluída nessa revisão se encontra também o Tratado e a sua contingencia temporal – como já visto anteriormente, o Tratado carrega consigo uma lógica de cultura medieval e sua atualização é imprescindível. Ele não é uma obra isolada em si mesma e os consagrados hoje precisam pensar na sua aplicação de forma dialógica com a cultura e o modo de sentir dos seus contemporâneos.
Muitas pessoas, comunidades e instituições questionam – com pertinência – o uso do termo “escravo” como título adotado pelos consagrados ao referissem a si mesmos, por conta do imediato teor negativo que essa palavra carrega. Essa interpelação deve ser assumida e respondida em fidelidade ao que a Santa Mãe Igreja nos ensina a respeito da sensibilidade com o povo de Deus. Quanto a isso, tomemos três considerações sobre o uso deste adjetivo:
Primeira consideração: a conotação histórica
Tomemos como exemplo a oração que foi tema jubilar do Ano Mariano, pelos 300 anos de achado da imagem da Mãe Aparecida, num dos seus trechos assim reza: “Como sinal vindo do céu, em vossa cor, vós nos dizei para o Pai não existem escravos, apenas filhos muito amados. Diante de vós, embaixadora de Deus, rompem-se as correntes da escravidão!”. Aqui se revela, pela inspiração do Espírito Santo, a sensibilidade que se tem pela realidade histórica de nosso país, que sofreu por séculos o drama vergonhoso da escravidão da população negra. Isso não é um detalhe a ser ignorado ou relativizado. Veja, consagrado, o termo “escravo” tem um significado novo e ignóbil, determinante em como as pessoas fazem a sua experiência de Deus. Não cabe mais propor ao povo de Deus que eles se sintam tratados por Deus como escravos seus (cf. Jo 15,15).
Segunda consideração: a conotação afetiva
Se por um lado temos a conotação histórica apontando-nos a necessidade de abandonar o uso do termo “escravo”, por outro corrobora o abandono deste título a oportunidade de crescer na afeição por Deus e Nossa Senhora com o uso de uma linguagem mais bela e dotada de ternura e amorosidade, valendo-se de outros termos, que vão mais ao centro do Evangelho. Trata-se de pôr em evidência, com sentimentos salutares e inspiradores, a relação que o Criador procura estabelecer com as suas criaturas. Disto, toma nota o papa Francisco, ao declarar que “a identidade cristã, que é aquele abraço batismal que o Pai nos deu em pequeninos, faz-nos anelar, como filhos pródigos – e prediletos em Maria –, pelo outro abraço, o do Pai misericordioso que nos espera na glória. Fazer com que o nosso povo se sinta, de certo modo, no meio destes dois abraços é a tarefa difícil, mas bela, de quem prega o Evangelho” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 144). É tarefa de todo o católico, sobretudo os consagrados, prestarem atenção em como proporcionarão ao povo de Deus essa experiência de docilidade e carinho para qual o Senhor nos convida. Logo, expressa muito mais fielmente toda a amabilidade de Deus o adjetivo de “consagrado” (por toda a riqueza evangélica que esse ato possui, como já exposto aqui) ou mesmo, simples e carinhosamente, de “servos” ou “filhos”.

São Luís, num determinado trecho do Tratado, faz notar como o emprego das palavras fazem diferença na hora de determinar a nossa relação com a realidade espiritual: “Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio” (Tratado, n. 54). Na bondade de Deus e na candura da Mãe Maria, cabe melhor utilizarmos palavras como “filhos”, “servos” e “consagrados”. A escravidão e toda a sua opressão melhor dizem respeito ao dialeto do demônio.

Terceira consideração: a conotação espiritual

Há quem possa aludir às palavras do santo quando assim o diz: “A diferença entre um servo e um escravo é total: 1º Um servo não dá a seu patrão tudo o que é, tudo o que possui ou pode adquirir por outrem ou por si mesmo; mas um escravo se dá integralmente a seu senhor, com tudo o que possui ou possa adquirir, sem nenhuma exceção; 2º O servo exige salário pelos serviços que presta a seu patrão; o escravo, porém, nada pode exigir, seja qual for a assiduidade, a habilidade, a força que empregue no trabalho; 3º O servo pode deixar o patrão quando quiser, ou ao menos quando expirar o tempo de serviço, mas o escravo não tem esse direito; 4º O patrão não tem sobre o servo direito algum de vida e de morte, de modo que, se o matasse como mata um se seus animais de carga, cometeria um homicídio; mas, pelas leis, o senhor tem sobre o escravo o poder de vida e morte; de modo que pode vendê-lo a quem o quiser ou matá-lo, como, sem comparação, o faria a seu cavalo” (Tratado, n. 71). Quanto a isso, como já discutimos anteriormente, São Luis Maria Grignion de Montfort expressa a sua experiência pessoal a partir de seu contexto cultural, muito próprio da Idade Média, cuja linguagem e concepção religiosa avançaram e foram superadas, à medida que a Igreja, guiada sempre pelo Espírito Santo, discerniu o seu modo de ditar as verdades de sempre. A nossa submissão à vontade do Senhor não necessita desses extremos para ser reconhecida como autêntica e frutífera.

