segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ungidos pelo Espírito, enviados em missão



Tema: Ungidos Espírito, enviados em missão


É preciso que os jovens sejam sensibilizados para a realidade simbólica do Sacramento da Confirmação e reflitam sobre para que serve ser crismado.Esse encontro de catequese com jovens que se preparam para a Crisma tem esse objetivo. É um encontro que explora os sentidos humanos, aborda o rico significado do óleo do Crisma e convida os jovens a olharem para si e para a necessiadade de estar em missão.






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domingo, 23 de abril de 2017

São Jorge é sim santo da Igreja!

  Ele é Santo Católico, mas têm gente que tem reservas em venerá-lo. Bobagem!

Certa vez, alguém perguntou sobre o porquê das paróquias não celebrarem a memória de São Jorge na liturgia do dia 23 de Abril.
Ocorre que, muitas vezes, o dia 23 de abril cai em plena oitava da Páscoa, quando nenhuma festa de santo, memória obrigatória ou facultativa pode ser celebrada. Os dias seguintes a Ressurreição de Jesus estendem a Solenidade da Páscoa do Senhor. Outras vezes, o dia 23 de Abril cai em um dos Domingos da Páscoa, dia em que também não é  celebrada a memória de santos.
Além disso, depois da reforma litúrgica pós-conciliar do Vaticano II, a festa litúrgica de São Jorge e de outros santos tornou-se facultativa, isto é, pode ou não ser celebrada, de acordo com a devoção do povo local. Igrejas e locais que têm São Jorge como patrono, podem celebrá-lo em caráter de festa solene no dia de sua memória.

Outros ficam na dúvida se São Jorge existiu  mesmo...

Os tempos difíceis em que os primeiros cristãos viveram não nos permitem ter fontes seguras de que São Jorge existiu, pois o que temos é apenas um pequeno e comprometido “fio” histórico na vida do Santo que consta, dentre outras obras, nos manuscritos cópticos  - que em português há uma edição pela Sá Editora recolhida pelo historiador Ernest A. Wallis Budge. Esses textos que narram o martírio e milagres de São Jorge da Capadócia nos mostram um jovem fiel a sua fé em Cristo que sofre até a morte. Um jovem mártir, testemunho e herói da fé. Embora o texto seja repleto de simbologias e alegorias, trata de mostrar de forma clara que historicamente o “dragão” com que São Jorge luta é o imperador Diocleciano. A narrativa vale a pena, é cristológica! Jorge revela o discípulo que segue de forma apaixonada o caminho de Jesus Cristo! Nunca teremos certeza se o jovem soldado Jorge que desertou de seu posto militar pela fé em Cristo e por Ele deu a vida, verdadeiramente existiu. É verdade também que jovens que tenham queimado éditos de condenação contra cristãos e por isso e por outras razões tenham sido perseguidos e feitos mártires, não devem ter faltado. Se algum deles era soldado e chamava-se Jorge, não se tem certeza, mas a probabilidade é alta! O testemunho dessa comunidade primitiva perseguida ficou. São Jorge é símbolo delas. Portanto, são mesmo necessárias profundas bases históricas para legitimar a memória de um santo dos primórdios da Igreja?

Na Idade Média a história mudou... surgiu a lenda de Jorge e o dragão. Muita confusão foi feita. É tempo de evangelizar e purificar essa devoção, embora ela não esteja totalmente desprovida de sua riqueza evangélica (cf. DAp 262). Essa ideia de “dragão” está presente como um arquétipo na humanidade em diversas culturas, como nos mostram o livro “How to kill a dragon: aspects of Indo-European poetics” de Calvert Watkins e obras da brasileira Rosana Rios. O dragão faz parte. De fato, o livro bíblico de Daniel não é um livro menos deuterocanônico por ter na narrativa um dragão (Dn 14); nem o Apocalipse menos protocanônico (Ap 12); não é “brincadeira de fé”, é a riqueza da narrativa simbólica que é narrativa de fé!

Ao povo brasileiro essa devoção é tão cara que São Jorge figurava entre os intercessores oficiais da JMJ 2013. Quem já esteve na capital do Rio de Janeiro, sabe do que estou falando. São Jorge é patrono de muitos lugares na Europa e na Ásia.
Alguns pensam que é mais fácil abrir mão de um dado não essencial da tradição popular do que purificá-lo. São Jorge é muito mais do que a figura de um mito que luta contra um dragão fictício. Eis, portanto, o tempo favorável para resgatar a figura de um Jorge, jovem soldado cristão que por amor a sua fé em Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado na história humana, prefere perder a vida do que negar a fé. Num mundo onde cristãos na Síria e em tantos outros lugares ainda sofrem a mesma pena, essa devoção ainda encontra pleno sentido se purificada.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ester e Maria: Rainhas da Fidelidade

“A sua fidelidade, Senhor, permanece de geração em geração” (Sl 119,90)

