quarta-feira, 25 de março de 2020

Dom Walmor faz contraponto a pronunciamento do Governo Federal


Presidente da CNBB comenta pronunciamento de Bolsonaro

Nós repudiamos, criticamos veementemente, autoridades do executivo nacional quando minimizam aquilo que precisa ser realizado com responsabilidade por todos nós. A pandemia do COVID19 e muitas outras pandemias não podem se compor agora mais e mais como pandemias de irresponsabilidades, de inconsequências e de falta de sentindo humanístico e respeitoso para com a dignidade da pessoa humana.

Por isso, nesse dia do acendimento da luz esperançosa, da festa da Anunciação, nós temos um Salvador! É Deus quem nos conduz e nEle encontraremos um caminho de superação de tantas crises e pandemias construindo uma sociedade mais justa e fraterna. Sem crise ambientais, sem a ganância do poder, sem o apelo ao dinheiro.

É preciso, primeiro, nesse tempo: FIQUE EM CASA! Esta é a indicação das autoridades competentes, sanitárias e sensatas. Fique em casa! Trabalhemos tudo o que podemos para ajudar a construir uma sociedade justa e fraterna. Os trabalhos precisam ser mantidos com as condições necessárias, resgatando e cuidando da vida de cada um de nós.

Esperamos dos poderes que ajam de modo a ter uma ordem social e política adequada, extirpando, de fato, aquilo que está na contramão e substituindo por caminhos novos que precisamos percorrer.

Esperamos, pois, muitas coisas, entre elas, do PODER EXECUTIVO, a apresentação de um grande projeto de contingência para o amparo dos mais pobres, nesse momento de crise. Um projeto inteligente, que faça mostrar que a sociedade brasileira cuida, de fato, dos cidadãos, sobretudo dos que precisam mais, dos vulneráveis, dos mais pobres, garantindo trabalho e sustento para todos.

Esperamos do LEGISLATIVO, em todas as suas esferas, a corajosa postura de mostrar com exemplos e com intuições que possam modificar o caminho do mundo e da sociedade brasileira, propostas concretas de mudanças, sobretudo no testemunho bonito de a todos convocando para a solidariedade.
Esperamos da SUPREMA CORTE a força de garantir a justiça e a defesa da ordem constitucional.

Nos segmentos todos da sociedade, esperamos competência e colaboração humanística e solidária. Abrindo mão de muitas coisas, de salários, de benesses, numa hora em que o mundo precisa mudar e só mudará na força da solidariedade”.

Dom Walmor,
Presidente da CNBB





sexta-feira, 20 de março de 2020

Resposta da liturgia católica diante do tempo de quarentena



A fé é sempre a mesma e simultaneamente é fonte de luzes sempre novas[1]
(cf. Mt 13,52)
epidemia de Covid-19, a exigência de isolamento, a impossibilidade de contato e a exposição à morte têm provocado em nós medo, angústia, terror e desespero. Ao mesmo tempo, o imaginário da proximidade do fim leva à descoberta do que é essencial na vida e desperta coragem, esperança e dedicação no cuidado e proteção.  Não podemos impedir a pandemia do vírus, mas podemos dar uma resposta individual e comunitário à realidade que enfrentamos. Essa resposta também perpassa a liturgia católica.
fragilidade do nosso modelo clerical – em que a mediação do padre torna-se central para a celebração da fé - está diante de nós, em sua impotência e teimosa arrogância. Formamos uma Igreja que celebra a fé num nível sacramentalista que pouco valoriza a ministerialidade laical. Volvamos nosso olhar para a radicalidade do sacerdócio batismal que certamente nos levará a intuir respostas criativas e aliviará os ombros "heroicos" dos presbíteros. Dito de outro modo, estamos num “jejum quaresmal de missas e demais sacramentos”. Nesse momento, os contextos de nossas casas – para os que têm uma casa onde se isolar - são muitos e diversos. O velho jeito de celebrar os sacramentos, particularmente a Eucaristia (Missa) já não responde à realidade. Por aí há famílias inteiras – em suas mais diversas configurações, pessoas sozinhas, idosos, crianças, pessoas que não saem mais de casa, pessoas que ainda precisam sair, mas não gostariam, pessoas que precisam sair para salvar os outros e não podem voltar, pessoas que passam 90% de seu tempo no hospital... Que resposta temos a elas?