  • 5       Existem várias formas de consagração devocional a Maria

Popularizou-se chamar o método indicado no Tratado de “Consagração total à Nossa Senhora”. Essa afirmação, além de equivocada, carrega consigo certa presunção ou – ainda que não intencionalmente – parece ignorar a igual validade e preciosidade de outras formas de entrega e devoção à Nossa Senhora. É indubitável afirmar que o método de Consagração pelo método do Tratado NÃO É A ÚNICA OU MELHOR MANEIRA DE EXPRESSAR AMOR A JESUS CRISTO E À NOSSA SENHORA, é mais um entre muitos outros modos dispostos na Igreja para viver essa prática.
São Francisco de Sales, Bispo, no século XVII, já nos ajudava a desenvolver bem essa consciência, ao refletir:
“Na criação, Deus Criador mandou às plantas que cada uma produzisse fruto conforme sua espécie. Do mesmo modo, ele ordenou aos cristãos, plantas vivas de sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada qual de acordo com sua categoria, estado e vocação. A devoção pode e deve ser praticada de modos diferentes pelo nobre e pelo operário, pelo servo e pelo príncipe, pela viúva, pela solteira ou pela casada. E isto ainda não basta. A prática da devoção deve adaptar-se às forças, aos trabalhos e aos deveres particulares de cada um [...] A devoção quando é verdadeira não prejudica a ninguém; pelo contrário, tudo aperfeiçoa e consuma” (Da Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, bispo. Pars 1, cap. 3 - Séc.XVII).
Toda forma de consagração ou devoção, quando vivida de modo sincero e na profundidade da fé tem seu valor reconhecido e não segue uma mensuração possível de ser determinada, logo não podemos afirmar que existem consagrações totais ou parciais, ou devoções maiores ou menores, essa terminologia é errada e deve ser abandonada. O próprio Santo Padre, reconhece o tesouro espiritual e mesmo teológico presente nas mais diversas e simples expressões devocionais, quando assim relata “penso na fé firme das mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado” (Francisco, Evangelii Gaudium, n. 125).

  • 6     São Montfort não fala nada sobre usar véus, saias, ou outros roupas específicas

De modo alarmante, notamos entre os consagrados que seguem as orientações do Tratado uma atenção radicalizada dada a sinais exteriores e muitos deles acabam assumindo para si o uso quase obrigatório de determinadas vestimentas, como se estas fossem previstas e ditadas para a vivência da consagração. São Luís Maria Grignion de Montfort de modo algum faz tamanha especificação. Isto são invenções que surgiram depois e que, inclusive, sofrem críticas severas do próprio autor, tendo ele se referido a eles como “devotos exteriores”. No número 96 da sua obra, ele então apregoa: “devotos exteriores são as pessoas que fazem consistir toda a devoção à Santíssima Virgem em práticas exteriores; que só tomam interesse pela exterioridade da devoção à Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; que recitarão às pressas uma enfiada de terços, ouvirão, sem atenção, uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar de vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção, sem interesse pela parte sólida. Se suas práticas não lhes afetam a sensibilidade, acham que não há nada mais a fazer, ficam desorientados, ou fazem tudo desordenadamente. O mundo está cheio dessa espécie de devotos exteriores e não há gente que mais critique as pessoas de oração que se dedicam à devoção interior sem desprezar o exterior de modéstia, que acompanha sempre a verdadeira devoção”. A verdadeira devoção à Virgem Maria é, portanto, assumida dentro do nosso mundo interior e tamanha acuidade por uma aparência devotada através de sinais como véus, saias ou quaisquer outras peças e/ou acessórios revela bem mais uma obsessão por reconhecimento exterior do que uma devoção honesta. Por via das dúvidas, evite tamanha tentação, prefira a interioridade.

  • 7     O Tratado sugere outros símbolos de consagração diferentes da “correntinha”

Correntes enormes e chamativas são contrárias à orientação de São Luís Maria Grignion de Montfort. No número 116 do Tratado, ele sugere como prática exterior - portanto não trata-se da parte mais importante da consagração -  o uso de um sinal exterior (insígnia) que pode ser o santo rosário ou o terço, o escapulário ou uma “Chaînette”, isto é, uma “cadeiazinha”... assim mesmo, no diminutivo. Entenda-se aqui uma pulseira de corrente de metal PEQUENA cujo uso ele vai justificar no número 238.  Veja que ele sugere em primeiro lugar o uso do terço, depois do escapulário e só por último sugere o uso de uma “correntinha”. Isso é bem diferente desses correntões que tornam-se ostentações para ganhar atenção e status religioso. São Luís Maria Grignion de Montfort ensina que “toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe escondida e secreta. Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus” (Tratado, n. 2). Por que, então, o consagrado deve “aparecer” tanto com o uso de uma corrente ostentativa?