Uma das virtudes vividas em grau heroico pela Virgem Maria é a fidelidade. A FIDELIDADE é a marca da constância, da solidez dos elos com as pessoas, grupos, instituições e ideais com quem mantemos relações. Ser FIEL significa agir com lealdade, atenção e seriedade e isso é muito diferente de estar sempre de acordo com tudo. A fidelidade opera num nível bem mais elevado. A Bíblia nos mostra isso em alguns relatos. No livro de Gênesis, Putifar encarregou José de cuidar de sua casa: - "O meu senhor, tendo entregue tudo em minhas mãos, não pede contas do que tem em sua casa" (Gn 39,8), diz José à mulher de Putifar ao recusar suas propostas indecentes. Ele é um servo FIEL e não trairia a confiança de Putifar. Mas Putifar também é um marido FIEL. Acreditando na calúnia da mulher, manda prender José (Gn 39,19-20). A virtude da FIDELIDADE por si só não é garantia da ação correta, que exige mais do que boas intenções. É preciso ter também a sabedoria para distinguir o que é correto e ter vontade de fazê-lo.
O filósofo francês Comte-Sponville afirma que

A fidelidade não é um valor entre outros, uma virtude entre outras: ela é aquilo por que, para que há valores e virtudes. Que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos espíritos livres? E que valeria a própria verdade sem a fidelidade dos verídicos? Ela não seria menos verdadeira, decerto, mas seria uma verdade sem valor, da qual nenhuma virtude poderia nascer. (...) não há virtude sem fidelidade (Comte-Sponville, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 17).

Para o filósofo, portanto, a fidelidade seria como que uma “força motriz” das outras virtudes e o que a elas dá consistência. A fidelidade necessariamente estaria combinada a outras virtudes e só assim teria sentido.
Com efeito, Nossa Senhora, em razão de sua colaboração na missão de seu Filho e pela ação do Espírito Santo, combina em si uma ditosa pluralidade de virtudes humanas. “Na pessoa da Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição, sem mancha nem ruga, que lhe é própria” (Catecismo da Igreja Católica, n. 829). Nela, FIDELIDADE e as outras virtudes coexistem e superabundam em favor da sua missão. De fato, como afirma o Catecismo da Igreja Católica n. 489, “ao longo da Antiga Aliança, a missão de Maria foi preparada pela missão de santas mulheres. (...) Deus escolheu o que era tido por incapaz e fraco para mostrar a sua fidelidade à promessa feita: Ana, a mãe de Samuel, Débora, Rute, Judite e Ester e muitas outras mulheres. Maria é a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus”.
Dentre estas Santas Mulheres, a Rainha Ester possuía a virtude da FIDELIDADE que Maria viveu de forma perfeita. Não é à toa que ambas são vistas como “Rainhas e Padroeiras fiéis”. São duas mulheres que protegeram com fidelidade seu povo. Ester foi “padroeira” de Israel. Por sua sábia atitude, conseguiu livrar seu povo do extermínio, devolvendo-lhe a esperança. Maria é padroeira de todas as nações, aquela que inclusive apareceu aos pobres pescadores que serviam aos nobres de Aparecida, devolvendo-lhes a alegria da vida – Ela é também a padroeira do Brasil. Já muito bem aplicava São Alberto Magno a este propósito a história da rainha Ester, que foi prefiguração de Maria, nossa Rainha.
Não é sem razão que a Liturgia da Igreja celebra a Mãe e protetora do povo cristão com a Primeira Leitura tirada do livro de Ester 5,1b-2;7,2b-3 que no Brasil lê-se na Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
No livro bíblico de Ester, são narradas as peripécias dessa mulher judia, filha adotiva do israelita Mardoqueu, que se tornou rainha na corte persa, ao lado do rei Assuero, o Xerxes I (cf. Est 1,9; 2,18).
Rainha Ester - Portal da Virgem, Aparecida SP
(Cláudio Pastro)