A verdade é que nós nunca experimentamos uma profunda adaptação litúrgica. Devemos simplesmente esperar que tudo passe e voltemos aos velhos hábitos de antes? Há um risco de que em vez de novas formas, tenhamos apenas as velhas formas, espalhadas em todos os meios (TV, PC, smartphone, tablet telas gigantes...), quando poderíamos voltar às fontes da Igreja Primitiva: domus ecclesiae.  A celebração da fé poderia voltar a ser doméstica, cotidiana, secular. É uma oportunidade que se apresenta para aprender e ampliar a nossa tradição litúrgica - traditio et redditio, uma outra maneira possível de dar forma à vida das nossas comunidades de fé, que continuam a existir mesmo na ausência de momentos de agregação paroquial e sem padre.
Na simplicidade das casas, podem nascer maneiras de celebrar, rezar, lembrar, buscar a sabedoria das Escrituras para navegar nesses dias incertos, de medo e desconfiança.

A liturgia distante, que se aproxima através da TV ou do streaming ao vivo, permanece irremediavelmente distante. Mesmo que seja celebrada pelo pároco, pelo bispo ou pelo papa. Substitui o nada, e isso com certeza é algo, mas não permite celebrar, de fato. Uma Igreja que conheça a importância decisiva do ato de celebração, deixa de lado a "ligação" e a "conexão" e reconhece a necessidade fundamental da presença, da qual o sentido fundamental é o tato, mas talvez também o olfato, porque é urgente sermos arrancados do isolamento e da solidão.

 Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, e Mauro Festi têm uma importante contribuição sobre esse assunto que passo a reproduzir:  

Se a liturgia é a linguagem de todos os batizados, toda pequena comunidade "em quarentena" deve poder celebrar a Páscoa, sem delegar o ato eclesial a outros. Ela fará isso em comunhão com os santos e com a Igreja, mas terá que fazer isso por si só. Portanto, a dimensão familiar - reduzida àquele mínimo de família que é cidadão individual e fiel em seu apartamento - poderá e terá que entrar na dinâmica da palavra e do sacramento. E terá que fazer isso com o corpo, com todos os seus sentidos, não apenas com a vista faminta de imagens sagradas na tela. Uma "dieta dos olhos" e um "alimento substancioso" dos outros sentidos serão a lógica de uma Igreja que está dispersa, mas que não se perde, que é fracionada, mas não fragmentada, que é apartada, mas não isolada, mas sim consolada pela linguagem comum que atravessa os corpos, aquece os corações e nutre as mentes. O anúncio da ressurreição, enquanto evento corporal, pressupõe uma Igreja que saiba ainda dar a palavra ao seu próprio corpo integral. Isso é esperança. Mesmo neste tempo dilatado e ameaçador, que preocupa e aflige, mas abre novos passos possíveis, necessários e talvez decisivos.

A Ceia do Senhor nas Igrejas domésticas
Vamos tentar, no horizonte do que foi expresso até agora, imaginar como poderíamos celebrar a Ceia do Senhor em nossas casas, como autênticas Igrejas domésticas.
Deixamo-nos guiar pela liturgia, adaptando-a aos nossos contextos. É apenas um exemplo possível de "enraizamento" da liturgia eclesial em nosso mundo e modo de vida.

a. "Em sua glória" (Contemplação da cruz da glória)

A liturgia nos faria começar com um cântico inspirado nesta antífona de entrada:
Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (cf. Gal 6,14)

Poderíamos preparar um canto específico da casa, que se torna um pouco único no tríduo e durante toda o tempo da Páscoa, para colocar de maneira estável um crucifixo significativo, por valor afetivo, por valor estético ou porque feito em família.
Poderíamos começar nos reunindo ali, se possível com luzes mais suaves (mantendo-as assim o tempo todo), não antes de começar a cair à noite.