  • 8     Todo católico deve seguir o que o Magistério da Igreja ensina sobre Aparições e Revelações particulares de Maria, inclusive as citadas no Tratado

Nenhum católico é obrigado a crer em aparições e revelações particulares de Nossa Senhora ou dos santos porque elas não revelam conteúdos da fé católica. Aparições como a ocorrida em Fátima servem apenas para relembrar algum aspecto da Revelação dada e concluída em sua plenitude em Jesus Cristo – chamada também de revelação pública. Quem nos explica isso é o papa emérito Bento XVI, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, quando fala do conceito de “revelação privada ou particular”, que se aplica a todas as visões e revelações verificadas depois da conclusão do Novo Testamento.
Ele diz que “a autoridade das revelações privadas é essencialmente diversa da única revelação pública: esta exige a nossa fé”. E acrescenta: “A revelação privada é um auxílio para esta fé, e manifesta-se credível precisamente porque faz apelo à única revelação pública. [...] A tais revelações [privadas e] aprovadas NÃO é devida uma adesão de fé católica; nem isso é possível. Estas revelações requerem, antes, uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência, que no-las apresentam como prováveis e religiosamente credíveis ». [...]Tal mensagem [da revelação privada] pode ser um válido auxílio para compreender e viver melhor o Evangelho na hora atual; por isso, não se deve transcurar. É uma ajuda que é oferecida, MAS NÃO É OBRIGATÓRIO FAZER USO DELA. Assim, o critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando se afasta d'Ele, quando se torna autônoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, melhor e mais importante que o Evangelho, então ela certamente não provém do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele” (Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima). Daí que devemos estar atentos se certas revelações particulares/privadas de Nossa Senhora estão verdadeiramente nos orientando para o centro da vida cristã: Jesus Cristo.
Dito de maneira simples: Todo consagrado precisa saber que a única e necessária Revelação se deu na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

  • 9     A expressão “Reino de Maria” só pode ser admitida no espírito do Tratado, isto é, se entendermos que esse Reino não é outro que não o Reino de Deus

Não existem dois reinos, um de Maria e outro de seu Filho. Há um único reino, o reino de Deus. Com efeito, “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). O Reino de Deus, o reino de Cristo se torna realidade na medida em que vivemos a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo. Nós participamos e construímos o Reino cada vez que praticamos e lutamos para que a justiça reine entre nós, cada vez que encorajamos a paz entre os povos, nas famílias e entre as pessoas, e cada vez que a alegria do Evangelho pulsa em nossos corações como dom do Espírito Santo. É assim que o Reino de Deus, o reino de Cristo se faz presente. Maria Santíssima, por colaborar com o projeto de Deus de vida em abundância para todos, projeto de salvação levado a cabo por Jesus Cristo, projeto esse em que Ela, solidária ao seu povo pobre e sofredor, sedento e esfomeado de justiça (cf. Mt 5,6), gerou o Príncipe da Paz (Is 9,6) e, cheia de graça, alegrou-se, trazendo a nós a causa de nossa alegria” (cf. Lc 1,28) é também participante desse Reino de Deus. Justiça, paz e alegria: nisso consiste o Reino de Deus (cf. Rm 14,17). Maria é participante desse Reino, por isso ele também é dela. Diz São Luís Maria Grignion de Montfort que “quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será uma consequência necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem Maria” (Tratado, n. 13). E acrescenta sem nunca dar a ideia que existiriam dois reinos: “Maria é a Rainha do céu e da terra, pela graça, como Jesus é o rei por natureza e conquista. Ora, como o reino de Jesus Cristo compreende principalmente o coração ou o interior do homem, conforme a palavra: ‘O reino de Deus está no meio de vós’ (Lc 17,21), o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, em sua alma, e é principalmente nas almas que ela é mais glorificada com seu Filho, do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-la com os santos a Rainha dos corações” (Tratado, n. 38).
O Reino é de Deus, mas por participação também é reino de Maria, e reino de cada um de nós que colabora em sua construção. O reino é nosso. 