No relato recolhido por William J. Bennert[1] dos capítulos 1 e 2 do Livro de Ester, tudo começou por ocasião de um banquete que o rei ofereceu para todos os seus oficiais e servidores. A festa durou uma semana. O pátio estava todo enfeitado com cortinas de algodão brancas e azuis, amarradas com cordões de fino linho vermelho, que estavam presos por argolas de prata a colunas de mármore. O piso era feito de ladrilhos azuis, de mármore branco, de madrepérola e de pedras preciosas. Nesse pátio havia sofás de ouro e de prata. Os convidados tomavam as bebidas em copos de ouro, todos eles diferentes uns dos outros, e o rei mandou que o seu vinho fosse servido à vontade. A rainha Vasti também ofereceu no palácio real um banquete para todas as mulheres dos convidados.
No sétimo dia de banquetes o rei já havia bebido bastante vinho e estava muito alegre. Aí ele mandou chamar os sete eunucos que eram os seus servidores particulares. O rei ordenou que eles fossem buscar a rainha Vasti e que ela viesse com a coroa de rainha na cabeça. Ela era muito bonita, e o rei queria que os nobres e os outros convidados admirassem a sua beleza. Mas a rainha não atendeu à ordem do rei, e por isso ele ficou furioso.
Mais tarde a raiva do rei já havia passado, mas mesmo assim ele continuava a pensar no que Vasti havia feito e no decreto que ele havia assinado contra ela. Aí alguns dos seus servidores mais íntimos lhe disseram: - Rei, mande buscar as mais lindas virgens do reino. Escolha funcionários em todas as províncias e ordene que tragam as moças mais bonitas para o seu harém aqui em Susa, a capital. Egeu, o eunuco responsável pelo harém real, tomará conta delas e fará que recebam um tratamento de beleza. E então, ó Rei, que a moça que mais lhe agradar seja a rainha no lugar de Vasti. O rei gostou da ideia e fez o que lhe sugeriram.
Em Susa morava um judeu chamado Mardoqueu, filho de Jair e descendente de Simei e de Quis, da tribo de Benjamim. Quando o rei Nabucodonosor, da Babilônia, levou de Jerusalém como prisioneiro o rei Joaquim, de Judá, Mardoqueu estava entre os prisioneiros que foram levados com Joaquim. Mardoqueu levou consigo a sua prima Ester, uma moça bonita e formosa. Os pais dela tinham morrido, e Mardoqueu havia adotado a menina e a tinha criado como se ela fosse sua filha.
Quando o rei mandou anunciar a ordem, muitas moças foram levadas para Susa, a capital, e entregues aos cuidados de Egeu, o chefe do harém do palácio. Uma dessas moças era Ester. Egeu gostou dela, e ela conquistou a simpatia dele. Imediatamente ele começou a providenciar para ela o tratamento de beleza e a comida especial. Arranjou sete das melhores empregadas do palácio para cuidarem dela e colocou Ester e as empregadas nos melhores quartos do harém.
Ester fez conforme Mardoqueu tinha mandado e não disse nada a ninguém a respeito da sua raça e dos seus parentes. Todos os dias Mardoqueu passeava em frente do pátio do harém para saber como Ester estava passando e o que ia acontecer com ela. O tratamento de beleza das moças durava um ano; durante seis meses perfumes de mirra e, no resto do ano, outros perfumes e produtos de beleza.
Terminado o tratamento, cada moça era levada ao rei Assuero. Quando chegava a sua vez de ir do harém até o palácio, cada moça tinha o direito de levar tudo o que quisesse. À tarde ela ia ao palácio e na manhã seguinte ia para outro harém e era entregue aos cuidados de Sasagaz, o eunuco responsável pelas concubinas do rei. Ela não voltava a se encontrar com o rei, a não ser que ele gostasse dela e mandasse chamá-la pelo nome.
Chegou a vez de Ester, filha de Abiail e prima de Mardoqueu, a moça que Mardoqueu tinha criado, a moça que conquistava a simpatia de todos os que a conheciam. Quando chegou a sua vez de se encontrar com o rei, ela levou somente aquilo que Egeu, o eunuco responsável pelo harém, havia recomendado.
Ester foi levada ao palácio para apresentar-se ao rei Assuero no mês de tebete, o décimo mês do sétimo ano do seu reinado. Ele gostou dela mais do que de qualquer outra moça, e ela conquistou a simpatia e a admiração dele como nenhuma outra havia feito. Ele colocou a coroa na cabeça dela e a fez rainha no lugar de Vasti. Depois ele deu um grande banquete em honra de Ester e convidou todos os oficiais e servidores. Ele decretou que aquele dia fosse feriado no reino inteiro e distribuiu presentes que só um rei poderia oferecer.
Assim, Ester, mulher de rara beleza, graça e feminilidade, tornou-se rainha no palácio do opressor. E aconteceu que, mais tarde, o primeiro-ministro do rei Assuero, Amã, sugeriu ao rei que fosse decretado o fim do povo judeu que vivia no império, dizendo-lhe: “Há um povo espalhado por todas as províncias de teu reino, separado entre os povos e obedecendo a leis estranhas, que os outros não conhecem, e que além disso despreza o decreto do rei. Não convém que o rei os deixe tranquilos” (3,8). E assim aconteceu: o rei concordou e autorizou Amã a executar a sua sentença, que rezava: “No dia treze do décimo segundo mês, o mês de Adar, todos os judeus sejam aniquilados e confiscados os seus bens” (3,13). O dia previsto foi escolhido por meio da sorte lançada diante do rei. Ester, sabedora dessa realidade, ofereceu um banquete ao rei Assuero (cf. 7), no qual estava também presente o malvado Amã. Já tomado pelo vinho, o rei, quando viu Ester na sua presença, lhe perguntou com agrado o que lhe vinha pedir: Qual é o teu pedido? Respondeu-lhe a rainha: Meu rei, se em algum tempo achei graça aos teus olhos, concede-me a vida – é o meu pedido – e a vida do meu povo – é o meu desejo (7,3). E Assuero a ouviu e atendeu, ordenando logo que se revogasse a sentença. O rei não só realizou seu desejo, como também mandou enforcar Amã (cf. 7,10).
Santo Afonso Maria de Ligório nos diz que se Assuero, por amor a Ester, lhe concedeu a salvação dos judeus; como poderá, então, Deus, cujo amor por Maria é sem medida, deixar de ouvi-la quando pede pelos pobres pecadores, que a ela se recomendam? 
Nossa Senhora das Estrelas - Pe. Renato, SJ