Poderíamos contemplar a cruz cantando um refrão com as palavras da antífona, se a conhecemos, ou com palavras semelhantes, ou proclamando-as. Poderíamos compartilhar, inclusive criando-o, um refrão ad hoc, de simples beleza, como comunidade paroquial ou como diocese, e fazê-lo circular para conseguir aprendê-lo a tempo.
Poderíamos encontrar palavras breves para orientar a contemplação em direção ao esplendor da glória, e sentir que a glória de Deus na cruz de Cristo tem a ver com seu peso na história, inclusive a nossa. Poderíamos então cantar o cântico da glória para confessar o louvor a Deus que em Cristo vem para tornar nossa história uma história de salvação. Poderíamos alternar um refrão do glória, com expressões de louvor que ecoem situações da história da salvação em que a glória do Senhor se manifestou e com as quais se possa perceber que nossa situação tem semelhança.

b. "Guarde a nossa vida" (rito de custódia do mal: a porta)

Naquele mesmo "canto especial", poderíamos colocar um jarro, talvez transparente, cheio de água.
Poderíamos buscar água nele e levar para um de nossos lugares mais "carregados" de problemas, de mal. Como os judeus, a soleira, a porta da frente. Não podemos atravessá-la, porque lá fora está o mal; dentro, ao contrário, a segurança da vida. Os judeus fizeram um gesto apotropaico, espargindo a soleira com o sangue do cordeiro que depois eles consumiriam. Poderíamos lavar os batentes da porta e a maçaneta com a água, realizando um gesto que estamos repetindo com frequência neste momento para nos proteger, mas oferecendo-lhe um contexto diferente, que o ressignifica, expondo-o à presença de Deus, para que esse mesmo gesto tenha o poder de ressignificar qualquer outra "lavagem" que faremos na vida cotidiana. "Vamos marcar" a soleira da casa com a água que recebemos da contemplação da glória de Cristo na cruz e da confissão de seu peso na história, que se faz esperança de fazer dele experiência na nossa.

Poderíamos acompanhar o gesto com uma parte do Sl 121:
Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.
O Senhor te guardará de todo mal; ele guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

Essa mesma água (que será reposta quando acabar) poderia ser a mesma água para encher a jarra para o jantar e, portanto, beber durante a ceia, e a mesma água para lavar as mãos antes de sentar mesa, talvez usando uma bacia e sabão.
É a mesma água e a mesma bacia com a qual será vivido o lava-pés. A mesma bacia e a mesma água poderiam encontrar um lugar em nosso canto especial, ao lado do jarro com água limpa. Como água "carregada" pela passagem salvífica de Deus, não será jogada fora, mas será guardada, pelo menos durante a época da Páscoa.

Ao atravessar a soleira, voltando para casa, pode-se narrar, em breve, a ceia judaica: como Deus pediu aos judeus que espargissem os marcos das portas de suas casas com sangue, para defendê-los do extermínio da morte, hoje nós os purificamos com a água da vida, invocando a mesma proteção.
Lavamos as mãos. Buscamos a água para colocar na mesa.

c. "Admita-nos no banquete do seu reino" (rito de aliança)

Poderíamos nos sentar à mesa, começando a ceia "abençoando a mesa" com a citação de Apocalipse (3,20; 22,20):
O Senhor diz: Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.
R. Venha, Senhor Jesus.

Inicia-se a ceia. É importante que seja uma ceia onde a ênfase possa ser colocada no pão e no vinho. Seria bom se o pão fosse preparado em casa, talvez juntos, e fosse suficiente para o dia seguinte. Diante do pão e do vinho, compartilhando-os e degustando-os, poderíamos nos ajudar mutuamente a descobrir quantas relações, quanto trabalho, quanta natureza, quanta providência, quanta Escritura há neles. E quando se chega a perceber - conversado, talvez até com histórias "do passado", trocando essas palavras cheias de gratidão e admiração - que está sendo tocada a dimensão da aliança, proclama-se a história da instituição em 1Cor 11, 23- 26.

d. "para que possamos ter parte com você" (rito de custódia do mal: amor até o fim)

Após a proclamação do relato da ceia, uma lavagem mútua dos pés poderia ser realizada (deixando a ceia ali onde está ...). Como se sentíssemos a urgência de agir na mesma lógica da aliança que nos faz experimentar o pão, o vinho e o relato. Aquele que conduz a oração se levanta, vão pegar uma toalha, tira água do jarro e pega a bacia e pede para poder lavar os pés dos outros membros da família, que talvez poderiam nem saber do gesto. Lava os pés com o sabão, beija-os e lava-os novamente com sabão (para não causar contágio). Mas, pelo menos assim, finalmente, se pode voltar a dar um beijo, advertindo-o não perigoso, mas é vital dizer até que ponto a vida do outro me importa, até que ponto a vida do outro importa a Deus, e quero que seja afastada das garras do mal. Se o contexto permitir, pode-se, de fato, viver o gesto com reciprocidade, para que cada um possa acessar novamente esse com-tato essencial, ressignificado cristologicamente. O tempo em que entramos, com nossa "quarentena", não é um tempo apressado; portanto, a ceia e o próprio ato do lava-pés podem não ser tão estilizados a ponto de se tornem insignificantes; pode levar todo o tempo, simbólico e poético, necessário.