10 -     O Tratado é um livro de espiritualidade popular
O Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria, embora traga uma certa pomposidade e ares de autoridade (o que é muito próprio das publicações da era medieval), não se constitui como um documento do Magistério da Igreja, cabendo-lhe, logo, ao seu devido lugar: um livro de espiritualidade popular, para a leitura dos fiéis conforme os ajude no seu crescimento espiritual e vivência do Evangelho, mas não podendo ser assumido, no seu conteúdo, como verdade de fé ou orientador pastoral que determine o modo de pensar e agir dos cristãos católicos – ainda mais nos dias de hoje –  muito menos acrescenta qualquer concepção nova e absoluta sobre as temáticas espirituais, sobretudo no que diz respeito à Virgem Maria. Este devotado Santo tem consciência disso e deixa clara a intenção e o valor de seus escritos:
“Falo, porém, aos pobres e aos simples que, por serem de boa vontade e terem mais fé que a maior parte dos sábios, creem com mais simplicidade e mérito, e, portanto, contento-me de lhes simplesmente a verdade, sem me preocupar em citar todos os textos latinos, embora mencione alguns, mas sem os rebuscar muito. Continuemos” (Tratado, n. 26).
Portanto, caro consagrado, na ordem de referência que você deve assumir como importante e válida a ser seguida para aprofundar sua devoção está, primeiro, a Bíblia e Tradição da Igreja, bem como a sua milenar orientação magisterial presente em inúmeros documentos promulgados por ela, os quais seguem um contínuo discernimento segundo os sinais dos tempos. A luz desse arcabouço – e jamais fora dele ou parcial a ele – devemos ler as obras dos Santos, incluído aí o legado de São Luís.

11 -    A consagração pelo Tratado não é sinônimo de salvação garantida
Queremos retomar o que foi exposto no item 3 deste artigo, ao reconhecer a inflexão de linguagem e mentalidade necessária para Tratado nos tempos de hoje. O Santo, fiel à linha teológica da época, afirmou no seu livro inúmeras vez o atrelado absoluto entre Salvação e devoção à Virgem Maria. Alguns exemplos a saber:
“A devoção à santa Virgem é necessária a todos os homens para conseguirem a Salvação” (n. 39); “Se a devoção à Virgem Santíssima é necessária a todos os homens para conseguirem simplesmente a salvação” (n. 43).

 Estes trechos podem levar você, consagrado, a acreditar que, ao adotar este método de consagração, sua salvação está garantida – garantida pela intercessão da Virgem Maria. Não caía nesse fatal erro. Isso é uma pretensão conferida à Nossa Senhora que não corresponde à Verdade do Evangelho nem ao ensinamento da Igreja, embora, por piedade popular, essa intuição está presente em muitas obras devocionais. Assim como não se pode afirmar que nas demais formas de confissões cristãs, em que não existe uma devotada veneração à Virgem Maria, a graça da Salvação lhes está privada, do mesmo modo não podemos dizer que a prática da devoção mariana possa ser sinônimo de salvação pessoal.


12 -  Os consagrados não são “mais” cristãos ou cristãos “melhores” do que os não-consagrados
ilusão de superioridade em relação aos outros, a hipocrisia, o farisaísmo e a arrogância fazem parte do coração e das atitudes daqueles que acham que a consagração pelo método do Tratado os faz mais santos, cristãos melhores ou mais autênticos do que os outros. Erram feio cultivando um modo de ser nada cristão: a soberba. São Luís Maria Grignion de Montfort chama de presunçosos esses devotos que “sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc.; que dormem placidamente em seus maus hábitos, sem violentar-se muito para se corrigir, alegando que são devotos da Virgem; que prometem a si mesmos que Deus lhes perdoará, que não hão de morrer sem confissão, e não serão condenados porque recitam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à confraria do santo Rosário ou do Escapulário, ou a alguma congregação; porque trazem consigo o pequeno hábito ou a cadeiazinha da Santíssima Virgem, etc.” (Tratado, n. 97).

De fato, a soberba é exatamente o oposto da humildade. Aliás, a origem da palavra humildade é “húmus”, isto é, aquilo que se acha na terra, pó (cf. Gn 2,7; 3,19). O humilde é aquele que reconhece o seu “nada”, embora seja a mais bela obra da Criação de Deus porque criado à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). Maria Santíssima é exemplo de humildade sincera (cf. Lc 1,38). Adão e Eva, acometidos pela soberba, quiseram “ser como deuses” (cf. Gn 3,5). Vaidade. Jesus, por outro lado, humilhou-se até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,7-8). Todo e qualquer cristão chamado ao seguimento de Jesus é convidado a configurar-se com Ele. Jesus ensina: “Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (cf. Mt 23,12).

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Entenda porque bispo espanhol erra ao criticar Star Wars: The Last Jedi

No dia 09 de janeiro a Agência Católica Internacional (ACI) publicou a notícia de que o bispo de San Sebastián, na Espanha, Dom José Ignacio Munilla, criticou o filme Star Wars: Os Últimos Jedi por ter um “aceno” ao pensamento da Nova Era.

ATENÇÃO SPOILERS!