Ester foi mulher de grande fidelidade porque nunca esqueceu seu povo e seu Deus. Mesma tornando-se Rainha de um povo com cultura e práticas religiosas diferentes das suas, Ester optou por permanecer fiel às suas origens, temente a Deus e cumpridora de Seus mandamentos. A Bíblia sentencia que sua fidelidade era tamanha afirmando que “Ester não mudou de conduta” (Est 2,20).
A Virgem Maria, de forma ainda mais perfeita, foi mulher de grande fidelidade. É invocada sob o título de Virgem Fiel porque permaneceu perseverante ao seu Filho até o fim. Esteve de Belém, na infância, quando adulto e pregador itinerante, até a Cruz com Ele... e além!
A fidelidade faz parte da vocação batismal, isto é, todo cristão é chamado a ser fiel a Cristo. A fidelidade de Ester, de Maria e de todos os batizados não é outra coisa se não resposta à fidelidade de Deus. O Catecismo da Igreja Católica n. 207 diz que “ao revelar o seu nome, Deus revela ao mesmo tempo a sua fidelidade, que é de sempre e para sempre, válida tanto para o passado (“Eu sou o Deus de teu pai” Ex 3,6), como para o futuro (“Eu estarei contigo” Ex 3,12). Deus, que revela o seu nome como sendo “Eu sou”, revela-Se como o Deus que está sempre presente junto do seu povo para o salvar”. Deus é fiel conosco e por isso, somos vocacionados a ser fiéis a Ele.   
A fidelidade possui três dimensões:

ESTER
MARIA
BATIZADOS
Busca
Acorria ao Senhor com orações (Est 14) e jejuns (Est 4,16) quando precisava discernir e tomar decisões
Se pôs a buscar o sentido profundo do Desígnio de Deus n’Ela e para o mundo “Como poderá ser?” (Lc 1,34), perguntou Ela ao Anjo da Anunciação
Conhecimento de si, e da vontade de Deus para a própria vida
Acolhimento
Acolhe com docilidade os conselhos de Mardoqueu (Est 2,19) e de Egeu (Est 2,15), usando de sabedoria para conquistar o rei e enfrentar os desafios da vida na corte
A aceitação: “Eis aqui a serva do Senhor, que sua Palavra se cumpra em mim!” (Lc 1, 38)
Acolher as pessoas e as situações da vida como oportunidades para em tudo amar e servir
Coerência
Intercedeu junto ao rei pelo seu povo, não se esquecendo de suas raízes (cf. Est 7,3) – “Ester não mudou de conduta” (Est 2,20)
É a perfeita discípula missionária – “Primeira cristã”
Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida à fé que se tem adesão


Ester, com a sua atitude, passou para a história como símbolo de fidelidade, de resistência e de fé. Ela libertou o povo oprimido, devolvendo a esperança e a alegria a seu povo, que, com pavor, esperava o dia da morte. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica n. 64: “Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Míriam, Débora, Ana, Judite e Ester[2] conservaram viva a esperança da salvação de Israel. Maria é a imagem puríssima desta esperança”. Com Maria podemos aprender como viver a virtude da fidelidade.




[1] William J. Bennert. O livro das virtudes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 460-62.
[2] Grifo nosso

sábado, 15 de abril de 2017

Sábado Santo ou Sábado de Aleluia?

O Sábado Santo é o 2º dia do Tríduo Pascal e é um dia cheio de grande significado. Não é o "sábado de aleluia", mas o sábado do repouso junto do túmulo do Senhor, em que a igreja medita na Paixão, na Morte e na descida à mansão dos mortos do seu Redentor e aguarda, no jejum e na oração, a sua Ressurreição. O Sábado Santo, portanto é dia de repouso, é comemoração do tempo em que o Senhor esteve na sepultura. Passamos este sábado maior em clima de silêncio, oração e expectativa.   

A sepultura é certificação da morte de Jesus. Neste dia, a comunidade faz sua a atitude das mulheres em frente ao sepulcro (cf. Mt 27,61), numa atitude de espera, confiante na fidelidade da palavra de Jesus. 