Depois de ter realizado o lava-pés, pode-se proclamar o Evangelho (Jo 13, 1-15) e deixar um pouco de silêncio, para que as sensações, pensamentos e percepções relacionadas ao que está sendo vivenciado possam emergir dentro de si.

silêncio poderia então se abrir e se tornar intercessão, para todos aqueles com quem nos preocupamos e que gostaríamos de lavar para preservar do mal e alcançar com nosso beijo de amor e dedicação, de bênção e eternidade. Essas orações seriam então reunidas na oração fundamental, do Pai nosso, onde é Ele quem acolhe nossas vidas em suas mãos, libertando-nos do mal.

e. Entramos na noite, acompanhados pelo perfume (rito de entrada na noite)

O canto "especial" da casa, que é importante seja um pouco "isolado", percebido como diferente, pode se tornar um local importante para acompanhar o tempo da Páscoa como chave de acesso ao tempo da ameaça da pandemia. Permanecem ali a cruz, a Sagrada Escritura, o jarro com água "pura" e a bacia com a água que purificou. Ali, no final da ceia, se pode colocar o pão para o dia seguinte, aquele pão que hoje está cheio de sentido, e deverá ser capaz de dar sentido também ao drama do dia seguinte.

Ali, uma vela perfumada é acesa e deixada queimando enquanto a casa é reorganizada, após a ceia, para que o perfume se espalhe.
No início da ceia, se pode suspender o uso dos vários meios de comunicação e entrar em um silêncio de profundidade.
Depois da arrumação, prontos para ir para a cama, poder-se-ia reunir, em silêncio, neste canto sagrado da casa, deixando entrar em si o brilho da luz da vela, enquanto todas as outras luzes são apagadas e o perfume se espalha. Poderíamos nos dar o boa noite ali, retomando o Salmo 121, na íntegra:

Levanto os meus olhos para os montes e pergunto:
De onde me vem o socorro?
O meu socorro vem do Senhor,
que fez os céus e a terra.
Ele não permitirá que você tropece;
o seu protetor se manterá alerta,
sim, o protetor de Israel não dormirá,
ele está sempre alerta!
O Senhor é o seu protetor;
como sombra que o protege, ele está à sua direita.
De dia o sol não o ferirá,
nem a lua, de noite.
O Senhor o protegerá de todo o mal,
protegerá a sua vida.
O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada,
desde agora e para sempre.

Poder-se-ia terminar com o Glória ao Pai, confiar-se à intercessão materna de Maria e apagar a vela, tomando cuidado antes que o percurso para chegar aos quartos no escuro seja facilmente praticável. Assim, será possível entrar na noite que prepara a morte, acompanhados pelo perfume que consegue habitá-la mesmo quando a última luz se apaga.

Sites consultados:


[1] http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_19921011_fidei-depositum.html

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Floresta Natalina de Emanuel


Quando Emanuel nasceu, conta-se que ele fora encontrado recém-nascido num galho de árvore, dentro de uma flor aroseada tão grande que as pétalas macias, frágeis e ao mesmo tempo protetoras envolviam por completo o menino que só fora descoberto porque passava por ali um grupo que escutou o seu choro mimoso. Esta fora a única flor gerada por aquela árvore, como se ela tivesse concentrado todo o seu florir naquela amostra unigênita de sua botânica. A flor fechara para nunca mais se abrir depois de ter deitado ao mundo o jovem Emanuel.

A árvore de cuja flor brotou Emanuel era frondosa, de galhos cheios que faziam uma refrescante sombra aos passantes. Pela história do nascimento de Emanuel que corria de boca em boca por ali, chamavam-na de Árvore que dá Vida ou Árvore Mãe. Com o tempo e o costume do povo, falava-se apenas em Árvore da Vida. De fato, não era um árvore qualquer: Ela se destacava em meio as outras pela verdedura e pela energia que inspirava a quem a olhasse de perto. Quando a brisa leve farfalhava seus galhos, ela parecia alegrar-se e o barulho de suas folhas lembrava um canto de amor. O vento acariciava-a e ela zunia docemente em agradecimento.