A primeira critica do bispo


Segundo o portal de notícias, o prelado criticou que o filme destaca coisas como “os livros sagrados não são necessários, pode-se queimar o templo”. O bispo erroneamente interpretou que o novo filme propõe que “no fundo, a sabedoria esta dentro de você, não está nos livros, não está nessa tradição de nossos pais, mas queimemos os livros sagrados porque a sabedoria é você”. “Aqui, estamos vendo uma reedição de ‘espiritualidade sim, religião não’”, comentou. Para ele trata-se de “uma espécie de aceno à ‘nova era’ de espiritualidade sim, e você é a espiritualidade, você é a sabedoria. Mas não religiosidade, não uma tradição que foi entregue aos livros sagrados, que foi guardada no templo”.

O bispo cochilou no filme

Somos levados a crer que Yoda queimou os livros Jedi quando fez o raio cair na árvore que os abrigava em Ahch-to. Mas não é isso que acontece! No final do filme, descobrimos que os livros estão intactos! Quando Finn abre uma gaveta da Millennium Falcon para pegar um cobertor para Rose, percebemos que os livros estão ali. Com certeza Rey pegou os livros antes de ir embora de Ahch-to. Nada foi queimado e Yoda sabia disso.

Em Star Wars: O Império Contra-Ataca, Yoda, bem humorado, brinca com Luke enquanto treina o jovem herói. Nesse último episódio da saga, vemos de novo aquele mesmo Yoda, brincalhão, ajudando o velho Luke a libertar-se da inércia em que estava. Aqui, Luke entendia que devia morrer no exílio em Ahch-to, que estava fora de cena. Yoda o desperta para a ação: desapega-o das leis dos livros Jedi e o impulsiona para a missão. A missão está acima da lei porque a lei serve à missão. Algo muito parecido com que Jesus faz nos seus conflitos com os fariseus apegados à rigidez da lei e distantes da prática do amor ao próximo.        

Terminar o filme com os livros guardados na Millenium Falcon, é terminar o filme com os livros sagrados guardados num lugar especial e cheio de valor para o universo Star Wars. 

A outra critica do bispo


Além disso, o bispo indicou “também era notório na forma confusa da distinção do bem e do mal, como se o próprio bem e o mal necessitassem mutuamente um do outro para se desenvolver”.


Como resolver o impasse do bispo


É difícil indicar de onde o bispo elaborou que "era notório" a "forma confusa da distinção do bem e do mal". Talvez Dom Munilla é que tenha se confundido ao assistir ao filme. Não obstante, é possível que ele se referia à relação entre a protagonista Rey (bem) e o vilão Kylo (mal) - já que a relação deles é o arco mais notório do filme. 

Aqui não há confusão. Nenhum dos dois personagens personifica o bem ou o mal. Star Wars é e sempre foi carregado de esperança #Hope, mesmo para aqueles que parecem completamente perdidos - como aconteceu com Darth Vader. 

Nesse sentido, Kylo não está perdido, pelo menos não ainda. Estamos assistindo a sua tragédia (matar o pai, tornar-se Líder Supremo da Primeira Ordem), porém, assistimos também a sua hesitação quando teve a oportunidade de matar sua mãe. Nem tudo está perdido para Kylo. A compaixão sempre moveu os personagens de Star Wars. A protagonista, Rey, acredita na redenção de Kylo; E Luke deixa claro essa possibilidade quando encontra Leia:

 "Leia: “Eu mantive a esperança durante tanto tempo… Mas sei que meu filho desapareceu.”

Luke: “Ninguém desaparece realmente.” ". 

Portanto, há esperança para Kylo. Ele não está totalmente consumido pelo lado sombrio da força (mal). Daí que ele não pode ser a personificação do mal e nem ser visto como um personagem simples em que a distinção do bem e do mal esteja clara. Kylo é conflito e nisso Kylo é bem humano.

Fim do problema?


Star Wars: The Last Jedi não é o meu filme favorito da saga. O problema do filme é de ordem narrativa e conceitual na continuidade com os filmes anteriores. O problema do filme não é de ordem ideológica! Dom Munilla erra ao criticar Star Wars: The Last JediDe qualquer forma, o próprio bispo admite “não sou um especialista nessa saga”, logo ele pode errar quando fala sobre o assunto. Recomendaria a ele um conhecimento mais aprofundado antes de emitir uma opinião tão categórica. Star Wars é sobre amar os outros, resistir ao mal, ter fé nas outras pessoas, encorajar a amizade e a necessidade de comunidade. 

De acordo com a ACI, o prelado fez seus comentário sobre o filme na edição de 5 de janeiro de seu programa ‘Sexto Continente’, transmitido pela Radio Maria.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

LECIONÁRIO PARA MISSAS COM CRIANÇAS - EDIÇÃO COMPLETA

*Link atualizado em 26/03/2020

Muitos não sabem, mas existe um Lecionário para Missa com Crianças, livro litúrgico oficial aprovado pela CNBB e pela Santa Sé, de linguagem simples e acessível que pode ser usado nas celebrações para facilitar a compreensão dos textos bíblicos pelos pequeninos. É um Lecionário todo pensado para crianças! Você vai perceber que os textos bíblicos são adaptados e que o número de leituras é diferente do Lecionário comum. Não se assuste, é assim mesmo! O Diretório para Missas com Crianças n. 41-48 pede essa adaptação. Em alguns tempos litúrgicos, o Lecionário propõe apenas uma única leitura - a do Evangelho -  para a Missa com crianças. Mas isso não significa que a comunidade não possa escolher entre a primeira e a segunda leitura do dia corrente ou ainda uma outra para ser proclamada na Liturgia da Palavra.