Neste dia não há celebração dos sacramentos e a comunhão só pode ser dada como viático.
Mas é um dia de oração com salmos, leituras bíblicas e orações que nos ajudarão a entrar no mistério deste dia, a fazer dele um retiro juntamente com os que se preparam para serem batizados na Vigília Pascal. Há nas orientações da Igreja uma insistência sobre a celebração do ofício divino durante o dia de sábado.
Surpreendendo a noite, as comunidades cristãs acordam ao amanhecer com seus vibrantes aleluias pela passagem do Deus libertador: "eis o dia do Senhor!" É domingo! É a Páscoa da ressurreição! O ponto alto é a Vigília Pascal. 
O Sábado Santo é especialmente consagrado à memória da sepultura de Jesus, compreendida como sua máxima solidariedade com a nossa condição mortal. Porém, ao cair da tarde, após o por do sol, o sábado já se encerra e abre caminho para o domingo e para a Vigilía Pascal... É Ressurreição!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desdobramentos pastorais da Exortação Amoris Laetitia para a Igreja no Brasil


Introdução 
A Igreja no Brasil, ciosa de acolher as intuições da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia do papa Francisco e de integrá-las às Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja, sente-se chamada a “cuidar com amor da vida das famílias, porque elas não são um problema, são sobretudo uma oportunidade” (AL 7), mesmo aquelas que participam de modo imperfeito na vida da Igreja (cf. AL 78), pois, por mais ferida que possa estar uma família, ela pode sempre crescer a partir do amor (cf. AL 53). 
Diante da complexidade dos temas tratados pelos dois sínodos sobre a família, os padres sinodais afirmaram “a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais” (AL 2). Sendo que destas, “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais” (AL 3). “A reflexão dos pastores e teólogos – se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa – ajudar-nos-á a alcançar maior clareza” (AL 2) e estabelecer “caminhos pastorais que nos levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus” (AL 6).
Por essa razão, professando que “o anúncio cristão que diz respeito à família é deveras uma boa notícia” (AL 1), queremos assumir uma criatividade missionária (cf. AL 57) para atender o chamado do papa Francisco que diante da “necessidade de desenvolver novos caminhos pastorais” (AL 201), convoca as diversas comunidades para estabelecerem propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais (cf. AL 199). 

A vida e a missão da comunidade paroquial 
A paróquia é uma família de famílias (cf. AL 87), “onde se harmonizam os contributos das pequenas comunidades, movimentos e associações eclesiais” (AL 202) num “esforço evangelizador e catequético dirigido à família” (AL 200).
As organizações eclesiais, impregnadas pela consciência do estado permanente de missão (cf. DGAE 2015-2019, n. 38) que necessariamente leva a ação evangelizadora, assumem também uma dimensão de educação da fé. São exemplos o acompanhamento feito às gestantes e às famílias por grupos eclesiais como a Pastoral da Criança, podem suscitar a consciência de que “as mães transmitem, muitas vezes, também o sentido mais profundo da prática religiosa: nas primeiras orações, nos primeiros gestos de devoção que uma criança aprende (...). Sem as mães, não somente não haveria novos fiéis, mas a fé perderia boa parte do seu calor simples e profundo” (AL 174). Do mesmo modo, iniciativas eclesiais como a Pastoral do Idoso podem contribuir na proposta de uma catequese Intergeracional uma vez que “as histórias dos idosos fazem muito bem às crianças e aos jovens, porque os ligam à história vivida tanto pela família como pela vizinhança e o país” (AL 193). 
Merecem atenção especial os casais afastados da vida da Igreja que voltam a aparecer, por exemplo, no batismo dum filho, na Primeira Eucaristia, ou quando participam num funeral ou no casamento dum parente ou amigo. Poder-se-ia aproveitar melhor essas ocasiões para anunciar o Evangelho de Cristo e tornar a propor-lhes, de forma atraente, o
ideal do matrimônio cristão e aproximá-los dos espaços de acompanhamento eclesial (cf. AL 216; 230).