Emanuel que agora já era um menino, escutara a história de seu nascimento diversas vezes, contada por todos do pequeno vilarejo perto de onde a árvore estava. Já fazia algum tempo que Emanuel decidira ir morar à sombra da Árvore da Vida. Ora, já que lhe diziam que ele brotara da árvore, nada mais justo do que ele morar aos seus pés, pensara. E assim fez: Armou a sua tenda à proteção dos galhos da Árvore da Vida e por ali ficou.

O pequeno Emanuel era conhecido e querido por todos do vilarejo. Ele caminhava até lá todos os dias. Passeava pela praça onde sempre encontrava conhecidos que lhe davam o de comer ou algum dinheiro em troca de pequenas tarefas e trabalhos simples. No fim do dia, ele voltava para a Árvore e, já ao longe, quando avistava os seus primeiros galhos, o seu coração se enchia de alegria. Havia tardes que, enquanto o sol se punha, ele ficava contemplando a Árvore e meditando sobre a história de seu nascimento. Assim, passavam-se os dias do infante Emanuel.   

Certa vez, Emanuel notou lá na copa da Árvore algo diferente de folhas. Era algo com tons de amarelo vivo. Subiu no galho mais baixo e depois trepou-se em uma mais alto até conseguir ver do que se tratava: Era um fruto amareleço de formato violão que Emanuel não conhecia. Ele escalou em outro galho ainda mais alto e logo podia tocar no fruto novo. Colheu-o. Era o primeiro fruto não menino que a árvore dava. Sua superfície era levemente aveludada e acariciável ao toque humano. O cheiro doce e inebriante atiçava o paladar. Emanuel teve vontade de comê-lo e ali mesmo, embrenhado entre as ramas da Árvore da Vida, fartou-se do fruto novo. Pela primeira vez na eternidade saboreou-se dum alimento de suculência tão saciadora. Era uma delícia de fruto que podia ser abocanhado com leveza e que enchia o paladar de tão aquoso que era. Emanuel festejou agradecido pelo novo fruto. Depois, desceu até sua tenda e recostado no tronco da Árvore adormeceu. E sonhou um sonho tão lindo e sagrado que não ousou contar a ninguém sobre as maravilhas dos mistérios insondáveis que vislumbrou naquela noite. Seu coração de menino estava acalentado.

Na manhã seguinte, para sua surpresa, a Árvore da Vida frutificara mais uma meia dúzia de frutos. Emanuel apanhou-os em uma cesta a fim de levá-los para o vilarejo. Lá, distribuiu-os para aqueles que eram mais pobres e famintos, como ele. Naquele dia, porém, Emanuel notou que as pessoas o cumprimentavam dispensando-lhe mais atenção do que o costume e dando-lhe os parabéns. Foi quando lhe caiu na conta que com a colheita do fruto novo, esquecera completamente de que dia era aquele: o dia em que se comemorava o seu nascimento. Emanuel ficou ainda mais contente, pois sabia o que isso significava: era dia de festa. Desde que completara um ano de vida, era costume dos moradores do vilarejo que nesse dia, ao cair da tarde, todo o povo se reunisse em torno do lenhoso tronco da Árvore da Vida, levando velas e lamparinas que penduravam nos galhos para ali celebrarem a vida de Emanuel. Dessa vez, além de toda a comida e bebida trazida por eles, haveria também os novos frutos da Árvore da Vida. E, de fato, a alegria e o encanto com os novos frutos foram tão intensas, que os cantos e danças arrastaram-se noite adentro e os homens e mulheres daquele tempo chamaram aquele festejo de Natal.



Dias depois, Emanuel notou que ao redor da grande Árvore nasceram várias outras pequenas árvores da mesma espécie. Passado alguns meses, rápido como o soprar do vento, elas já não eram mais brotos pequenos, mas sim verdadeiras árvores cujos galhos se encontravam formando um único teto esverdeado sob a cabeça de Emanuel e de quem por lá passasse. Era uma inteira floresta nascida da Árvore da Vida. E apesar das árvores serem todas irmãs, misteriosamente cada uma delas produzia um fruto diferente nas cores e nos sabores. Que floresta adorável essa em que o jovem Emanuel vivia!

Agora, haviam dias em que ele não era mais visto no vilarejo e julgavam que estava na floresta que se alastrava dia a dia. Ainda assim, os viajantes que por lá passavam raramente o encontravam. A floresta era toda silêncio humano. Só os pássaros e o vento nas folhas pareciam cantarolar um perene hino sacro. 