Lecionário Para Missas Com ... by João Melo on Scribd

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Do cativeiro ao presente de despedida: Meus dias no Aldeia indígena Hanawarikô

Uma coisa precisa ficar muito clara no início desse relato: Não pense os indígenas como povos isolados, sem contato, hábitos e costumes próprios da cultura do não-índio. São pouquíssimas as etnias indígenas que vivem isoladas, sem sofrerem fortes influências do jeito de viver do homem branco.

Fui às terras indígenas junto com Aloir, SJ e Adauto. O motivo da nossa viagem foi fazer uma perícia para a justiça federal. O assunto é sério. Trata-se de uma disputa judiciária entre fazendeiros locais e indígenas da etnia Pareci pelas terras daquela parte do cerrado mato-grossense. A pergunta era: De quem é a terra? Nosso objetivo era ajudar a justiça federal na definição dessa questão delicada. Eu fui como assistente do Pe. Aloir, SJ.

Chegamos à aldeia Hanawarikô na segunda-feira, dia quatro, pela manhã. Procuramos pelo cacique de nome João – meu xará. Os índios costumam ter um “nome de branco” para documentos e relações com os não-índios, mas também têm um nome na língua nativa que falam. João reuniu a comunidade da aldeia no espaço que também funciona como igreja evangélica – essa aldeia foi convertida anos atrás por um casal de pastores. Nós nos apresentamos. A conversa foi curta. O cacique disse que não poderíamos fazer trabalho algum sem a presença da FUNAI. Não importava se estávamos em nome da justiça federal, nem qualquer papel ou documento que mostrássemos. Um dos índios abriu o carro em que viemos para assegurar que não portávamos nenhum armamento. Aos poucos fomos nos dando conta da situação em que estávamos. Nos mandaram aguardar até a chegada da FUNAI. Disponibilizaram-nos uma casa que era usada apenas para guardar coisas e receber visitas de pessoas brancas – a grande maioria dos índios prefere morar dentro das ocas. Quando anunciamos que íamos à cidade mais próxima, disseram que não podíamos deixar a aldeia. Estávamos sem comunicação, já que não havia sinal de celular, não nos deixavam usar o telefone via rádio que tinham e nos proibiram de usar computadores. Estávamos presos.


A partir desse momento, de quando em quando, um índio vinha à casa onde nos hospedaram para assegurar-se que não estávamos usando o computador ou com a intenção de deixar a aldeia. Nos entretinham com histórias e causos que contavam. Durante as refeições que eram feitas em outra casa, um deles sempre nos acompanhava. As horas demoraram a passar. A situação ficou um pouco mais tensa quando, no cair da tarde, teimamos em usar o computador e isso irritou o indígena que nos vigiava. Ele ameaçou nos tomar os computadores. Aguardamos, então, até a chegada do representante da FUNAI que aconteceu no dia seguinte, duas horas depois do almoço. Ele precisava fazer alguma consulta antes de iniciarmos a perícia. E isso significa que precisaria usar o telefone. Nós o acompanhamos até um lugar onde era possível usar celular, apesar de que a rede de dados de internet ainda não funcionava. Então, fiz um discernimento: usei o telefone para mandar SMS´s para minha família – fazia tempo que não mandava esse tipo de mensagem – mas preferi não comentar sobre o episódio da aldeia, só iria despertar preocupação e as coisas já estavam se resolvendo. De volta à aldeia, depois de uma boa conversa, o impasse foi resolvido: os trabalhos iriam começar. Fim do cativeiro.

No dia seguinte, seis de dezembro, pela manhã, começamos nossa rota acompanhados de alguns índios Pareci e do representante da FUNAI. Fomos em dois carros aos locais pertinentes à perícia. Aloir foi no carro da FUNAI. Eu fui no carro com Adauto. Conosco foi uma personagem ilustre que me marcou profundamente nesses dias: Dona Julia, índia Pareci de 75 anos. Já tinha percebido a vitalidade e a presença marcante dessa senhora quando chegamos à aldeia. Ela é filha de um personagem importante para a cultura e a região local, tem autoridade de uma matriarca, ou melhor, cacique e possui em sua personalidade os traços de quem é forte e doce ao mesmo tempo. Dona Júlia entrou no carro falante e enérgica, sempre acompanhada de seu marido. Toda a nossa conversa no carro foi gravada e ela falou com a espontaneidade e simplicidade que lhe são típicas. Ela disse que Deus fez a terra e que o homem branco não era dono da terra. Disse que antigamente não tinha fazendeiro nem branco onde moram. Chegamos ao nosso primeiro destino: à proximidade das nascentes do rio Juininha, divisa da terra indígena Uirapuru. O rio tinha uma água barrenta. Dona Julia explicou que não era assim antigamente.