Missão educativa da família
“A Igreja é chamada a colaborar, com uma ação pastoral adequada, para que os próprios pais possam cumprir a sua missão educativa; e sempre o deve fazer, ajudando-os a valorizar a sua função específica e a reconhecer que quantos recebem o sacramento do matrimônio são transformados em verdadeiros ministros educativos, pois, quando formam os seus filhos, edificam a Igreja e, fazendo-o, aceitam uma vocação que Deus lhes propõe” (AL 85). A exortação Amoris Laetitia insiste em três aspectos que a família é chamada a compartilhar para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito (cf. AL 29): 1) A oração 
A oração em família é um meio privilegiado para exprimir e reforçar a fé. Podem-se encontrar alguns minutos cada dia para estar unidos na presença do Senhor vivo (cf. AL 318). “É fundamental que os filhos vejam de maneira concreta que, para os seus pais, a oração é realmente importante” (AL 288). Por isso, as várias expressões da piedade popular são um tesouro de espiritualidade para muitas famílias (cf. AL 318) e podem ter mais força evangelizadora do que todas as catequeses e todos os discursos (cf. AL 288). Além de criar espaços semanais de oração familiar, convém incentivar cada um dos cônjuges a reservar momentos de oração a sós diante de Deus, porque cada qual tem as suas cruzes secretas (cf. AL 227).
2) A leitura da Palavra de Deus 
“A Palavra de Deus é não só uma boa nova para a vida privada das pessoas, mas também um critério de juízo e uma luz para o discernimento dos vários desafios que têm de enfrentar os cônjuges e as famílias” (AL 227). Por isso, toda família deve deixar-se moldar interiormente através da leitura orante e eclesial da Sagrada Escritura (cf. AL 227). Mesmo o diálogo familiar é enriquecido quando a família se alimenta com frequência da leitura e da reflexão pessoal da Bíblia (cf. AL141).
3) A comunhão eucarística
No ambiente familiar, “o caminho comunitário de oração atinge o seu ponto culminante ao participarem juntos na Eucaristia, sobretudo no contexto do descanso dominical”. “O alimento da Eucaristia é força e estímulo para viver cada dia a aliança matrimonial como igreja doméstica” (AL 318). Desse modo, o espaço vital duma família transforma-se em local da Eucaristia, da presença de Cristo sentado à mesma mesa: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20)” (cf. AL 15). 
“A transmissão da fé pressupõe que os pais vivam a experiência real de confiar em Deus, de O procurar, de precisar d’Ele, porque só assim “cada geração contará à seguinte o louvor das obras de Deus e todos proclamarão as Suas maravilhas” (Sl 145/144, 4)” (AL 287). Por isso, também é bom incentivar os pais à confissão frequente, à direção espiritual e à participação em retiros espirituais (cf. AL 227). Com efeito, a educação da fé dos filhos adapta-se a cada fase da vida e a cada filho porque os recursos aprendidos ou as
receitas às vezes não funcionam. Não obstante, é bom ter em conta que as crianças precisam de símbolos, gestos e narrações enquanto com os adolescentes é conveniente estimular experiências pessoais de fé e oferecer-lhes testemunhos luminosos que se imponham simplesmente pela sua beleza (cf. AL 228). Urge valorizar os casais, as mães e os pais, como sujeitos ativos da catequese (cf. DGAE 2015-2019, 90). De grande ajuda é a catequese familiar, enquanto método eficaz para formar os pais jovens e torná-los conscientes da sua missão como evangelizadores da sua própria família (cf. AL 287). 

Iniciação à vida cristã
“A catequese de inspiração catecumenal a serviço da iniciação à vida cristã fundamentase na centralidade do querigma ou primeiro anúncio na missão da Igreja” (DGAE 20152019, n. 44). “Diante das famílias e no meio delas, deve ressoar sempre de novo o primeiro anúncio, que é o mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário e deve ocupar o centro da atividade evangelizadora” (AL 58). No processo de iniciação à vida cristã, a família também é destinatária do anúncio querigmático. Portanto, é preciso propor itinerários de iniciação à vida cristã que sejam, ao mesmo tempo, catequese familiar, sobretudo na catequese com crianças. Além dos encontros familiares que não são ‘reuniões de pais’ aos moldes escolares, a comunidade paroquial pode ter outras iniciativas como a participação ativa de pais e padrinhos nos diversos ritos que marcam as etapas e os tempos da catequese de estilo catecumenal propostos pelo Ritual da Iniciação Cristã de Adultos (RICA) e pelo Itinerário Catequético da CNBB.  
A instituição do Ministério dos Introdutores formado pelos mais diversos grupos paroquiais enquanto figuras acolhedoras, pode desempenhar um papel precioso de apoio às famílias, a começar pela iniciação cristã (cf. AL 84; 206). “As comunidades cristãs são chamadas a dar o seu apoio à missão educativa das famílias, particularmente através da catequese de iniciação. Para favorecer uma educação integral, precisamos reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã” (AL 279). No período do pré-catecumenato, os introdutores acompanham de forma pessoal e personalizada as famílias daqueles que estão implicados no caminho de iniciação à vida cristã para testemunhar e anunciar o querigma.
De fato, mais do que um conteúdo do primeiro tempo do itinerário catecumenal de iniciação cristã, o querigma é o fio condutor (cf. DAp 278) que permeia todo processo de evangelização. “É o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra. Porque nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio e toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma” (AL 58; 290). “O nosso ensinamento sobre o matrimônio e a família não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz deste anúncio de amor e ternura, se não quiser tornar-se mera defesa duma doutrina fria e sem vida” (AL 59).
É proveitoso permear os itinerários de iniciação à vida cristã de liturgias, práticas devocionais salutares, novenas, círculos bíblicos, encontros de leitura orante da Bíblia, bênçãos das casas, visitas duma imagem da Virgem, Eucaristias e outras iniciativas que a criatividade missionária sugerir que sejam celebradas com as famílias (AL 223; 230). 