No vilarejo os boatos eram incontestáveis: O festejo do Natal daquele ano ia ser o maior de todos, pois havia agora uma inteira floresta com frutos em abundância para celebrar. Outros moradores de vilarejos mais distantes, peregrinos e até estrangeiros também apareceriam para a festa do Natal que ganhava novas proporções.

De fato, naquele ano, o Natal de Emanuel foi grandioso. Mas com a sua grandeza, aconteceu de um ou outro festeiro, tomados por um instinto egoísta que contradizia o espírito da comemoração do nascimento de Emanuel, armarem-se de instrumentos cortantes a fim de levarem para si árvores do Natal, ferindo a Floresta e a celebração. Eles queriam cultivar as árvores só para si mesmos, privilegiando-se de seus frutos, e os mais vis já almejavam enriquecer com o comércio da frutificação das árvores do Natal. Então, Emanuel que subira em um dos galhos da Árvore da Vida gritou a estes e a todos, proclamando:

- Depõe tuas armas e sê bem-vindo! Cá, à sombra acolhedora da Árvore de Natal, dividimos os frutos desse convívio de fraternidade! É desejo de partilha e de festejo do Reinado Divino! Dá mais um passo, chega mais perto, coma e beba dessa ceia natalina sem nenhuma paga! Inebrie-se com os frutos dessa Árvore de Vida que nos abraça a todos e todas com seus galhos frondosos e frutificados! Entra na roda com a gente e cante um hino natalino que alegra e resfolega o coração de utopia! Que saudades de um mundo melhor!

Fez-se silêncio. E o som do farfalhar das árvores pelo vento, escutado por pessoas saciadas pelos frutos das árvores da Floresta, despertava nos convivas o desejo de cantar cantos e hinos de alegria, os cantos de Natal. E o Reino da festa de Natal vigorava e tudo parecia suficiente.

Outros festeiros de terras longínquas, mais acanhados e discretos, procuraram Emanuel para dizer-lhe o quanto o Natal os repleitavam e do desejo sincero e profundo de poder celebrá-lo novamente em suas terras e lares distantes, pois sabiam que não poderiam voltar à Floresta de Natal. Emanuel escutou-os a todos com compaixão e misericórdia. Ele sabia o que eles queriam e precisavam: levar uma das Árvores de Natal e cultivar a celebração que se realiza ao seu redor. E assim ele lhes concedeu. Mas, na intimidade de seu coração, Emanuel sabia que o tempo da Floresta da Árvore da Vida estava acabando e que ao redor das árvores de seu nascimento nascia agora algo novo e maior: a propagação do Natal.

Aquela noite foi a última em que Emanuel foi visto pelos festejantes do seu Natal. Ele nunca mais apareceu no vilarejo. Alguns dizem que ele permanece na Floresta de Natal e que na época das comemorações natalinas ainda é possível vê-lo dançar enquanto come frutos novos. Outros dizem que ele viaja mundo afora, levando Árvores de Natal e sua celebração de fraternidade e partilha para outros povos e nações. Os mais místicos arriscam dizer que Emanuel faz-se sempre presente toda vez que um punhado de gente se reúne em torno de uma árvore para celebrar o Natal.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

As florestas natalinas das Árvores de Natal



Antes de se popularizar, já São Bonifácio decorava em sua Igreja, por ocasião do Natal, uma “nova” Árvore da Vida (cf. Gn 2,8), sinal do Cristo, novo Adão. Diz um texto bíblico: “No meio da praça e em ambas as margens do rio cresce a Árvore da Vida, frutificando doze vezes por ano, produzindo cada mês o seu fruto, e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 22,2). 

Aos poucos, o costume de colocar também dentro de casa um Árvore da Vida – de Natal – ganhou força e hoje é possível imaginar a verdadeira floresta natalina que habita milhões de lares nessa época do ano, como que cumprindo uma profecia bíblica: “As florestas e todas as árvores odoríferas, darão sombra a Israel, por ordem de Deus. Sim, Deus guiará Israel, com alegria, à luz de sua glória, manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem” (Br 5,8-9;  1ª Leitura do 2º Domingo do Advento Ano C). São Árvores que dão sombra a Israel, árvores que aconchegam sob seus galhos o pequeno menino, o filho do Altíssimo; árvores que acolhem na misericórdia e na justiça o Messias esperado, o filho de Davi, filho de Jessé. “Naquele dia, nascerá um galho do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o Espírito do Senhor” (Is 11,1). “Naquele dia, a raiz de Jessé se erguerá como um sinal entre os povos; hão de busca-la as nações, e gloriosa será a sua morada” (Is 11,10). A raiz brotou, o rebento cresceu e de seu tronco de Árvore da Vida fez-se árvore do madeiro da Cruz, donde superabundou a Vida: Jesus é a verdadeira Árvore da Vida - de Natal