Havia uma razão para aquilo a poucos quilômetros dalí e, no dia seguinte, fomos ver pessoalmente o que prejudicava e irritava os espíritos das águas do rio Juininha. Era uma enorme erosão causada pela construção da rodovia BR-364...


Depois, visitamos vários vestígios de aldeias antigas. Os índios nos diziam “cemitérios” e isso porque o povo Pareci enterra seus mortos dentro da casa onde a pessoa vivia. Muitas vezes, quando a morte do ente querido causa grande tristeza para a aldeia, os Pareci optam por mudar a aldeia de lugar e demoram anos para voltar a ocupar o antigo território. Daí que encontrar um cemitério era o mesmo que encontrar uma antiga habitação indígena.

A presença de Dona Julia foi muito importante para entendermos a memória do que por ali se passou. Visitamos uma aldeia velha em que Dona Julia tinha morado antes de ter sido expulsa de lá pelo administrador da fazenda da região - personagem que conheceríamos no dia seguinte. Ela entrou na antiga oca onde morava, passou os olhos pelo lugar, quando avistou uma antiga frigideira, jogada num canto e esquecida pela pressa da fuga. Tomou-a na mão, tirou um pouco de terra de dentro, olhou para mim, e disse, com jeito envergonhado, que levaria consigo sua frigideira. Eu acenei que sim. Ela foi até o carro da FUNAI para guardá-la, enquanto continuávamos a perícia.


No dia sete, nossas visitas se centraram a outras aldeias da região. Conhecemos outros índios Pareci que por ali vivem. Nosso objetivo era conversar com os mais velhos e resgatar os fatos que para nós precisavam ser esclarecidos. Era como montar um quebra-cabeça com os pedaços das recordações e dos relatos que nos eram contados. Nossas chegadas as aldeias sempre chamavam a atenção dos seus habitantes. 

Conhecemos a aldeia Juininha, onde um rapaz bem jovem exercia a função de cacique. Ali haviam dois índios Pareci bem idosos com quem gravamos entrevistas. Apesar deles falarem português, o jovem cacique traduziu as perguntas para a língua pareci, de modo que os anciãos pudessem melhor compreender e responder as questões. Os mais velhos são verdadeiras bibliotecas de informações e histórias do passado. A transmissão da cultura oral é uma marca forte dos povos indígenas. Descobrimos que o “batizado” ou nomeação de um Pareci é feito depois que uma pessoa dentre os mais velhos sonha o nome. Acredita-se que é um espírito que vem e revela o nome da criança.


Outras aldeias, encontros, conversas e entrevistas nos conduziram até o final daquele dia e adentro da manhã seguinte, do dia oito. Depois, fomos até a sede de uma das fazendas da região para conversa com o gerente do local. Estávamos diante de um velho conhecido dos índios Pareci e às voltas com os conflitos dessa disputa; homem branco, calças largas, ostentava grossas correntes douradas nos pulsos e no pescoço, donde pendia uma grande e sinistra cruz também dourada e um outro adereço que não consegui identificar. Defendeu os fazendeiros.

Voltamos para a aldeia Hanawarikô, onde estávamos hospedados. Nos aproximávamos do encerrando dos trabalhos da perícia. Dona Julia estava vestida com um belo vestido verde, também pendurou no pescoço seus longos cordões – sinal de sua autoridade - e nos levou à cabeceira do rio Juína, onde ainda hoje eles vão para tomar banho e larvar roupas. É um lugar bonito e de águas limpas.


Ao longo desses dias, fui me acostumando com algumas coisas próprias dessa experiência. Agora mesmo, por exemplo, enquanto escrevo esse trecho do texto – são três da madrugada -, uma pequena rã pulou na coberta com que me cubro e, ao perceber que dei-me conta de sua presença, ela pulou para algum lugar longe o suficiente para que eu não mais possa vê-la. Porcos, cachorros, insetos, gaviões, caranguejeiras, antas, galinhas, seriemas, macacos, tatus,... formaram todos parte do cenário dessa viagem.