Um itinerário de catequese com noivos 
Durante o caminho sinodal “evidenciou-se a necessidade de programas específicos de preparação próxima para o matrimônio que sejam verdadeira experiência de participação na vida eclesial e aprofundem os vários aspectos da vida familiar” (AL 206) e que também incluam a contribuição de profissionais que podem ajudar a encarnar as propostas pastorais nas situações reais e nas preocupações concretas das famílias (cf. AL 204). “Nesta pastoral, tem grande importância a presença de casais de esposos com experiência” (AL 223). 
Nesse sentido, propostas que se limitam a palestras em algumas horas de um “curso de noivos” dificilmente “inicia” ao matrimônio. Parece oportuno propor que grupos de noivos (cf. AL 208) façam juntos um itinerário rumo ao matrimônio. O número 224 da exortação Amoris Laetitia possuí elementos que podem fornecer alguns princípios de inspiração para a dinâmica desse itinerário: dialogar, expressar afeto (abraçar), partilhar projetos, escutar-se, apreciar (olhar nos olhos) e fortalecer a relação.
Nesse caminho, “interessa mais a qualidade do que a quantidade, devendo-se dar prioridade – juntamente com um renovado anúncio do querigma – àqueles conteúdos que, comunicados de forma atraente e cordial, os ajudem a comprometer-se num percurso da vida toda com ânimo grande e liberalidade (...) e iniciar com uma certa solidez a vida familiar” (AL 207). “Mas não seria bom chegarem ao matrimônio sem ter rezado juntos, um pelo outro, pedindo ajuda a Deus para serem fiéis e generosos, perguntando juntos a Deus que espera deles, e inclusive consagrando o seu amor diante duma imagem de Maria. Quem os acompanha na preparação do matrimônio deveria orientá-los para que saibam viver estes momentos de oração, que lhes podem fazer muito bem” (AL 216). “Entretanto são indispensáveis alguns momentos personalizados, dado que o objetivo principal é ajudar cada um a aprender a amar esta pessoa concreta com quem pretende partilhar a vida inteira” (AL 208). 
As dioceses poderiam recolher as propostas e itinerários de encontros com noivos para um estudo da CNBB de modo que possam ser estabelecidos itinerários que ofereçam uma formação adequada que, ao mesmo tempo, não afaste os jovens do sacramento (cf. AL 207). Convém, ainda, uma criatividade missionária para celebrar o dia dos namorados.

Recém-casados e jovens casais
As comissões da família, catequese e liturgia poderiam propor experiências mistagógico-celebrativas do Rito do Matrimônio com recém-casados para aprofundar o sentido do sacramento celebrado e do compromisso matrimonial (cf. AL 216). Com efeito, “o significado procriador da sexualidade, a linguagem do corpo e os gestos de amor vividos na história dum casal de esposos transformam-se numa continuidade ininterrupta da linguagem litúrgica e a vida conjugal torna-se de algum modo liturgia” (AL 215). Essas experiências celebrativas, adaptadas aos horários, à linguagem e à realidade dos jovens casais (cf. AL 36), podem constituir-se como oportunidade de vivência comunitária e já seriam propostas durante o itinerário de catequese com noivos. Para essas iniciativas poderiam ser mobilizados grupos que atuam junto as famílias, como o Encontro de Casais com Cristo e a pastoral familiar. Além disso, convém valorizar as Eucaristias celebradas com as famílias, sobretudo no aniversário de matrimônio (cf. AL 223).
Também é importante que “a Igreja ofereça espaços de apoio e aconselhamento sobre questões relacionadas com o crescimento do amor, a superação dos conflitos e a educação dos filhos” (AL 38) em que não só os presbíteros, mas também religiosos e religiosas, catequistas e outros agentes pastorais, sobretudo outros casais experientes estejam preparados para exercer esse ministério (cf. AL 202).

Situações familiares desafiadoras
Devido a variedade inumerável de situações familiares desafiadoras, a exortação Amoris Laetitia não propõe uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos (cf. AL 300), mas um discernimento pastoral e personalizado. Não se trata de apresentar uma normativa, mas de propor valores (cf. AL 201), “uma vez que o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos” e “as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300). “Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante” (AL 301). 
Faz-se necessário propor um itinerário de acompanhamento e discernimento que oriente os fiéis na tomada de consciência da sua situação diante de Deus (cf. AL 300). Um itinerário é uma tarefa “artesanal”, pessoa a pessoa (cf. AL 16) porque também “o amor é artesanal” (AL  221). Com efeito, embora esse itinerário contenha momentos comunitários é fundamentalmente formado por etapas personalizadas de modo que “é possível acompanhar com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia” (AL 308).