O Menino Jesus nascido em pobreza é a semente da justiça que frutifica em Árvore da Vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). “Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jr 33,15 – 1º Leitura do 1º Domingo do Advento Ano C). Jesus nasce pobre com os pobres, sua humanidade até a raiz assume toda a condição humana, menos o pecado. Ele assume a causa dos empobrecidos e marginalizados e dá a vida em resgate da justiça na terra e da dignidade de todo homem e de toda mulher. O apelo de ver o menino Jesus nos irmãos e irmãs, particularmente os que mais sofrem, ainda é vigente: Em cada criança faminta, sem moradia, afeto e direto à educação e saúde básica está presente o menino Deus feito pobre entre os pobres que clama por uma sombra de Árvore da Vida que lhe dê mais vida.  Árvore de Natal faz-se eloquente convite ao compromisso com a justiça e com a promoção da Vida plena para todos.

O Incrível significado das bolas da árvore de Natal


O tempo do Natal nos coloca numa atmosfera de fraternidade e gratuidade generosas que nos inspiram um estilo de vida mais humano e o sonho de um mundo mais justo e feliz. É a Mística do Natal que aproxima a todos, mesmo os não crentes e aqueles que não comemoram o sentido religioso da data. O “espírito do Natal” nos alcança e inebria. Por isso, hoje, diante da pluralidade em que vivemos, mais do que nunca, é oportuno deixar-se encantar pela rica simbologia natalina que nos toca e une a todos. Resgatá-la em suas origens e revalorizá-la possibilita o encontro de diálogo e partilha da mística envolvente desse tempo natalino.


O “ofertório” das bolas de Natal

Um dos símbolos de Natal mais usados são as bolas da árvore de Natal. Tradicionalmente vermelhas, as bolas de plástico hoje substituem o antigo costume de colocar frutas de verdade na Árvore de Natal, especialmente as maças! De acordo com uma tradição bíblica, frutos da terra e da colheita do trabalho do homem do campo eram ofertados a Deus em louvor pela colheita abençoada: “Trarás à casa do Senhor, teu Deus, as primícias dos frutos do teu solo” (Ex 34,26). Homens e mulheres, trabalhadores simples e humildes, como os pastores que na narrativa bíblica visitam Jesus, ofereciam o fruto de seu trabalho e da mãe terra ao Deus da Vida.  

De fato, isso é tão verdade que ainda hoje isso acontece. Estive no Paraguai em 2017, em cidades do interior e na grande cidade de Encarnación e vi por lá muitas frutas depositadas aos pés de presépios, especialmente melancias que são abundantes nessa época. A atitude que está por trás desse gesto é só uma: gratidão. É o exercício de agradecer os “frutos” recebidos da Vida. Gesto esse que ainda pode ser repetido por nós. Frutas nas árvores de Natal têm haver com ofertório! Na Europa as maças decoravam a árvore de Natal – sinal da Árvore da Vida – num gesto de agradecimento pela nova frutificação, o dom da Vida do Menino Deus que se fez homem por nós.

Na Catedral de Encarnación as frutas eram de plástico porque o presépio ficava exposto no pátio em frente à Igreja e as frutas logo poderiam apodrecer. Hoje, as bolas de plástico coloridas substituíram os diversos tipos de frutas. Porém, o convite à atitude de agradecer os frutos colhidos permanece. Decorar a Árvore de Natal com bolas coloridas pode ser um gesto de recordação da vida em agradecimento por tudo de bom que a vida é e tem. Cada bola um agradecimento. Cada bola, um desejo expresso de um fruto que ainda precisa ser colhido. Cada bola, uma prece. 

Em algumas igrejas, as famílias trazem uma bola de natal para decorar o entorno do presépio ou a Árvore de Natal da comunidade. Esse gesto é feito no ofertório ou durante as preces dos fiéis, com um canto apropriado.