Hoje, mais cedo, depois do jantar, a filha de Dona Julia, acompanhada de outra Pareci me procuraram para dar-me um presente de despedida. Ganhei um colar com um peixe talhado em tucum. Fiquei feliz com o agrado. Era sinal de paz e de cordialidade. Tenho consciência que o mal-entendido que ocorreu na nossa chegada se deu porque esses Pareci vivem numa situação de tensão, medo e insegurança por suas terras. O medo gera desconfiança e a desconfiança nos leva a agir de modo a nos proteger do que é estranho, e eu entendo isso. Os Pareci de Hanawarikô tem ainda muito o que viver e o que lutar. Espero que a justiça contribua na garantia de seus direitos tradicionais.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Igreja: lugar do chá maluco de Alice no país das Maravilhas

“Havia uma mesa arrumada embaixo de uma árvore, em frente à casa, e a Lebre de Março e o Chapeleiro estavam tomando chá” (CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. In: Versão para eBook: eBooksBrasil.com, 2002, capítulo VII, p. 63).

É um episódio conhecido de todos nós. E eu particularmente adoro chás! Em meio a sua jornada, Alice se aproxima da casa da Lebre de Março. Lá, embaixo de uma árvore, avista uma mesa posta. É hora do chá! A Lebre de Março, o Chapeleiro Maluco e um Leirão estão à hora do chá.

As linhas citadas no primeiro parágrafo podem nos fazer imaginar um lugar formidável: embaixo de uma árvore, uma sombra fresca, uma brisa leve e um clima agradável. Normalmente, quando estamos embaixo de uma árvore frondosa e acolhedora, nos encontramos em um espaço de descanso e de aconchego. Muitos de nós, inclusive, escolhemos a sombra das árvores como lugar para piqueniques e isso me parece uma escolha acertada porque, afinal de contas, muitas árvores são frutíferas e isso, por si só, já sugere que embaixo de seus galhos, seja lugar de refeição. Árvores podem frutificar e dar alimento para a manutenção e o revigorar da vida. E essa ideia nos remete à mitológica Árvore da Vida das narrativas bíblicas: “No meio da praça e em ambas as margens do rio cresce a árvore da vida, frutificando doze vezes por ano, produzindo cada mês o seu fruto, e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 22,2). Gosto de pensar a árvore da qual Alice se aproximou para encontrar a mesa de chá como uma árvore especial, como uma árvore acolhedora e de vida. Acho que não poderia ter cenário melhor para que acontecesse aquele chá.  

Outro detalhe que faz a imaginação fluir é o fato de que a mesa está em frente à casa. Não está distante dela. Aprontar a mesa abaixo da árvore e em frente à casa não foge ao ambiente familiar. Embora não seja dentro da casa, é dentro do espaço do “lar”, isto é, do ambiente de convivência e referência da Lebre de Março e também do Chapeleiro.

Pergunto: Por que optaram por tomar chá embaixo da árvore em frente à casa ao invés de ficarem na sala ou na cozinha, dentro da casa? O livro não revela esse detalhe, mas podemos imaginar, pela descrição de Lewis que o clima se fazia propício para estar ao ar livre. Talvez fosse oportuno um chá “campal” que os liberasse da cotidianidade do ambiente do edifício-casa. Isso não significa que a Lebre de Março e o Chapeleiro abandonaram a casa, ou melhor, o que ela representa – E o que será que ela representa?. Afinal, se fosse assim, o autor preferiria descrever um chá no meio da floresta ou em qualquer outro lugar distante da frente da casa e da agradável sombra da árvore de seu quintal da frente. Parece, então, mais com uma opção consciente da Lebre de Março e também do Chapeleiro de tomar chá fora de casa e, mesmo assim, permanecer ainda em casa.

É preciso perceber que esse gesto revela uma escolha mais do que “maluca”. Ela cria novas condições para se fazer o que sempre se fez de uma forma inédita. É repetir a atitude de tomar chá de uma maneira inovadora. E note-se: não é preciso abandonar a casa para ter essa atitude criativa. Na verdade, foi necessário que a Lebre de Março e também o Chapeleiro olhassem para a concretude da realidade onde vivem – a casa e o quintal em frente dela, e a tarefa que iriam realizar – tomar chá, e, daí, generosos em disponibilidade e abertura, pensassem criativamente: Um chá Maluco (título do capítulo VII da obra de Carroll). A maluquice do chá começa justamente na ambientação inovadora em que ele ocorre.

Uma atitude de resistência enrijecida que insistisse em tomar chá dentro de casa, mesmo com o sol brilhando lá fora, seria também uma atitude de fechamento... se estivessem dentro de casa, trancados às tradicionais normas e conveniências de tomar chá dentro de casa, talvez Alice nunca tivesse encontrando-os sentados à mesa. Com efeito, uma atitude de enrijecimento gera desencontros e fecha portas para que outros descubram a mesa onde nos achegamos. O trancar-se dentro da segurança da estrutura da casa para a sagrada hora do chá, hora da convivência, hora de dividir a bebida do mesmo bule com os outros, exclui os que poderiam ser nossos companheiros e convidados.

Igreja tem mais haver com tomar chá embaixo de árvore do que dentro de casa.