Princípios para um itinerário de discernimento:

1) Acolher com o coração o anúncio explícito do Evangelho. Na família deve ressoar o querigma que ilumina o caminho: o amor do Pai que nos sustenta e faz crescer, manifestado no dom total de Jesus Cristo, vivo no meio de nós, que nos torna capazes de enfrentar, unidos, todas as tempestades e todas as etapas da vida (cf. AL 290); De forma concreta, trata-se de um período adequado e privilegiado de catequese querigmática que pode ocorrer de forma personalizada com a ajuda de casais mais experientes ou de outros membros da comunidade preparados para essa tarefa, a exemplo do tempo do pré-catecumenato da catequese de iniciação à vida cristã.  

2) Tempo penitencial marcado pelo exame de consciência, através de momentos de reflexão e arrependimento (cf. AL 300). Esse tempo penitencial jamais pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela doutrina da Igreja (cf. AL 300); Não se deve ter pressa para propor ou encerrar esse tempo penitencial que deve ser vivido como experiência de amadurecimento da fé e tomada de consciência das limitações da própria situação familiar diante das exigências do Evangelho. Se não constituir grande escândalo para a comunidade dos fiéis, pode-se propor alguns momentos penitenciais celebrativos em comum. A exortação Amoris Laetitia exemplifica alguns elementos para o exame de consciência dos divorciados novamente casados: questionar-se como se comportaram com os seus filhos, quando a união conjugal entrou em crise; se houve tentativas de reconciliação; como é a situação do cônjuge abandonado; que consequências têm a nova relação sobre o resto da família e a comunidade dos fiéis; que exemplo oferece ela aos jovens que se devem preparar para o matrimônio (cf. AL 300). 

3) Acompanhamento, diálogo e aconselhamento com o sacerdote, no foro interno, para a formação dum juízo correto sobre aquilo que dificulta a possibilidade duma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que a podem favorecer e fazer crescer (cf. AL 300). Os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo (AL 300). Eles devem evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição (AL 296). Também devem deixar espaço à consciência dos próprios fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Os sacerdotes são chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las (cf. AL 37). “As portas dos sacramentos não deveriam se fechar por qualquer razão” (AL 300), portanto, esses colóquios entre o sacerdote e as pessoas em situações familiares desafiadoras, por vezes, podem culminar com o sacramento da Reconciliação uma vez que a previsibilidade duma nova queda não prejudica a autenticidade do propósito do penitente (cf. nota 364 AL 311). Com efeito, o auxílio sacramental é via privilegiada para o encontro com a Misericórdia de Deus.

4) Integração à vida e a missão da Igreja: convite a percorrer a via caritatis (cf. AL 290). A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos (cf. Jo 15, 12; Gal 5, 14). Não esqueçamos a promessa feita na Sagrada Escritura: “Acima de tudo, mantende entre vós uma intensa caridade, porque o amor cobre a multidão de pecados” (1 Ped 4, 8) (AL 306). A prática das obras corporais e espirituais de misericórdia são expressões da via caritatis (cf. AL 290). “Os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo” e não “só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem” (AL 297). “A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais” (AL 299), “quer em tarefas sociais, quer em reuniões de oração, quer na forma que lhe possa sugerir a sua própria iniciativa discernida juntamente com o pastor” (AL 297). “Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos, que devem ser considerados o elemento mais importante” (AL 299). Quanto àqueles que “constituem uma união que alcançou uma estabilidade notável por meio dum vínculo público – e se reveste de afeto profundo, responsabilidade pela prole, capacidade de superaras provações –, pode ser vista como uma oportunidade a encaminhar para o sacramento do matrimônio, sempre que este seja possível” (AL 78). “A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia” (EG 47; CF. nota 26 AL 300). De modo que, em certos casos, as pessoas em situações familiares desafiadoras poderiam receber também a ajuda do sacramento da Eucaristia (cf. nota 41 AL 305) para que possam crescer na vida da graça e da caridade.

Catequistas em situações familiares desafiadoras
Dentre as diversas formar possíveis de integrar as pessoas em situações familiares desafiadoras à vida e a missão da Igreja (cf. AL 299), o ministério da catequese aparece como possibilidade quer de própria iniciativa dessas pessoas, quer do convite do sacerdote ou dos membros da comunidade (cf. AL 297). Com efeito, se bem discernida a vocação e livre de escândalos, essas pessoas, mediante adequado acompanhamento, podem exercer o ministério de catequistas. De fato, pareceria contraditório recomendar a estas pessoas que façam todo o possível para educar os seus filhos na vida cristã, dandolhes o exemplo de uma fé convicta e praticada, e ao mesmo tempo, os mantermos à distância da vida da comunidade, como se estivessem excomungados (cf. AL 246). No entanto, é bom ter em conta que existem outras formas de participação em diferentes serviços eclesiais (cf. AL 299). “Obviamente, se alguém ostenta um pecado objetivo como se fizesse parte do ideal cristão ou quer impor algo diferente do que a Igreja ensina, não pode pretender dar catequese ou pregar e, neste sentido, há algo que o separa da comunidade (cf. Mt 18, 17). Mas, mesmo para esta pessoa, pode haver alguma maneira de participar na vida da comunidade” (AL 297).